As elites são prisioneiras das estratégias de Bolsonaro, por Wilson Luiz Müller

Desde o início do seu governo, Bolsonaro vem adotando a estratégia do caos para, entre outras coisas, levar o país a uma convulsão social que culmine com uma guerra civil. É o seu sonho mais acalentado a guerra para matar os trinta mil.

Foto El Pais

As elites são prisioneiras das estratégias de Bolsonaro

por Wilson Luiz Müller

Na última entrevista coletiva (segunda feira, dia 23), Bolsonaro apareceu trêmulo, com a fala mais desconexa do que de costume. A seu lado reapareceu o general Mourão, depois de um sumiço de vários meses. De mãos no bolso, jeito arrogante, ele vistoriava Bolsonaro, que tentava ler alguns rabiscos num pedaço de papel. Quem não conhecesse os personagens, iria concluir que Bolsonaro, vigiado de perto por seu superior Mourão, estava verbalizando (muito mal, é verdade) uma lição que outros lhe tinham imposto à força.

Um pouco depois da entrevista, o Jornal Nacional – JN entraria no ar com o âncora Bonner pedindo calma a todos. Ao contrário dos dias anteriores, nenhuma crítica foi feita ao atual desgoverno. Os panelaços, apesar de muito barulhentos naquela noite, foram solenemente desprezados. O JN, de forma elogiosa, deu destaque ao “pacote bilionário” anunciado pelo governo para socorrer a economia, mesmo que não houvesse nenhum dinheiro novo a ser injetado.

Na terça-feira, dia 25, o quadro foi completamente diferente. Em rede nacional, em discurso escrito no gabinete do ódio por Carluxo e Tinga, sob inspiração do guru Olavo de Carvalho,  Bolsonaro  defendeu a volta das pessoas ao trabalho, contradisse todas as recomendações dos órgãos de saúde, atacou imprensa, governadores e prefeitos. O JN retomou as críticas e os panelaços ressurgiram na tela global.

Pode ser que a substituição do presidente atrapalhado e cagaceado de segunda-feira pelo Bolsonaro de terça-feira, com o discurso nazista de mentiras e de negação da ciência, seja apenas a continuidade potencializada da insanidade geral em que as elites e sua mídia corporativa jogaram o país sob o falso pretexto de que tudo isso seria justificável para se livrar do PT.

Mas pode ser que a metamorfose ambulante do presidente acabe revelando algo mais aterrador: um plano sinistro urdido nos porões para expor Bolsonaro como um bode fedorento, que justificaria qualquer sacrifício do povo para nos livrarmos dele, o que incluiria o perdão dos crimes cometidos contra o país por ele e seus filhos, além de uma aposentadoria tranquila em Israel ou Estados Unidos para o clã Bolsonaro.

Desde o início do seu governo, Bolsonaro vem adotando a estratégia do caos para, entre outras coisas, levar o país a uma convulsão social que culmine com uma guerra civil. É o seu sonho mais acalentado a guerra para matar os trinta mil. Ele pode não conseguir que o país entre em convulsão, apesar de todos os seus esforços, mas a estratégia, pelos riscos que carrega, faz Bolsonaro valorizar o seu mandato, a ponto de ter o que negociar se a “saída honrosa” for posta na mesa, momento que parece estar se aproximando.

É notório que ocorreu uma fissura entre as elites que até há pouco vinham entusiasmadas com o “bom governo” de Bolsonaro. Uma parte acha agora que é melhor dar uma parada na economia para controlar primeiro a pandemia. Essa turma pretende jogar toda a culpa do fracasso do neoliberalismo em vigor desde 2016 nas costas do coronavírus. Querem passar uma borracha nos ganhos fabulosos que tiveram no período e pedir o máximo de ajuda financeira para que o Estado continue a garantir seus lucros e mantenha o seu patrimônio.

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Outra parte da elite acha que a coisa vai ser feia mesmo e não confia que o governo, com a hecatombe que se abaterá sobre o país, tenha capacidade de depois socorrê-la, pois temem estar literalmente quebrados quando a pandemia acabar. Preferem não abrir mão de nem dia de faturamento, mesmo que isso signifique a morte de dezenas de milhares de pessoas. Por isso ensaiaram o discurso de que o vírus só mata velhinhos. Que é melhor que todos os velhinhos morram de uma vez só para que a economia possa continuar produzindo lucros. São as mesmas teses defendidas pelos partidários do nazismo de Hitler, responsável pelo maior genocídio da história.

Para esses nazistas, se toda a matança ocorrer de uma vez só, há uma bela desculpa, que está pronta independente do que aconteça: foi culpa do vírus produzido na China. Se adotada a estratégia recomendada pelos órgãos de saúde, há a necessidade de gestão política para contornar a crise. Se a gestão for mal conduzida, a sociedade cobrará dos governantes que não tomaram as providências corretas. Então é mais vantajoso para os nazistas que o caos se instale de uma vez, dobrando a aposta de  que os mais poderosos conseguirão se safar da tragédia.

