A Covid-19 e o jeito americano de morrer, por Ayala Gurgel

O fato é que, na forma invisível de um vírus, a peste desmascarou sistemas frágeis de saúde e de assistência social, fez governos arrogantes adotarem medidas odiadas por seus patrocinadores e reduziu ao descaso o controle sanitário capitalizado privado.

Dia dos Mil Mortos - Ilustração de Carlus Campos para o jornal O Povo

A Covid-19 e o jeito americano de morrer

por Ayala Gurgel

A pandemia causada pelo coronavírus transmissor da doença Covid-19 é uma daquelas situações em que as pessoas dizem ter uma lição para aprender. Não todos. Alguns são teimosos, outros obtusos e muitos fazem o tipo de pessoa que passa pela vida, mas a vida não passa por ela. Há quem esteja tão otimista que profetize um novo mundo pós-2020. Estou pagando pra ver, enquanto luto para não virar estatística, contabilizada ou não-oficial, entre os vitimados. Independente do que venha a acontecer, há algo que ela já nos ensinou: a peste põe em xeque o “jeito americano de morrer”. Aquele modelo iniciado com a industrialização médica pós-guerra e que tão rapidamente se espalhou pelo ocidente vendendo a morte e o morrer como algo frio, distante, mediado pelo poder de compra de cada um. Se antes a morte e o morrer eram tratados como próximos das pessoas – algo doméstico até – passaram a ser tratados como estranhos, como inimigos a serem derrotados, com a medicina ganhando a batalha. O jeito americano de morrer transferiu a experiência da morte do ambiente domiciliar para o hospitalar, do cuidado familiar para o cuidado profissional especializado.

Intencional ou não, esse modelo serviu para liberar o trabalhador do cuidado com os moribundos e ficar mais tempo nas fábricas, longe daquilo que não era mais produtivo. A industrialização afastou paulatinamente a nossa convivência com a morte. Deixamos de falar dela, interditamos muitos dos antigos rituais, passamos a conhecê-la como algo distante, pela mídia, como espetáculo. Serviu também para reavivarmos um antigo hábito, o de tratar os rituais fúnebres quase como um direito privado: cada qual fazia do seu modo, conforme seus valores e poder aquisitivo. A peste veio justamente pôr isso em xeque.

Sempre que ocorre uma pandemia, um pandemônio toma conta da população: o coletivo se sobrepõe ao privado e muitas formas organizacionais surgem para dar conta dos medos associados ao morrer. O processo de urbanização da maioria das cidades brasileiras é exemplo disso. Ele explodiu em torno da necessidade do enfrentamento de alguma peste. As respostas mais comuns envolveram a criação de uma polícia sanitária, redes de solidariedade, administração de dejetos, acesso à água potável e cuidados de higiene ao lado de sepultamento em massa. Com as pestes surgiram os grandes cemitérios públicos: construções de alvenaria fortificadas que, graças ao descaso com a topografia e planejamento urbano, ocuparam territórios privilegiados, terrenos férteis e que vieram a se tornar problemas sociais depois. A estratificação social, a superlotação, a especulação imobiliária, a contaminação das nascentes e lençóis freáticos são alguns exemplos. A lição que deveríamos ter aprendido é que a prática de sepultar muitas pessoas ao mesmo tempo, no mesmo espaço, cria mais problemas se não for bem gerenciada: imaginem que em Fortaleza, nos idos de 1878, num único dia foram sepultadas mais de mil pessoas. O conhecido “dia dos mil mortos”. As consequências são sentidas até hoje.

Como gerenciar isso? Como lidar com o risco da peste sem perder a dignidade e causar enfrentamentos com os valores e hábitos criados por uma forma asséptica de morte – aquela na qual os cemitérios são verdadeiros parques, limpos, com seus jardins e suas belas capelas e salões para recepção – sem criar conflito com esse jeito americano de morrer?

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Nossa sociedade sempre conviveu com a peste, desde a dizimação indígena, mas parece que aprendemos pouco. Talvez por isso, ela trouxe de volta para nosso cotidiano a presença, e para muitos o medo, da morte. A morte agora tem a cara do vizinho, do estranho na esquina, do entregador de delivery, do taxista, do profissional de saúde que cuida da sua vida. Não há como saber. Os rituais mais necessários, como a higiene e o afastamento social, e os mais exagerados, como estocar papel higiênico ou álcool gel, não são garantias. Volta-se o apego aos talismãs e seus xamãs, mas essa realidade não obedece fórmula mística ou monetária. A única certeza é a de que qualquer um pode ser uma vítima.

A chamada coronacrise também trouxe de volta o nosso amadorismo para lidar com a morte em massa. Sepultar as vítimas da peste como estamos fazendo é, literalmente, jogar uma fina camada de pó sobre o problema. Essa prática não terá bons resultados. O envenenamento da terra, a reconfiguração das necrópoles que não foram projetadas para isso, a necessidade de novos espaços, o empilhamento de corpos… As civilizações que administram essa questão há mais séculos recomendam a cremação. A indústria da morte até tentou se adaptar a essa ideia, mas seu interesse voltado para o lucro e o domínio do modelo fundiário não criou suporte para situações como essa. O sistema funerário está falido. Em muitas localidades não há caixões ou espaço nos cemitérios. A lista de espera nos crematórios é grande. Não espaço funerário suficiente. Os coveiros estão trabalhando em turnos dobrados, sem equipamentos adequados ou treinamento específicos para esse tipo de situação.

Para alguns, essa ainda é a melhor solução, já que conviveram a vida inteira com a ideia da vida administrada em um espaço urbano territorializado. Para muitos é mais grotesco imaginar centenas de fornos funcionando dia e noite para cremar os mortos. A solução mais aceita ainda é do século XIX: enterrar os mortos sob a terra, em largos cemitérios, em massa, às pressas, com rituais e regras de higiene improvisadas.

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O fato é que, na forma invisível de um vírus, a peste desmascarou sistemas frágeis de saúde e de assistência social, fez governos arrogantes adotarem medidas odiadas por seus patrocinadores e reduziu ao descaso o controle sanitário capitalizado privado. Mostra-nos que a promessa de que a morte seria uma pompa funerária, sob controle, com a comida, a decoração, a quantidade de velas e músicas, além de todos os acessórios que o dinheiro poderia comprar, nem sempre pode ser cumprida.

O jeito americano de morrer, nos hospitais, acompanhado por uma equipe de saúde com os equipamentos mais sofisticados, foi substituída pelo “fique em casa”, morra em casa. Morra junto aos seus, vire estatística, tenha uma morte duvidosa, sem confirmação diagnóstica; tenha um sepultamento miserável, numa cerimônia às pressas, se tiver sorte, sem despedidas, sem últimos desejos… Quem vai explicar para “aonde foi o vovô”? Ou quem vai nos rituais de despedida? Quem vai acreditar em um caixão lacrado? Quem vai aceitar se despedir de um corpo sem vê-lo? Quem vai acreditar nos governos que sugerem que seus entes queridos falecidos são apenas baixas na pandemia, que suas mortes foram necessárias para salvar a economia? Qual a lição que vamos tirar dessa vez?

A peste não quer a pompa, ela não respeita nem a vida, imagine o capitalismo.

Ayala Gurgel é Bacharel em Filosofia (1997, UFPB). Especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (2013, Estácio de Sá), Mestre em Filosofia (2001, UFPB), Doutor em Políticas Públicas (2008, UFMA), Professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão) de 1998 a 2014. Desde 2014, Professor da UFERSA (Universidade Federal Rural do Semi-Árido). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ética, Bioética, Tanatologia e Saúde Mental.

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