Combater o lacerdismo de Bolsonaro, por Roberto Bitencourt da Silva

Popularmente reconhecido como "Corvo", Lacerda era um político especialmente defensor dos interesses das empresas multinacionais estrangeiras, dos maiores empresários brasileiros e do governo dos EUA.

Carlos Lacerda e Sandra Cavalcanti

Combater o lacerdismo de Bolsonaro

por Roberto Bitencourt da Silva

Jair Bolsonaro não saiu do nada. Politico medíocre, do baixo clero parlamentar, anos a fio deitando falação reacionária, sem nada fazer de produtivo, abrigou-se, germinou e cresceu na estufa do lacerdismo.
No Rio de Janeiro, ele paga saliente tributo à cultura política do lacerdismo. Pô, mas, o Carlos Lacerda, jornalista, escritor, governador da Guanabara, que fez o Aterro do Flamengo?
Exatamente. No início dos anos 1960, Carlos Lacerda ficou conhecido, junto com sua secretária de assistência social, Sandra Cavalcanti, como “Mata Mendigos”. Um apelido dado pelo jornal Última Hora.
Seu governo mantinha um centro policial conhecido por práticas de torturas e suplícios em cima de pobres, miseráveis e suspeitos de crimes urbanos mequetrefes, um centro chamado Invernada de Olaria.
Muitas denúncias na época, sobre mortos boiando no rio Guandu e na Baía de Guanabara, tomavam aquele espaço policial como locus de responsabilidade oficial da barbárie. O governo Lacerda foi notabilizado também por derrubar favelas, destruir moradias populares, matar moradores de rua, “higienizar” a cidade com a expulsão de pobres.
Popularmente reconhecido como “Corvo”, Lacerda era um político especialmente defensor dos interesses das empresas multinacionais estrangeiras, dos maiores empresários brasileiros e do governo dos EUA. Perseguia e reprimia com ações policiais aos sindicatos, trabalhadores e sindicalistas.
Um dos artífices do golpe civil-militar de 1964 e um inimigo declarado, de primeira hora, de todo o legado trabalhista e nacionalista que remontava ao período Vargas. Legado que, no início dos anos 1960, encontrava-se em ebulição e desdobramento mais popular, humano, igualitário e socializante.
Um dos leais aliados de Lacerda foi um jornalista chamado Amaral Neto. Elegeu-se, por décadas, deputado federal sob o lema da pena de morte. Uma das suas bandeiras mais conhecidas era que “bandido bom é bandido morto”. Igualmente, o também lacerdista Sivuca, policial na época do então governador do Rio, integrante de esquadrão da morte, foi deputado estadual com mesmo slogan.

A memória de Lacerda é enaltecida, até hoje, em diferentes rodas, intelectuais, políticas, culturais, acadêmicas. Um dos maiores traidores vende pátria já produzidos no Brasil. Um ícone do entreguismo.

