A saída é reciclar a indústria brasileira para produzir equipamentos de saúde

Agora se tem uma guerra, mas diferente. É uma guerra com três desafios: o sanitário, o social e o econômico.

Trata-se de uma equipe de governo que se divide entre o terraplanismo mais inconsequente, e a mediocridade ampla. O Ministro da Economia pertence ao segundo grupo. Ele é incapaz de conceber projetos grandiosos, mesmo no plano meramente do conceito. Menos ainda, executá-los. Daí a necessidade imperiosa para que o Congresso assuma a iniciativa de juntar um conselho nacional, da sociedade civil, para coordenar as ações.

O primeiro ponto é entender o que se passa.

A crise atual em nada se parece com a crise de 2008. Aquela foi uma crise de liquidez. Explodiu a bolha financeira, deixando bancos e seguradoras inadimplentes. As indústrias foram afetadas pelo componente financeiro do negócio, pelo desaparecimento da liquidez, não pela queda da atividade em si, que veio a seguir.

Na ocasião, o foco correto seria um enorme esforço para reduzir o endividamento de empresas e de famílias. Decidiu-se pelo caminho politicamente mais fácil: injetar dinheiro nas empresas.

Essa, aliás, é uma das enormes fragilidades das políticas públicas contemporâneas. As grandes empresas, e os grandes financistas, assumiram tal poder financeiro, transformado em poder político, que toda decisão de política econômica acaba prejudicada por seus próprios interesses.

Em 2008, as empresas americanas receberam o dinheiro e passaram a recomprar suas próprias ações. Ganharam os executivos – principais responsáveis pelas loucuras que colocaram as empresas em risco – e os acionistas.

Agora, o jogo é outro.

Não há uma crise de liquidez, mas uma ameaça efetiva de desmoronamento do nível da atividade real. E o inimigo a ser vencido, o centro de toda a desestabilização, é um vírus. Portanto, a batalha central é de ordem sanitária. Justamente por isso, não são os remédios de 2008 que servirão agora.

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Vive-se um quadro similar ao das guerras.

Guerras criam duas prioridades a serem trabalhadas. A primeira, enfrentar o inimigo. A segunda, reciclar a economia para o novo quadro, sempre tendo em vista a primeira prioridade.

Agora se tem uma guerra, mas diferente. É uma guerra com três desafios:

1. O desafio sanitário, de vencer a doença.

2. O desafio social, de criar redes de proteção para as populações mais vulneráveis e minorar o desemprego.

3. O desafio econômico de manter a economia funcionando.

Como a China fez? Conforme mostrei na Coluna Econômica de ontem, promoveu um enorme esforço para criar um parque industrial voltado para a fabricação de equipamento de segurança – máscaras, luvas, ventiladores. O maior estímulo, além dos incentivos fiscais e creditícios, foi a garantia de compra da parte do governo. Atendido o mercado local, abriu-se enorme oportunidade de exportação.

Ontem, nos Estados Unidos, diversos conglomerados se ofereceram para essa reciclagem. A General Motors e a Ford Motor comunicaram à Casa Branca sua disposição de produzir ventiladores, caso haja interesse do governo em mobilizar as empresas privadas para a fabricação de equipamentos de enfrentamento da doença.

A elas se juntou Elon Musk, da Tesla, que garantiu que sua empresa poderia produzir ventiladores, “se houver escassez”. Imediatamente o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, garantiu que a cidade estava interessada em comprar ventiladores.

Foi um movimento similar ao da Segunda Guerra. Na época, GM, Ford e Chrysler direcionaram a produção de carros para a fabricação de armas e outros suprimentos de guerra. A Ford produziu os bombardeiros B-24; a GM fabricou tanques Sherman.

Além disso, há uma questão política relevante, em discussão nos EUA e certamente por aqui. Qualquer medida de apoio às empresas tem que beneficiar fundamentalmente a produção e os empregos.

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Na década de ouro do liberalismo, o jogo era outro.

Em 2008, a ajuda financeira do FED, sem atacar as causas reais da estagnação econômica, serviu para as empresas recomprarem suas ações, beneficiando seus acionistas. No Brasil de FHC, Lula e Dilma, houve sucessivas políticas fiscais de estímulo à indústria, sem nenhuma contrapartida de metas de produção, exportação e geração de emprego.

