A pandemia como laboratório para a ciência econômica, por Fernando Nogueira da Costa

Além de enfrentarmos a falsa disjunção entre saúde pública ou saúde econômica, experimentamos todos o quanto somos dependentes de cooperação entre uns e outros. O mundo socioeconômico e político contemporâneo sobreviverá só com democracia – e antifascismo.

Foto - VICTOR MORIYAMA/GETTY IMAGES

Pandemia como Laboratório para a Ciência Econômica

Por Fernando Nogueira da Costa[1]

A Lógica Clássica está constituída a partir de apenas dois valores de verdade: verdadeiro ou falso. Tal lógica convence por ser intuitiva e estar em conformação ao raciocínio humano. Pensa: “é virgem ou não é”, “está grávida ou não está”, “certo ou errado”.

O cérebro humano abomina complexidade. Sente dificuldade em lidar com um pensamento sistêmico sobre o nível de realidade emergente de interações de múltiplos e heterogêneos componentes. Nessa escala, a configuração temporária se encontra de maneira distinta em relação à mera extrapolação ou agregação simplória da vivência experimentada por cada indivíduo em seu mundinho. O reducionismo não é pertinente.

A visão holista enxerga o conjunto. O individualismo metodológico é bottom-up, isto é, de baixo para cima. Confunde e reduz a defesa de liberdades individuais apenas à busca do self-interest em livre-mercado. O egoísmo geral se equilibraria pela “mão invisível”.

O método histórico-indutivo se distingue do idealismo desse método dedutivo-racional. Parte da sensibilidade ao mundo real, tudo aquilo concreto, nos afetando o tempo todo, independente da nossa crença ou de o que façamos a respeito. Todos os fenômenos naturais e objetos sólidos, cujos contatos em nível microscópico ou macroscópico são perceptíveis, pertencem a esse nível de Realidade Objetiva.

Os idealistas imaginam: “nós combinamos” aquilo considerado “real” e não necessariamente evidenciado pela realidade objetiva. Sua confirmação vem do coletivo. Daí aceitam os dogmas de acordo com o temor a uma punição ou a esperança de uma recompensa divina. Os “paradigmas” são os pressupostos nos quais os sistemas de pensamento se embasam e interpretam o mundo como uma Realidade Consensual.

Uma terceira camada seria o nível da Realidade Pessoal. É tudo aquilo subjetivo, tomado como “real” para nós mesmos, porém não validado nem pelo coletivo (consensual) nem pelo objetivo (experimental).

Entretanto, no nível de Realidade Quântica, aquilo visto na Lógica Clássica como contraditório ou inadmissível é submetido à experiência e percebido como uma unidade no nível do quantum. O aparentemente contraditório é visto como não-contraditório e sim complementar e necessário para a sobrevivência de ambos.

Os três pilares da metodologia transdisciplinar – diferentes níveis de realidade, lógica do terceiro termo incluído, complexidade – estão mutuamente relacionados. Ela busca explicar a multiplicidade de interações difíceis de serem compreendidas segundo a Lógica Clássica, binária e maniqueísta, tipo “verdadeiro ou falso”, “isto ou aquilo”. Essa percepção só é possível quando são introduzidos diferentes níveis de realidade.

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A transdisciplinaridade, ao transgredir as fronteiras epistemológicas de cada ciência disciplinar, busca construir um conhecimento “através” das ciências. A verdade é o todo.

A Lógica do Terceiro Termo Incluído permite o cruzamento de diferentes perspectivas, onde um sistema coerente e aberto é construído. Permite uma melhor compreensão não só de fenômenos científicos exatos, mas, também econômicos, políticos e sociais.  Daí a luta de classes não implica em eliminação de uma delas, pois cada qual depende uma da outra, para gerar renda (lucro e salário) e produto (mercadorias e emprego).

Os marxistas – e também os empresários – pensam sempre em uma sociedade antagônica. Afinal, pela Lógica Clássica binária, quando o salário está mais baixo, o lucro estaria mais alto. De acordo com essa “gangorra”, salário no nível microeconômico é sempre custo. A busca do próprio interesse é um autoengano no nível macroeconômico, pois a massa dos rendimentos, inclusive salariais, é demanda agregada. Levar a exploração ao máximo é um “tiro-no-pé” se for uma atitude empresarial coletiva!

A pandemia está sendo um laboratório para cientistas testarem a Ciência Econômica. Além de enfrentarmos a falsa disjunção entre saúde pública ou saúde econômica, experimentamos todos o quanto somos dependentes de cooperação entre uns e outros. O mundo socioeconômico e político contemporâneo sobreviverá só com democracia – e antifascismo.

Ele não se reduz à competição sem limite. O discurso de ódio, tipo “nós contra eles”, imagina esmagar uma classe antagônica por levar a exploração ao máximo grau possível. No entanto, o extermínio do outro significaria sua própria morte social.

