A vida, o capital e o suicídio coletivo, por Bruno Reikdal Lima

O resultado das operações hegemônicas desse "totalitarismo de mercado", em referência a termos todas as instituições e relações humanas reduzidas aos critérios do mercado capitalista, é pra Hinkelammert o "suicídio coletivo".

A vida, o capital e o suicídio coletivo, por Bruno Reikdal Lima

Desde de a década de 1970, a partir de um livro intitulado Las armas ideológicas de la muerte (“As armas ideológicas da morte”), escrito logo depois do golpe de Pinochet e da necessária fuga do Chile após ser ameaçado de morte, Franz Hinkelammert passa a discutir sobre o núcleo irracional da racionalidade que orienta o mercado capitalista. Sintetizada por Weber, essa racionalidade opera na coordenação de meios para a obtenção de um fim do modo mais eficiente possível. O uso ótimo de recursos garante que o resultado desejado apareça como racional. Dessa forma, a ação é racional quando coordena meios para obter fins, e a realização do fim, seja ele qual for, justifica a racionalidade da ação e o uso de seus meios. Como mostra Hinkelammert, trata-se de uma estrutura tautológica.

No mercado capitalista, ademais, o fim está determinado de antemão: o lucro. O valor que se valoriza, como definia Marx, expropriado do trabalho não pago de massas inteiras, estabelece qual o objetivo de toda a competitividade exigida pelo mercado. Dessa forma, não havendo outro critério para orientar as ações dos sujeitos que não a própria ação racional que se basta na coordenação de meios para obtenção de um fim, toda vez que a ação resulta em lucro, ela é racional, válida e, sob critérios da ética burguesa, boa. Como nos lembra Hinkelammert constantemente, qualquer princípio que opere como valor limitante da ação racional sob esses termos é descartado como “irracional”, ingênuo ou, quando não, “mítico” ou religioso, antiquado, como o próprio Weber indicava para explicar o porquê os “homens modernos” preferiam deixar de lado as ações racionais normativas em nome da ação racional instrumental, a respeito da qual estamos tratando, aqui.

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O problema é que a redução da racionalidade a uma operação que não tem outro valor além de seu próprio funcionamento, muito bem apropriada pelo mercado capitalista e sua estrutura competitiva, resulta no absurdo de ser capaz de eliminar as condições que garantem qualquer ação futura. O sujeito pode, desse modo, racionalmente destruir a base material que torna possível a manutenção de sua vida após a obtenção do fim estipulado. Marx afirmava que o capitalismo em seu funcionamento destrói as duas fontes de riqueza possíveis: a vida humana e a natureza.

Hinkelammert nessa discussão apresenta a seguinte anedota: dois competidores racionais escolhem como finalidade cortar os galhos sobre o quais estão firmados. Os dois escolhem suas ferramentas, calculam o uso ótimo dos meios disponíveis e competem para a obtenção do fim. São eficientes, um mais que o outro, mas realizam a tarefa. Contudo, caem junto com os galhos cortados e morrem na queda. Realizam um suicídio racionalmente justificado, no qual a morte é um efeito não intencional de uma ação válida sob os critérios indicados anteriormente. Todo projeto futuro está impossibilitado, pois as condições de vida de ambos não foram garantidas ao final da tarefa racionalmente selecionada. A partir daí, vemos que, deixada por si sem nenhum valor orientador, a racionalidade dominante do mercado capitalista que opera com finalidades predeterminadas pode realizar a eliminação das condições de produção, reprodução e manutenção da vida das comunidades humanas. Novamente: racionalmente justificado.

Esse absurdo que Hinkelammert chama de “irracionalidade do racionalizado” ou “núcleo irracional da racionalidade moderna”. Em um primeiro momento, a proposta do germano-latino-americano parecia descolada do mundo de maravilhas proposto pelo projeto institucional liberal dos anos de 1990, tendo a globalização capitalista e suas prerrogativas como grande vencedora da história que encontraria seu fim. Contudo, depois de algumas voltas que esse mundo ainda dá, vemos frente as crises que se intensificaram nos últimos anos expressões cada vez mais claras do absurdo. Dos efeitos cada vez mais drásticos das mudanças climáticas, de desastres ambientais, até o modo como funcionaram campanhas eleitorais e vitórias de determinados projetos claramente estúpidos, assim como as primeiras reações de governos frente a crise do coronavírus e as exigências de mudanças bruscas que se fizeram necessárias, a irracionalidade do mercado capitalista e seu modus operandi estão cada vez mais evidentes.

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O resultado das operações hegemônicas desse “totalitarismo de mercado”, em referência a termos todas as instituições e relações humanas reduzidas aos critérios do mercado capitalista, é pra Hinkelammert o “suicídio coletivo”. As ações políticas submetidas ao capital e seus donos trazem como resultado o colapso, no qual as condições necessárias para a garantia da vida de populações inteiras são eliminadas. No limite, a possibilidade de manutenção da vida humana está ameaçada, enquanto racionalmente é justificada.  Desse modo, vida ou o capital (título de um livro de Hinkelammert) é o dilema humano que está em jogo. E como respondemos a ele cotidianamente determina a cada instante o quão próximos estamos de impedir a existência de futuras gerações ou de abrir, de alguma maneira, uma janela para a vida respirar.

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