As Forças Armadas nunca agiram em bloco nas intervenções militares, por Andre Motta Araujo

Não se queira que um Alto Comando unido entre no jogo político em tempos de Bolsonaro.

Foto Pedro Ladeira - Folhapress

As Forças Armadas nunca agiram em bloco nas intervenções militares

por Andre Motta Araujo

Na História moderna do Brasil as forças armadas intervieram múltiplas vezes no jogo político, mas sempre divididas. Forças armadas são constituídas por homens e não por autômatos, homens têm visões de mundo e de política diversas, a Instituição Militar neutra é uma miragem no Brasil e em qualquer lugar.

Nos EUA, a Guerra Civil de 1865, teve militares dos dois lados, na França em 1940, militares colaboraram com os alemães e militares criaram uma força de luta contra os alemães. De Gaulle foi produto de um racha no glorioso Exército francês, de longa tradição e prestígio, mas lá também sempre existiram divisões nos comandos, mesmo na Grande Guerra de 1914, com sangrentos motins e generais aventureiros, como o General Nivelle, contido pelos generais mais experientes e que acabaram por dominar.

Nos movimentos militares da América Latina, na gênese do peronismo havia generais de Peron e generais anti-Peron. No Chile de Pinochet, nem todos os generais o apoiaram, um dos que não apoiou foi o pai da futura Presidente Michelle Bachelet. No célebre livro de Edward Luttwalk, GOLPE DE ESTADO, dos 300 golpes analisados no pós guerra, em quase todos as forças armadas se dividiram, com comandos a favor de golpes e comandos anti-golpe, outros ainda esperando para ver de que lado o vento sopraria.

Caso dramático foi o levante franquista de Junho de 1936, onde a parte minoritária do Exército espanhol se revoltou com Franco, mas a maioria ficou com a República, que só perdeu pelo apoio italiano e alemão a Franco, além do cínico embargo de material bélico à Republica pelos governos da França e da Inglaterra.

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A História mostra que, dificilmente, a Instituição Militar é unida quando está presente o jogo político, assim também sempre foi no Brasil moderno, quando a força entra na política tem mais de um lado.

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA – Golpe de Estado praticado pelo Exército, mas não pela Marinha, que ofereceu ao Imperador resistir ao golpe republicano, o Imperador preferiu partir para o exílio e evitar uma guerra civil possível, porque a Marinha Imperial era muito forte e poderia destroçar o Rio de Janeiro com seus canhões.

REBELIÃO TENENTISTA E REVOLUÇÃO DE 30 – O Exército estraçalhado pela luta tenentista chegou à Revolução de 30 dividido com o General Goes Monteiro lutando por Getulio e a Junta Militar no Rio, Tasso Fragoso e Isaias de Noronha, aguardando para ver o resultado e tomar partido. Getulio é apoiado, mas dependia do Exército pelos comandos de Goes Monteiro e Eurico Dutra, que o derrubaram do poder em dezembro de 1945.

Desde então uma ala varguista era confrontada por uma ala conservadora anti-vargas, representada no Exército por generais mais antigos e na Força Aérea pelo Brigadeiro Eduardo Gomes, sendo a FAB, criada por Vargas em 1941, visceralmente anti-Vargas.

QUEDA DE VARGAS E POSSE DE JK – A FAB foi decisiva na queda de Vargas em 1954, terminada por seu suicídio, o Exército dividido em uma ala paulista anti-Vargas liderada por oficiais que lutaram na Segunda Guerra e uma ala varguista liderada pelo General Henrique Lott, que assegurou a posse de Juscelino em 1956, fortemente contestada pela ala conservadora do Exército e pela FAB. Parte da Marinha era também fortemente anti-JK, visto como continuador de Vargas, liderada pelo Alm. Penna Botto.

MOVIMENTO DE  1964 – Forças Armadas fortemente divididas, o III Exército no Rio Grande do Sul a favor de Jango, o II Exército em São Paulo neutro e só aderiu após a vitória do movimento no Rio, o Exército dividido, muitos oficiais não aderentes foram punidos. A divisão continuou durante todo o período 1964-1985, com duas alas, uma mais conservadora, ao final liderada pelo General Silvio Frota e outra mais democrática liderada pelos irmãos Geisel, a divisão se projeta até o Governo Figueiredo e não foi reparada.