Na segunda-feira Bolsonaro vocalizou os interesses da elite neoliberal que agora virou keynesiana. Por isso ele teve o apoio imediato da Globo e de toda a mídia corporativa. Na terça-feira, Bolsonaro verbalizou os interesses das elites nazifascistas. Parte da turma representada na segunda-feira começou a falar em impeachment. Por isso, Bolsonaro fez questão de firmar posição, na terça-feira, a favor da parte da elite com quem ele se identifica de verdade.

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Nem a turma da segunda nem a da terça estão preocupadas com a saúde e as condições de vida dos brasileiros. O que os divide é apenas a visão que cada qual tem sobre o papel do governo para salvar seus lucros e suas fortunas.

O fato é que cresce entre as elites endinheiradas o pânico com o desgoverno Bolsonaro. E isso é anterior ao coronavírus. Esvaiu-se de uma hora para outra a vã esperança de que Bolsonaro e Guedes tivessem alguma ideia do que fazer diante da crise monstruosa que agora se mostra sem disfarces e sem diversionismos.

As elites repentinamente desesperadas adorariam se livrar de Bolsonaro, por cima, sem grandes traumas, como sempre sucede nas crises institucionais no nosso país. Vão tentar pressionar Bolsonaro para que aceite uma solução meia-boca, “para ficar bom para todo mundo”, o que significaria entregar o governo para a parte da elite representada no discurso presidencial feito na segunda-feira, neste momento representada pelo general Mourão.

Fossem somente algumas milhares de mortes por causa de um vírus, não estaria a elite descontente. Antes do vírus, faz menos de dois meses, o povo já estava no desespero, no desalento, sem esperança de dias melhores. Mas as elites estavam faceiras, ganhando como nunca na especulação financeira. Paulo Guedes era o cara. Tinha realizado o sonho das elites escravocratas de que não precisavam mais se preocupar investindo na produção. O negócio era ir passear em Miami e deixar por conta dos corretores da bolsa de valores o duro trabalho de tirar o dinheiro de uma empresa para apostar em outra. Ganhar limpinho 31% de lucro num ano não é nada mal, convenhamos.

Era o céu de brigadeiro para os rentistas,  todos neoliberais convictos. Ainda mais que milhões da classe média também tinham sido levados a tentar a sorte na roleta da bolha financeira. Foda-se o resto, como ensinaria o general Heleno do alto de sua incompostura, incompetência e falta de espírito cívico nacional.

Bolsonaro não cometeu nenhuma maldade contra o povo que não tenha sido antes discutida e aprovada nos escritórios luxuosos das elites endinheiradas. Bolsonaro apenas fez o papel de bobo da corte para entreter a plateia enquanto as elites saqueavam o país. Enquanto Bolsonaro falava do furo das jornalistas, os ricos davam risada faturando alto na bolsa de valores, especulando com dólar e se apropriando de estatais e de riquezas estratégicas da nação.

Ao povo não interessa simplesmente trocar o Bolsonaro pelo Mourão, pois tudo continuará exatamente igual. A troca será mais uma tentativa de iludir a sociedade com a desculpa de que a culpa era do Bolsonaro. Que a elite não sabia quem era Bolsonaro. Que sem Bolsonaro tudo vai ser uma maravilha.

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Ao povo interessa se livrar de Bolsonaro. Mas interessa acima de tudo não ter de pagar de novo pela crise econômica que já se faz sentir. Por isso, a parte da elite que quiser ter o apoio popular para tirar o Bolsonaro do poder precisa antes reconhecer:

– que a quebra sistemática das regras do jogo segundo suas conveniências não conduz a nenhuma solução verdadeira; que isso apenas produz caos, eleição de governantes fascistas, falta de legitimidade e o colapso da democracia;

– que as elites ganharam muito dinheiro nos últimos anos, aumentando seu patrimônio e a  concentração de renda pela captura do Estado brasileiro, que foi usado para que as riquezas nacionais e parte dos ganhos das classes trabalhadores fossem transferidas para os super-ricos, que levaram a maior parte dos ganhos para fora do país;

– que os trabalhadores não tem mais nenhuma cota de sacrifício a dar, pois já pagaram com a perda de empregos e a redução de salários;

– que a crise tem de ser paga pelas elites; que isso não significa que o Estado lhes dê mais dinheiro neste momento de crise. Significa que o Estado cobre das elites a devolução de uma parte da riqueza produzida pelo conjunto da sociedade brasileira e injustamente apropriada por uma parcela de super-ricos que representa menos de 1% da população;

– somente depois que as elites endinheiradas devolverem uma parte da fortuna produzida às custas do trabalho  coletivo de toda a sociedade é que poderá se discutir quais outros sacrifícios seremos obrigados a suportar além do flagelo que vocês, elites endinheiradas, impuseram ao povo com os governos Temer e Bolsonaro;

– e não venham alegar que vocês não sabiam quem era Bolsonaro. Sabiam sim. Ele fala e faz hoje exatamente as mesmas coisas que ele dizia e fazia antes da eleição. E então vocês o aplaudiam de pé. E ainda gritavam mito! Mito! Mito!