Agora, a própria natureza da crise exigirá, cada vez mais, isonomia no tratamento dos perdedores. Portanto, o caminho passa por um enorme esforço de abrir espaço para as indústrias brasileiras reciclarem sua produção para a grande guerra da saúde.

 

 

 

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Irretocável o Artigo, Nassif. Colocou o norte para decisões a serem tomadas por qualquer gestor sério. Nestas horas, o privado não tem o menor pudor de tomar dinheiro do público, sai no mais despudorado pedido de socorro, mas acerta o Artigo, em colocar que precisam (setor privado) dar uma contrapartida ao social... Vejam também, que são incapazes de financiar sua própria derrocada e admitir que não tem competência para superar crises, sem o socorro do dinheiro público.

Elias Sarantopoulos

7 comentários

  1. Irretocável o Artigo, Nassif. Colocou o norte para decisões a serem tomadas por qualquer gestor sério. Nestas horas, o privado não tem o menor pudor de tomar dinheiro do público, sai no mais despudorado pedido de socorro, mas acerta o Artigo, em colocar que precisam (setor privado) dar uma contrapartida ao social… Vejam também, que são incapazes de financiar sua própria derrocada e admitir que não tem competência para superar crises, sem o socorro do dinheiro público.

  2. Para e continua.
    até encontrar medicamentos ou vacinas,esta é a única alternativa, qualquer sinal de aumento de contaminação comunitária, para, melhorou a situação continua.

    no primeiro momento mobilizar os desempregados para a produção de produtos destinados ao combate do novo coronavírus, como máscaras, remédios que tem algum efeito conta o vírus, álcool gel, equipamentos, luvas cirúrgicas, macacão, etc.

    No caso do álcool podemos diminuir a adição a gasolina que hoje está em 25%, caso seja necessário.

  3. Por uma governo paralelo, é uma questão de vida ou morte.

    Acho que não podemos esperar por este governo eleito em 2018, temos que iniciar uma ação paralela de sindicatos de empregados e dos patrões, universidades, igreja, governos estaduais e municipais.

    Vamos atropelar este governo eleito em 2018, não dá para ficar esperando.
    É mais do que nunca, uma questão de vida ou morte..

  4. Pois é, em 2008 os bancos privados sumiram. Se não fosse o Banco do Brasil com seus accs com spreed 50% menor, muitas empresas tinham quebrado.
    Agora acontece a mesma coisa. Tem 2 dias que os bancos privados não fazem acc, simplesmente dizem que as mesas de câmbio e suas tesourarias estão aguardando a coisa clarear, isto tudo depois de lucros exorbitantes a cada 3 meses.
    É a mesma lógica de sempre. Na hora do sufoco, todas viram keynesianos de carteirinha, todos correm atrás do dinheiro público, sem que haja nenhuma contrapartida.
    O problema agora é sobreviver ao virus e a esta gente tosca que nos governa.
    Essa gente não tem capacidade para virar a chave. Só pensa em reformas para ganhar dinheiro para si e para os seus.
    Estamos no mato sem cachorro, largados e pelados.