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Não se queira que um Alto Comando unido entre no jogo político em tempos de Bolsonaro. A hierarquia também é historicamente dividida em generais mais democratas e outros mais autoritários, se uma crise esticar a corda de forma a tensionar uma ruptura institucional aguda, é possível uma ala militar se manifestar para um lado ou para outro, sem uma palavra unificada do Alto Comando, constituído por 15 generais de 4 estrelas, que não devem pensar de forma exatamente igual, havendo também que levar em conta a Força Aérea e a Marinha, armas que historicamente têm seus próprios elementos de inserção e visão no processo político. É essa a lição da História.

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14 comentários

  1. A minha impressão é que realmente as FA estão divididas entre aqueles que querem levar vantagem os que querem levar mais vantagem.
    Prova disso é a reação a reforma da previdência dos milicos, o baixo clero só chutou porque não tiveram as mesmas benesses que as altas patentes. Vc já ouviu algum militar falando algo sobre a “heranca” subsidiada pelos contribuintes q o milita morto deixava pras filhas? Essas e outras sinecuras.

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    • Paulo: concordo — “estão divididas entre aqueles que querem levar vantagem os que querem levar mais vantagem”. Porém, veja a situação. A Marinha tem um vasto mar para patrulhar. A Aeronáutica, com seu merecido complexo de inferioridade, um espaço aéreo maior que suas ambições de compartícipes de golpes. E o Exército que existe tão somente como mercenários bem pagos pelas elites (com dinheiro público) para policiar que os benefícios da classe sejam mantidos. Por isto tenho perguntado, sem resposta — PRA QUE EXÉRCITO?

      PS.: talvez o Andre possa melhorar, noutra oportunidade, o tema. Que esse tá fraquinho.

  2. Transporto para cá o comentário que fiz ao artigo; Bolsonaro diz que não disse o que disse.

    Um fanfarrão arruaceiro é o que ele é.
    Ele sabe que não conta com o apoio do alto comando das FAs.
    Daí a provocação ao baixo clero, ao baixo oficialato e praças, alem das PMs em todos os estados.
    O alto comando das FAs devem saber a quem se dirige este apoio que ele foi dar ao exército e estão de mãos atadas, por enquanto.
    Devem ter informações que o discurso do tirano encontra acolhida nesse terreno militar mediano e teme apoiar, mesmo por debaixo do pano, um ato forte como uma denuncia por Crime Comum, que é mais rápida e pode afastá-lo por 180 do poder, tempo suficiente para atravessar a pandemia do vírus sem o pandemônio do verme.
    O tirano quer o golpe e faz juras de amor a constituição enquanto tripudia sobre ela e os demais poderes, que acreditam nessas juras e passa o pano para ele. Quem conhece a história da ascenssão de Hitler (lá vamos nós) sabe que ele jurava de joelhos e lágrimas nos olhos que jamais invadiria um país europeu, então invadiu o primeiro e voltava a jurar que era o ultimo, que não mais se repetira; O resto é história.

    O fato, a meu juízo, é que as FAs não tem segurança que pode deter o tirano neste momento e vai cozinhando em banho maria, ele por sua vez está criando as condições para dar o golpe sem o generais, brigadeiros e almirantes.

  3. Se não me engano, o tio Marx disse que o Estado não passa de um comitê gestor dos interesses da burguesia.E desse comitê fazem parte as Forças Armadas, funcionando como braço armado da burguesia e sempre pronta a atuar contra os interesses populares.E nisso eles são absolutamente solidários e concordantes entre si, não havendo divisão alguma, até porque, pensam também na preservação das próprias sinecuras, adubadas sempre a peso de ouro. Janais em nosso país algum dia assumirão voluntariamente as responsabilidades dos oficiais Venezuelanos!!No mais, ainda que observando só o Brasil, são profissionais despreparados para a profissão e sempre grosseiros e com pensamento imóvel e não raramente, verdadeiros ogros. Mas, tudo sugere que não é só no bananão que isso ocorre, porque em vários textos e mesmo documentários, oficiais militares são desenhados como não menos que ignorantes. Um bom exemplo disso é o Vietnã, cuja ocupação americana se deu pela incompetência dos arrogantes oficiais franceses, substituídos pelos não menos prepotentes, arrogantes, violentos e etc, e desastrados oficiais americanos. E esse juízo é feito por eles mesmos, não sendo necessário maiores pesquisas, bastando lembrar os filmes Apocalipse Now, PLatoon, e, mais recentemente, um documentário na Netflix sobre o tema. O livro “despachos no front” também traz bastantes informações. Repito, todas esses trabalhos são feitos por americanos. E há mais, muito mais.