Na “dialética senhor-escravo”, formulada por Hegel, cada qual deseja ser reconhecido. Mas se cada consciência individual quiser obter esse reconhecimento pessoal e profissional, haverá conflito entre as diversas consciências com risco de exclusão mútua. Entretanto, se essa luta terminasse com a supressão das consciências de todos aqueles incapazes de aceitar o reconhecimento de uma vitoriosa, a morte delas privaria essa vitória de sentido. O vencedor não teria ninguém para reconhecê-lo.

A imposição do vencedor deixa com vida o vencido em troca deste reconhecê-lo e de renunciar a ser reconhecido. Essa relação de dominação e de servidão é “a relação entre o senhor e o escravo”. O senhor, segundo Hegel, é o homem capaz de levar até o fim, arriscando sua vida, a luta pelo reconhecimento. O escravo é o homem, por medo da morte, optante por recuar na luta. Ele renuncia a ser reconhecido.

O trabalho é servidão, dependência em relação ao senhor, mas essa dependência acarreta – como atividade prática, real – a transformação da natureza e a criação de algum produto. O subjetivo se torna objetivo no produto e, desse modo, cria um mundo próprio. É possível se reconhecer nos produtos criados de maneira não alienada. Transformando a natureza, o escravo reconhece a sua própria natureza.

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Esse reconhecimento de si em seus produtos é consciência de si como ser humano. Enquanto o senhor, por não criar, por não transformar coisas, não transforma a si mesmo e não se eleva, portanto, como ser humano. O escravo se eleva como tal e adquire consciência de sua liberdade criativa no processo de trabalho. Mas apenas se liberta idealmente, isto é, a realização da liberdade só ocorre no plano do Espírito.

O trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se é livre e criativo; a pior, se é escravidão, isto é, sem ter liberdade de expressão e criação. O trabalho criativo é, em si mesmo, prazer e “terapia ocupacional”, independentemente das vantagens dele tiradas. Muitos consomem a maior parte do tempo no trabalho para sobreviver. Outros não conseguem ocupações, embora se disponham a trabalhar para obter renda em condições até degradantes ou sem direitos. Falta-lhes igualdade de oportunidades.

Esta é priorizada nas sociedades norte-americana e chinesa face à igualdade de resultados, prioritária na socialdemocracia europeia. Seja pelo protestantismo, seja pelo confucionismo, devido ao “amor ao conhecimento”, se todos têm igualdade de oportunidade em educação, a partir de então, o incentivo ao enriquecimento moverá os indivíduos por seus talentos profissionais, seja como trabalhadores criativos, seja como empreendedores, capazes de inovação e alavancagem financeira de seu negócio.

Um debate atual é se a tributação progressiva da renda e riqueza retira ou não esse incentivo. Em contrapartida, discute-se a necessidade de estender o auxílio social além desta pandemia, por conta de ela ter antecipado um problema imaginado mais adiante pelo elevado desemprego tecnológico provocado pela 4ª Revolução Tecnológica.

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Home Office, “urberização”, “pejotização”, entre outras precarizações do mundo do trabalho, não são um laboratório em construção do futuro econômico?

É preciso proteger os humanos e não os empregos, sugere corretamente Yuval Noah Harari no livro “21 Lições para o Século XXI”. A Renda Básica Universal (RBU) propõe os governos tributarem os bilionários e as corporações controladoras dos algoritmos e robôs. Usariam o dinheiro arrecadado para prover cada pessoa sem capacitação tecnológica para se ocupar com uma renda destinada a cobrir suas necessidades básicas.

De imediato, surgem dois problemas. Um diz respeito aos bilionários das “big techs” não morarem na periferia sem investimentos em Educação, Ciência e Tecnologia. Logo, suas taxações não beneficiariam os potenciais emigrantes clandestinos para o centro em busca de ocupação e sobrevivência. Outro problema é a típica reação dos conservadores. Em Terrae Brasilis, foi logo expressa pelo ministro da Economia, ex-banqueiro de negócios, quando afirmou a prorrogação do auxílio emergencial seria arriscada porque “aí ninguém trabalha”. Para sua mentalidade de Casa Grande, só sob chicote ou penúria alguém da Senzala trabalha.

No laboratório chamado Brasil, era evidente, antes da pandemia, a condição de pobreza de ¼ da população. Em 2018, cerca de 52,5 milhões brasileiros eram pobres por terem rendimento abaixo de US$ 5,50 PPC por dia (R$ 420 mês) e cerca de 13,5 milhões estavam em estado de miséria extrema com rendimento abaixo de US$ 1,90 PPC por dia (R$ 145/mês). Sentem ausência do necessário para sobreviver. Não querem trabalhar?!

A RBU protegerá os pobres face à perda de emprego e à exclusão econômica – e os ricos da ira populista neofascista ou totalitária. Dentro da Lógica Clássica, é isso ou voltar a crescer. O terceiro estará excluído sem avançarmos na transdisciplinaridade científica.

[1] Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Mercados e Planejadores Imperfeitos” (2020). Baixe em: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

 

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