  5. “…Em 2008, a ajuda financeira do FED, sem atacar as causas reais da estagnação econômica, serviu para as empresas recomprarem suas ações, beneficiando seus acionistas. No Brasil de ‘ FHC, LULA E DILMA, ‘ houve sucessivas políticas fiscais de estímulo à indústria, sem nenhuma contrapartida de metas de produção, exportação e geração de emprego…” Ás vezes, na maioria das vezes, acho que nossas conversas são entre surdos ou lunáticos. Quem é FED? O Governo dos Estados Unidos?!! Mas em 2008, continuando nossa saga das Privatarias dos anos de 1990, Mirian Leitão bradava que Dinheiro Público não serve para salvar Empresas (estatais, mas principalmente privadas e nacionais. Alguém lê André Motta Araujo?). O tal”estímulo” de FHC, LULA E DILMA era condenar Empresas Brasileiras pela falência do Mercado Internacional e usar o BNDES para bancar que Empresas e Bancos Estrangeiros comprassem Nossas Empresas Brasileiras com AÇÕES DEPRECIADAS por Políticas Econômicas e Financeiras dos Países Industrializados, que comprariam estas Estatais e Empresas Brasileiras. Grande parte eram Estatais Estrangeiras alavancadas com Dinheiro Público (FED?) do seu próprio país ou política do Governo Brasileiro via BNDES. Compraram Energia, Recursos Naturais, Água, Sol, Minerais, Matérias Primas, Combustíveis, Petróleo, Salários medíocres a Preços Irrisórios e depois alavancaram suas Empresas novamente, tendo como garantia serem os donos de toda esta gama de recursos. E ainda estamos tentando entender, estudando, repetindo e não sabendo porque neste JOGO não ganhamos nunca !! Não Somos a PÀTRIA DO ANTICAPITALISMO E DA SURREALIDADE? Falem a verdade, Nos faltam as penas? Nem as penas Nos faltam mais. Se estas fossem necessárias !!! O TUCANATO DE SP pegou o Fura-Fila de Paulo Maluf e transformou em Expresso Tiradentes e depois em Monotrilho. Entregou tudo a ALSTOM e BOMBARDIER (Empresas Estrangeiras que Nos venderam tudo, principalmente seus EMPREGOS). Atoladas até o pescoço na Lava Jato Via TRENSALÃO TUCANO, saíram ‘ ilesas e limpas ‘do Processo e deram no pé do país. Bombardier, então maior concorrente dos Empregos Brasileiros e Recursos Financeiros e Humanos da EMBRAER. Viva Economia, Autonomia, Tecnologia e Empregos Brasileiros, não é mesmo Tucanato? Ha 15 dias caiu uma roda do tal Monotrilho na Capital Paulista. Está parado por todo este tempo à espera que um Técnico ou Engenheiro Canadense venha ver o que aconteceu. Não é inacreditável?! 19 Bilhões de reais (grande parte via BNDES) parados à espera de um Técnico canadense. Empresas e Empregos Brasileiros agradecem. A Justiça Eleitoral Brasileira que gasta cerca de 150 milhões de dólares em Biometria, mais 500 milhões de dólares em Fundo Partidário e outros 250 milhões de dólares em Urnas Eletrônicas (a cada 2 anos) encomenda estas URNAS ELETRÔNICAS para serem fabricadas na CHINA. Empresas e Empregos Brasileiros agradecem. O Estado Brasileiro torrando dinheiro para dar Empregos na China. Outro Cargueiro da Vale do Rio Doce, construído na Coréia, encalha na costa do Maranhão. Lembram do maior Cargueiro do Mundo, que a Vale e Roger Agnelli encomendou na Coréía, para se contrapor à política de industrialização naval nacional da Petrobrás? Encalhou no mesmo local. Venderam por 1/3 do preço para os Chineses. Ainda estamos discutindo quantos lados tem uma bola. Pobre país rico. E as penas? Mas de muito fácil explicação.

    • (FSP) BOEING pedirá 60 bilhões de dólares ao Governo NorteAmericano (algo em torno de 300 bilhões de reais R$ 300.000.000.000,00) Quanto vale a Boeing? Outra GM? E já pensa na revogação do acordo com a EMBRAER. Políticos NorteAmericanos não querem dar dinheiro que não garanta exclusivamente EMPREGOS ESTADUNIENSES. Nós aqui seguimos a manada obedecendo ao cabresto imposto em 1930. Cabeça virou em rabo.

  6. Não, Nassif. A maioria congressual já deu a sua resposta para a situação atual. A votação da “carteira de trabalho verde-amarela”, sem a presença de representantes da oposição, é a principal resposta. O governo já deu sua resposta, com a MP que abre privilégios para as companhias aéreas. Hoje, anuncia-se que cortaram mais de 150 mil beneficiários do Bolsa-Família. Infelizmente, a crise ainda tem que se aprofundar muito para que, quem sabe, algo mude. Os exemplos que você aponta nos states, ao contrário de sua visão, só mostram mais do mesmo. Na China, também ao contrário do que você aponta, o governo determinou o que deveria ser feito. Não há certeza de compra ou de demanda.

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