Wilson Luiz Müller – Membro do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

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5 comentários

  1. Bolsonaro já deu vários exemplos de que não é confiável e com sua instabilidade emocional a coisa fica mais bruta. Que nos digam:
    – Bebiano (confidente, advogado pessoal, presidente de seu partido)
    – PSL e mais seus 7 outros partidos
    – Alexandre Frota, Joice
    – Ex-esposa, que colocou até o filho menor para ser opositor na política
    – O exército brasileiro
    – Adriano miliciano
    – Queiroz
    – e fora os que vão surgir nesta crise sanitária, tipo Caiado.
    e a lista segue.

  2. Qualquer solução que não tenha a execução de Bolsonaro e filhos para servir de exemplo não terá resultados. A PIOR coisa que os brasileiros podem fazer é deixar um psicopata como Bolsonaro causar tanta destruição e sair impune.

  3. O autor diz que ao povo interessa se livrar de Bolsonaro, mas quem é esse povo? Creio que seja uma fração da classe média, talvez mesmo uma fração que tenha votado de muito bom grado no atual presidente. E assim o autor incorre no erro da maioria de todos os intelectuais e analistas da classe média: o abuso no uso do termo político “povo”. O “povo” significa, em verdade, aquela parte da população cuja vida existe e se mantém em extrema oposição societária à vida e à existência das elites. Assim, fica claro que “povo” é termo político que não significa e não se aplica à classe média, posto que está não vive em extrema oposição societária e nem mesmo ideológica às elites (na verdade, e bem pelo contrário, a classe média brasileira, como um todo, sonha com uma vida de elite, isto é, com uma vida de privilégios). Eu acho importante fazer este esclarecimento porque o povo real, àquele que vive e sofre uma existência social diametralmente oposta à da elite (isto é, a grande massa pobre da população brasileira), vive um estado de letargia e de alienação simplesmente absurdos nesse país. Esse povo “real” (com exceção do povo pobre nordestino) votou em um candidato que já em sua campanha eleitoral deixou bem claro quais seriam as suas prioridades (todas elas em oposição aos interesses populares. O que torna este voto muito mais grave do que o de uma elite e de uma classe média que sempre demonstraram muito bem o seu apreço pelo país, pela terra), esse mesmo povo que não sabe sequer a diferença entre direita e esquerda políticas; esse mesmo povo que sofre de um terrível analfabetismo e semi-analfabetismo funcionais e políticos; esse mesmo povo do qual boa parte votou contra o PT para que o comunismo não fosse instalado no país (por orientação de muitos líderes religiosos, como sabemos, e mesmo sem saber o que é em realidade o comunismo). Esse povo “real” tampouco se manifestou contra a reforma previdenciária e as novas orientações das políticas públicas do país. É importante deixar tudo isso bem claro, porque o autor do texto ao falar de “povo” referindo-se à classe média, atribui à este extrato societário a existência social de um outro (na verdade, um outro bemais frágil e fragilizado social, econômica e politicamente), e (a exemplo da grande maioria das construções teóricas brasileiras da sociologia e economia) também afasta de qualquer movimentação política futura este mesmo povo “real”, povo que é a grande problemática do país, mas que talvez seja também a grande solução. Talvez em razão dessa omissão do povo “real” o autor possa elencar entre os reconhecimentos necessários às elites, para que essas possam contar com o apoio popular, o de que o trabalhador não tem mais nenhuma cota de sacrifício a dar ao país. Mas exatamente aí ele terá mais cotas de sacrifício a dar, pelo menos o trabalhador “real”, o trabalhador da massa pobre e miserável da população, o trabalhador do povo. Evidentemente este não é o “tipo” trabalhador, o trabalhador sindicalizado oficial de classe média.

  4. Apenas uma observação: Paulo Tinga, que aliás teve uma trajetória exemplar como atleta nos dois grandes clubes de futebol do Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio, assim como no exterior, já desmentiu ter havido qualquer participação sua na elaboração do discurso do líder da extrema direita. É verdade que apoiou o golpe parlamentar contra Dilma, mas não há razões para acreditar que ele foi consultado sobre o pronunciamento. A aposta do governo catastrófico é alta no imperativo econômico, na necessidade da sobrevivência imediata. Quer aparecer como agente que pretendia estimular as atividades produtivas, em contraste com os gestores locais que tudo paralisaram, por causa “de uma gripezinha.” Em nome do capital, assume a irresponsabilidade absoluta.

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