A Páscoa das pessoas indignadas, por Bruno Reikdal Lima

Em nossa Páscoa de 2020, vivemos uma situação na qual as portas das casas estarão fechadas, os lugares de culto e celebração religiosa vazios e o medo e a preocupação de que a morte bate à porta acompanharão a celebração.

A Páscoa das pessoas indignadas, por Bruno Reikdal Lima

A festa da Páscoa se aproxima e não estaremos em grandes reuniões familiares e nem com grupos de amigos. No necessário isolamento social, essa festa de origem comunitária será diferente. Estaremos em núcleos menores, quando não em lares solitários. Mas isso para quem tem o teto garantido e condições para que seja possível algum tipo de celebração. Em um dos países mais desiguais do mundo, não há como generalizar qualquer relação sem levar em conta que o que para uma parcela da população é uma crise, para a massa popular é apenas “mais um dia”. Diante do abismo que separa quem está vivendo tempos difíceis de quem sobrevive apesar da vida, temos a possibilidade de perceber as pessoas indignadas.

Um sujeito indignado pode sê-lo de duas maneiras: uma passiva e outra ativa. A passiva é a bruta e cruel realidade de ter desde o nascimento a dignidade retirada por todas as relações sociais em que se está imerso. É indigno, sem dignidade, a pessoa que viu sua humanidade ser sabotada – não apenas na negação do fato de “ser humano” como pertencente a uma espécie, mas de ser privado das condições para que produzisse, reproduzisse e desenvolvesse sua vida como parte de uma comunidade humana. A “exclusão social”. Somos humanos. E estar envolvido em relações comunitárias, sociais, como participante produtivo e respeitado como pessoa nos processos cotidianos, nos torna e mantém humanos.

O modo ativo de ser “indignado” não diz respeito à dignidade roubada. Mas da posição junto aos indivíduos e grupos sabotados. Nesse sentido que falamos em sentir “indignação” frente a um acontecimento. Estamos indignados, pois nos colocamos junto a quem foi excluído, marginalizado das relações humanas, das condições necessárias para o desenvolvimento de humanidade. Temos, portanto, que uma pessoa possa estar indignada com algo por uma tomada de posição e/ou ser indignada por ter as relações que garantem a vida humana dissolvidas, negadas, tomadas de assalto (majoritariamente desde o nascimento). A festa da Páscoa em uma sociedade com desigualdades abissais é um evento para colocar pessoas indignadas como participantes de um mesmo corpo, que pretende ressuscitar da condenação injusta na qual foram postas para morrer – deixadas para morrer.

Na narrativa semita do Êxodo, a celebração da Páscoa foi em um momento de tristeza. Naquela noite, pessoas morreriam por não se prepararem para o tempo violento da a passagem do mensageiro da morte que tomaria para si os primogênitos de cada família. As pessoas escravizadas cumpriram o ritual de passar sangue nos umbrais das portas e comer a carne do animal que haviam matado para isso. Passaram a noite sem sair de casa em um período tenebroso. Os filhos dos opressores que não se prepararam para tal, morreram, tiveram suas vidas roubadas. E no dia seguinte, de luto e pranto, as posições de sofrimento haviam se invertido, e o povo que escravizava sentiu dentro de casa como era ver um filho morrer, perder a possibilidade de viver amanhãs com os primogênitos, desfrutar de mais um tempo humano com quem era amado. A dignidade foi ferida e todos sofreram com o processo de morte.

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Já na narrativa dos Evangelhos, cada um escrito a seu tempo e a partir de comunidades diferentes, temos relatos distintos, com construções literárias que cumprem papéis peculiares. Contudo, as estruturas da fase final da vida de Jesus, a partir da celebração da festa da Páscoa, são muito semelhantes – mesmo no livro de João, apesar de se tratar de um texto tardio que conta com acréscimos de situações e diálogos nesse evento. Jesus leva seus discípulos para um andar de uma casa, janta com eles e, após cear, come pão e bebe vinho afirmando serem símbolos de seu corpo e seu sangue. Aquele ato deveria ser repetido para lembrarem dele, da posição que tomava, da entrega da própria vida. No caso, a libertação era anunciada não pela morte dos filhos e filhas dos opressores, mas pelo martírio de um oprimido que seria injustamente assassinado. Uma reorientação da celebração religiosa tradicional.

