Christovam Barcellos: ‘Manter a floresta em pé contribui para maior estabilidade do clima’

Além do processo inflamatório dos pulmões que funcionam como porta de entrada para a Covid-19, as queimadas assim como outras atividades predatórias na região amazônica contribuem para aumentar o surgimento de novas epidemias.

do CEE Fiocruz

Christovam Barcellos: ‘Manter a floresta em pé contribui para maior estabilidade do clima’

por Andréa Vilhena

Apesar de todos os esforços internacionais para conter o agravamento das mudanças climáticas, observa-se no Brasil um aumento dos impactos ambientais provocados pelo desmatamento e queimadas na Amazônia e no Centro-Oeste, que contribuem para a intensificação do efeito estufa. Em entrevista ao blog do CEE – Fiocruz,  o geógrafo Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde e vice-diretor de Pesquisa e Ensino do Icict/Fiocruz, explica que o resultado dessas práticas tem sido uma onda de calor inédita, em pleno inverno, na região central do Brasil, que vem alcançando estados da região Sudeste, como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

O calor e a perda de umidade aumentam a possibilidade do fogo das queimadas se alastrarem, espalhando partículas tóxicas presentes na fuligem por todo o continente latino americano. Pesquisas realizadas pelo Observatório do Clima da Fiocruz mostram que a inalação desse material suspenso no ar tem causado um grande aumento do número de internações por problemas respiratórios de crianças residentes nessas áreas de queimadas. Em 2020, o grupo de pesquisa de Barcellos está estudando a interação entre os efeitos das queimadas na Amazônia sobre a saúde e a pandemia do coronavírus, que vem contribuindo para o agravamento de casos de Covid-19 entre jovens e crianças nessa região.

Diante desse quadro, responsável pela disputa por vagas nas UTIs para tratar os diferentes casos de obstrução e inflamação pulmonar, o pesquisador faz um alerta: “em geral quem consegue vaga em hospitais e centros de saúde são pessoas das grandes cidades, onde existe o melhor sistema de saúde e a capacidade do sistema é maior”. No interior, onde o acesso por transporte é ainda precário, “as populações de áreas indígenas e ribeirinhas, se tiverem Covid-19 junto à exposição de fumaça e fuligem das queimadas, podem não conseguir chegar a tempo e de maneira adequada aos serviços de saúde”, diz Barcellos.

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Além do processo inflamatório dos pulmões que funcionam como porta de entrada para a Covid-19, as queimadas assim como outras atividades predatórias na região amazônica contribuem para aumentar o surgimento de novas epidemias. “A Amazônia é um lugar de grande biodiversidade tanto de floresta como de animais, mas a gente tem que pensar, também, que é (um lugar de) diversidade de vírus e esses vírus podem escapar do seu nicho ecológico e atingir áreas urbanas e uma população ainda maior”, explica Barcellos.

Para reverter essa situação, Barcellos diz que é preciso proteger áreas indígenas, parques nacionais e estaduais. “Esses ecossistemas têm que ser protegidos pensando no continente, porque tudo que acontece lá vai repercutir em todo o continente da América do Sul”, explica o pesquisador.

“Manter a floresta em pé é uma forma de proteção e de maior estabilidade climática, conclui  Barcellos.  A floresta viva ajuda a manter o regime de chuvas mesmo no inverno, impedindo que o calor extremo e a perda de umidade retroalimentem as transformações ambientais causadas pelo desmatamento e queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste do país.

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