    • Engraçado q outros partidos de esquerda querem protagonismo então vão lá protocolar o pedido!
      Obs:Tudo andando conforme o planejado pelos estrategistas de Bozo!!!
      Obs2:Nos “fatos”,pisem nos freios e olhem para todos os lados,nada de agir/reagir no impulso, não caiam em armadilhas!!!

  4. Basta! Ta na hora da maioria dar uma resposta ao sargento mor que gosta de tossir na cara dos apoiadores e de cuspir na cara da sociedade. O grupo armado está desesperado com a perda de “apoio” e ameaça as instituições e a sociedade com cenas em estande de tiros. Gritam que são maioria mas não são. Chega de passar a mão na cabeça do tinhoso… sob pena de passar a idéia de que 80% da sociedade tem medo deles. Tb é hora de as forças armadas dizerem se estão com a sociedade e a democracia ou se estão com os milicianos.

  5. Pra mim Bolsonaro pretende é contar com o apoio maior possível das PMs estaduais. A partir daí, ele ao mesmo tempo deixa os governadores enfraquecidos ( e o alvo agora dele é doria) e faz com que mesmo a parte das forças armadas que queiram tira-lo do poder saiba ique isso poderá custar um embate com as PMs pro-bolsonaro. Enfim esse diabo pode ser varrido do poder mas isso custará um banho de sangue. Não esperem o gesto de D Pedro segundo e de Jango, que não quiseram jogar país numa guerra civil.

  6. O resumo da ópera é que em países desenvolvidos, o lugar das forças armadas é na caserna, subordinadas ao poder civil e sem dar pitaco público ou formal na política.
    O fato eventual de um cidadão militar vir a ser político (como por ex. De Gaulle e Eisenhower) não significa que as forças armadas estejam no poder. Apenas que um de seus membros, já fora das tropas, entrou na politica, um direito dos cidadãos.
    Mesmo na Guerra Civil americana, o comandante era um civil, o advogado Abraham Lincoln.
    As exceções: Washington, porque comandou a guerra da independência e o poder civil evidentemente era o britânico, mas como primeiro presidente, foi eleito e não representava as forças armadas.
    Nem Hitler liderou a Alemanha nazista como militar.
    Franco e similares assumiram guerras civis e/ou golpes contra repúblicas ou democracias.
    Militares e democracias não podem combinar, pois tem papéis e perfis diferentes.
    Um privilegia a hierarquia e a disciplina em doses rígidas, ainda que discordantes.
    O outro privilegia o debate, a diversidade, pluralidade e liberdade (de expressão, de iniciativa, de opinião, visão, etc.).
    Como uma pode imiscuir-se na outra?!
    Pior, não se preparam com competência para seu verdadeiro papel: a Defesa.
    São “generais de pijama” mesmo na ativa! Barnabés que ficam discutindo política na caserna e em clubes.
    Não têm que discutir política, mas preparação, treinamento e equipagem de suas forças para poder enfrentar ameaças externas (não seu próprio povo).
    No Brasil, desenvolvemos em nossa História uma CULTURA de tutela militar, onde se “não soubermos” usar nossas liberdades democráticas, eles “estão lá” para nos “resgatar”.
    Nesta cultura nefasta, até parte do povo pede por isso, contra seu próprio poder “do povo, pelo povo e para o povo”. Inacreditável!
    Não é a toa que somos o último gigante do mundo (em tamanho, população e riquezas) ainda andando de quatro, sem soberania, desenvolvimento e bem estar para seu povo.
    Uma república de bananas, como tantas outras na América Latina, onde esta cultura de “tutela” militar é comum.
    E só sairemos disto para sermos uma nação de ponta quando esta bananice militar acabar.
    E vemos que ainda não acabou.

    PS: Não se entenda esta crítica como uma generalização, mas à resultante dos vetores comportamentais de nossas FFAA. Acho que sociedades como a americana, russa, israelense, chinesa e outras têm orgulho das suas e o que precisamos é trabalhar nesta mesma direção. Um erro constante das esquerdas é pouco tentar se aproximar delas, como se fosse um bloco só, como dito no post.