Nos evangelhos, depois de sair com os discípulos e ser traído, Jesus é levado para julgamento, acusado de ser aclamado como “rei dos judeus”. Em geral, as narrativas contam que com a chegada de soldados armados para prender o nazareno, Jesus questiona se ele era “líder de alguma revolução para que chegassem armados”. Não, não era. Não tinha montado um exército e nem preparado uma guerrilha. Era apenas um indignado: tinha nascido com a dignidade roubada em um povo escravizado, num vilarejo afastado e em uma família empobrecida, e tomava posição junto a outros indignados, de modo a procurar atender suas necessidades e criticar as relações de opressão e violência que constituíam as relações sociais nas quais estavam imersos.

Mas indignados que ativamente se posicionam colocam em questão toda a ordem social e as formas de dominação. Revelam que, por um lado, há beneficiários da violência e, por outro, os sabotados. Indignação é potencialmente perigosa quando pode converter a situação passiva de indignidade em ativa. “Rei dos judeus” porque tinha sido recebido na capital como se fosse César pelos grupos marginalizados, que com ele entraram em Jerusalém e foram até o templo. Com o povo a seu lado, derrubou as vendas corrompidas locais, questionou a autoridade dos sacerdotes e anunciou a possibilidade de um reino novo, completamente diferente, no qual os que mandam se quiserem governar, devem servir, os que quiserem ser os primeiros que se coloquem como últimos, os que quiserem ser senhor, que se façam de escravos. Por isso foi acusado.

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Na cruz, depois de ser açoitado, receber símbolos de uma falsa realeza, de terem zombado de sua denúncia, depois de ver parcelas populares optando pela morte de um perturbador da ordem social e pela libertação de um “mal menor”, um criminoso assassino, ganhou a placa que indicava o motivo de sua morte: “rei dos judeus”. Alguém que questionava as instâncias e autoridades instituídas simplesmente por existir, em seu modo de vida e prática cotidiana. A mensagem anunciada e as situações em que curava alguém, denunciava o abuso político, o abuso religioso, o poderio dos ricos e o sofrimento dos pobres, sem pedir nada em troca e colocando a própria vida em risco, expunha as contradições de quem por meio da execução do poder queria forçar a manutenção de uma forma de sociedade excludente e violenta.

Em nossa Páscoa de 2020, vivemos uma situação na qual as portas das casas estarão fechadas (daqueles que tiverem casa, estiverem em casa e com condições para celebrar), os lugares de culto e celebração religiosa vazios e o medo e a preocupação de que a morte bate à porta acompanharão a celebração. Filhos de abastados e empobrecidos sob o risco de encarar uma UTI lotada. Ao mesmo tempo, frente a relações sociais que reproduzem violência e opressão, temos uma convocação para tomada de posição: se como pessoas indignadas ou como cúmplices. Se pessoas que correrão o risco de também entregar da própria vida para que relações sociais sejam transformadas e irmãos e irmãs possam ter condições de viver como humanos, sem ter a dignidade roubada, ou de quem opta por ganhar a própria vida, mesmo que custe deixar morrer vidas que compõem nossa comunidade.

Nessa Páscoa, temos o marco de descobrir se a dor da perda é capaz de mobilizar os corações mais endurecidos. Também saberemos se a necessidade de mudar completamente as relações sociais para que as pessoas vivam trará à luz mais indignados. Saberemos se depois do sofrimento e martírio, haverá alguma possibilidade de alívio. Mas se desejo algo, é que para pessoas indignadas possa haver uma feliz Páscoa com uma experiência de ressurreição ao terceiro dia: na qual a entrega da própria vida para que outro viva seja recompensada com uma nova chance, com a possibilidade de reordenar nossas relações, de buscar combater as situações de violência e opressão. A Páscoa das pessoas indignadas se completa quando as condições para a dignidade são restauradas e as situações que roubaram a vida, superadas.