A nação do dia D e da hora H: entre demagogias e hipocrisias, por Alexandre Filordi    

Mas por que e para que o suspense? Talvez porque seja preciso manter o nível de autoengano para um país, que começa com B, e que caminha rumo a um buraco sem fim.

(Extraído de https://br.depositphotos.com/stock-photos/brasil-falido.html)

A nação do dia D e da hora H: entre demagogias e hipocrisias

por Alexandre Filordi

No Brasil, a vacinação contra a pandemia do Covid-19 iniciar-se-á “no dia D, na hora H”, soubemos ontem da boca do ministro da Saúde. A julgar que passamos de um terço do mês de janeiro, podemos suspeitar o quanto o dia D insinua demagogia e a hora H, hipocrisia.

Se houvesse, de fato, agenda programada para uma campanha de vacinação, dada a logística continental exigida para ela, divulgá-la não seria um alento para todos nós e, inclusive, para a malfadada economia? Mas por que e para que o suspense? Talvez porque seja preciso manter o nível de autoengano para um país, que começa com B, e que caminha rumo a um buraco sem fim.

Ontem mesmo, o GGN noticiou que o governo pode garantir apenas a primeira dose da vacina de Covid-19 (https://jornalggn.com.br/coronavirus/governo-pode-garantir-so-a-primeira-dose-da-vacina-covid-19/). O contorcionismo para fazer que a população aceite que essa estratégia seja suficiente para conter a pandemia, no lugar de se visar uma imunidade completa, é absolutamente coerente com o grau de perdição ao qual estamos submetidos. Em termos de perdição, aliás, há muitas coincidências nisso tudo.

A fala acerca do dia D, na hora H casou-se perfeitamente com duas notícias, no mesmo dia, que dão sentido ao B, de buraco sem fim, e, nele, a nossa queda livre. De um lado, tivemos o anúncio de que 5 mil postos de trabalho do Banco do Brasil serão cortados, sob a estratégia de se “conter gastos”. De outro lado, o fechamento de 3 fábricas da Ford no Brasil. Mais 5 mil desempregados para a conta, como se anunciou. Doravante, o Brasil passará a comercializar veículos da Ford fabricados na Argentina e no Uruguai. O impacto direto e indireto na cadeia produtiva é difícil de se medir e de se computar, embora pressagiamos que bom não seja.

Em breve, a pandemia cumprirá seu primeiro aniversário entre nós. Nenhum governo sério deixou de antecipar medidas funcionais para mitigar os danos das causas desastrosas que, tanto no âmbito social quanto econômico, a pandemia prenunciava. Mas no país do B, isso nunca foi levado a sério. E considerando-se o fato de o Ministério da Saúde assinalar que a ideia não é um plano de imunização completa, é possível antever que a segunda dose já esteja estrategicamente entregue à sanha e à eficiência da especulação privada. Não à toa, antes mesmo do Governo Federal, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) se mobilizou, desde dezembro último, para comprar 5 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19. Não há entrelinhas aqui: o brasileiro que desejar fechar o ciclo da imunização completa deverá preparar o bolso, ou seja, uma minoria absoluta.

Enquanto isso, os amigos argentinos já iniciaram 2021 sendo vacinados e, desde ontem, com outra boa notícia: a produção da Ford-Brasil passará ocorrer sob o som do tango. Mas quem dança, na verdade, é o brasileiro. Talvez ingênuos sejamos nós, que não sabemos ler as coisas direito, ou as coisas da direita. No fundo, a mensagem era uma cifra: a vacinação começará no dia D, de desemprego; na hora H, de hiperprecarização ou hiperinflação, se preferir. Contudo, como isso já ocorre, faltou-nos dizer em que patamar do buraco sem fim.

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