  7. Lições da história: em 64 aqueles que mais conclamaram a intervenção militar foram degolados pelos golpistas, por seguranca…
    Corta prá 2020. Os 4 bolsonaros são os grandes conclamadores de uma intervenção militar. Se os militares resolvessem de fato botar os tanques na rua, quem seriam os primeiros a ir prá guilhotina? Na minha opinião seriam os 4 patetas. Incapazes de liderar qualquer tipo de governo, rapidamente se tornariam um estorvo para os militares golpistas, que teriam de se livrar deles para cortar a cabeca dessa cobra produtora de fake news.

  8. As forças armadas são elitistas.
    O que havia de progressista nelas, me parece que foi cuidadosamente retirado.
    O nacionalismo dele me parece, também, como o nacionalismo de quem tomou chá de cogumelo “e não voltou”. É um nacionalismo assim…digamos…complicado. Entrega petróleo, entrega a indústria, entrega a indústria aérea, entrega o urânio, entrega a terra, entrega a água, permite a escravização do povo, é a favor do estado-minimo, dos privilégios deles, é neo-liberal, FHC foi mais ou menos e o PT ladrão. Quem produziu a inflação foi “o” civil. E pô aí vai.
    Mas eles tem um amor desmedido pelo Brazil! Digo, pela pátria. Ô nacionalismo complicado!
    Enfim, por isso é que eu não vejo saída..
    tão cedo. Espero que no futuro tenhamos outro tipo de nacionalismo lá.
    Sem os militares não haverá saída. E, desta vez, “caprichamos” em fazer burrada!
    Com “esses” milicos….. aí é que não tem saída.
    Mas, deus é brasileiro e o brasil é o país do futuro!

  9. Caro Sr., se me permitir: Bolsonaro acerta mais uma e expõe a Indústria da Miséria do AntiCapitalismo de Estado produzido e financiado pelo Estado Brasileiro, nas figuras de Governadores, Prefeitos, Velha Política que defendem e sustentam Monopólios e Oligopólios Cancerígenos (basicamente estrangeiros) dentro da Economia Nacional. Dória, Witzel e tantos outros novamente mostrando a ‘cara de pau’ da Política Nacional na manutenção de Feudos e IMPOSTOS escorchantes. Pobreza, Atraso, Miséria é Política de Estado nestes trágicos 90 anos, replicados em 4 décadas de farsante Redemocracia. PETRÓLEO a 100 DÓLARES O BARRIL. GASOLINA EM SP a 4,50 REAIS O LITRO EM MÉDIA. Aumentos diários com acompanhamento de Petrobrás, não importando se 0, 2 ou 1, 4%. Aumentos automáticos. PETRÓLEO DESPENCA A MENOS de 20 DÓLARES. DIMINUIÇÃO NA PETROBRÁS EM MAIS DE 52% (CINQUENTA E DOIS POR CENTO). Onde está a GASOLINA a 2 REAIS NAS BOMBAS?!!!! Quem está levando este Dinheiro e Lucros Astronômicos? Esta semana em FSP, GASOLINA num Recorde Histórico de diminuição de valores em 15 anos é vendida na Petrobrás a 99 centavos (R$ 0,99 / l). Agora vem mais 8% de redução. Como é possível de 99 CENTAVOS NA Produção da Petrobrás, com Distribuição de MultiNacionais Estrangeiras (Shell, Texaco, Esso, Exxon ,…) e Venda nos Postos, esta GASOLINA poder chegar a R$ 4,09 (QUATROCENTOS POR CENTO DE AUMENTO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 400%) SOMOS SURREAIS. A Indústria do Atraso e da Miséria. Pobre país rico. As penas não Nos fazem falta realmente. Mas de muito fácil explicação. (Obrigado)

  10. Um falecido amigo meu falava da UDN de macacão. Mas esquecia da UDN que vestia ((e ainda veste) gandola.
    A base de sustentação atual é o baixo clero e a PM. Responsabilidade de Fernando II e das operações GLO. As FFAA não são polícia!
    Vai ser duro largarem o osso!
    A UDN é a vanguarda do atraso deste pais, ainda existe devidamente repaginada, mas segue sendo a UDN.

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