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Fez escola. Bolsonaro é seu discípulo distante, ainda que não saiba articular uma frase sequer. É tão ou mais perigoso, por dar credibilidade, na condição de presidente, a ideias sórdidas, perversas, desumanas, elitistas, colonizadas e reacionárias, que muitos até poucos anos atrás teriam vergonha de falar em público. Ainda que aceitassem no peito e reverberassem somente à boca miúda suas barbaridades desumanas, antinacionais e antipopulares.
Ele, entre outras barbaridades, como a recente de ontem, sobre esgoto, debocha da miséria de amplas faixas do Povo. Debocha e naturaliza o subdesenvolvimento, a dependência externa e as clamorosas injustiças sociais do País. Declaradamente, avisa que “não há alternativa” à penúria e, agora, à ameaça da fome e da morte.
O destino de todo grande pulha, como Bolsonaro e Lacerda, não costuma ser dos melhores. Mas, infelizmente, até chegarem ao fim das suas lamentáveis jornadas, promovem muitos males ao País e ao Povo. Bolsonaro tem que ser retirado da cena pública e suas ideias egoístas, que esposam um individualismo atomizado, nefasto e cruel, sintonizadas com as pérfidas e ultraespoliativas aspirações do grande capital, têm que ser defenestradas.
E para isso, além de denúncias pertinentes, requerem contraponto claro, nítido e que repercuta e acalente sonhos e esperanças da maioria da nossa gente. Uma opção visível e audível que inverta o sinal de tudo que o presidente preconiza. Isto é, uma retórica que lembre – e reitere sistematicamente – que o Brasil possui alternativa!
Que somos umas das 10 maiores economias do mundo, temos recursos. Que se cobre dos ricos os impostos, taxe adicionalmente suas fortunas, cobre-se dos bancos e de megaempresas nacionais e estrangeiras impostos, dívidas não pagas ao Estado, suprimam-se as convencionais isenções fiscais de multinacionais gringas. Temos meios para atravessar o grave momento e pavimentarmos uma sociedade melhor.
Que princípios, valores, socializantes, igualitários e solidários, mas também medidas práticas, como as mencionadas e outras tantas mais, possam circular e mobilizar a maioria dos brasileiros.
Forjar uma frente social e política que produza e repercuta em alto e bom som é um imperativo do momento, oferecendo e movimentando esperanças e possibilidades construtivas. Precisamente na contramão do torpe lacerdismo turbinado pelo desprezível presidente.
Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

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3 comentários

  1. Quem será o Brutus, no Reino do imperador Bolsonaro? O próprio Mito, Mourão, Moro, Maia, Malafaia, Macedo, Militares, Milicianos, Marielle, Maçonaria ou um estranho a esse ninho?

  2. Lacerda começa na Vida Política sendo braço-direito de outro pária Luiz Carlos Prestes. É a parceria Esquerdopatia-Fascismo que trouxe o Brasil nestes 90 anos de tragédias. Poderia ter sido diferente? Luiz Carlos Prestes , o ícone da Esquerda Tupiniquim que fará parte do Governo Fascista Assassino de Getulio Vargas, mesmo depois que este Ditador tenha mandado sua Esposa grávida de sua Filha para Campos de Concentração e Crematórios Nazistas. É o cúmulo da covardia cafajeste e canalha. Herói das Elites Progressistas destes trágicos 90 anos de Estado Absolutista. Alguns dizem não compreender como cabeça tornou-se em rabo. Nossa saga rumo ao QuintoMundismo. Lacerda e sua Polícia Política em muito aprendeu com o Fascista Getúlio Vargas e seus porões comandados por Filinto Muller. Tudo junto e misturado dizendo serem estranhos um ao outro. Como chegamos ao fundo da latrina nestes 90 anos. Lacerda que surge com Prestes que surge com Getulio que é cunhado de Brizola que é cunhado de Jango que é familiar de Tancredo Neves que é avô de Aécio Neves que promoveu o factóide Juscelino Kubscheck… Como chegamos até o fundo da latrina. O caminho é tão óbvio e transparente. Pobre país rico. Lacerda e Prestes, a parceria inaugural. Mas de muito fácil explicação.

  3. Lacerda foi um radical que dedicou-se a derrubar governos eleitos legitimamente. Mas o restante das acusações do artigo acima é puro preconceito. Como administrador, Lacerda foi fantástico, a ponto de ser difícil de acreditar que foi governador do antigo estado da Guanabara por apenas um mandato, tantas coisas ele fez em tão pouco tempo. Nem vou falar do Aterro do Flamengo, que esse é bem conhecido. Lacerda começou com a adutora do Guandu, que acabou com o folclórico problema da falta de água de de luz na cidade. Fez o túnel Santa Bárbara. Iniciou o Túnel Rebouças, que ficou pronto na administração seguinte. Planejou as linhas vermelha e amarela, assim chamadas porque foram traçadas com essas cores no mapa, e construídas anos depois exatamente como no plano aprovado por ele. Também instituiu concurso para professores do estado, que antes eram contratados por pistolão. Depois dele, o estado só teve governador de m*, com a explosão da criminalidade e de tudo o que é ruim.

    Mas tanto tempo depois, muta coisa virou lenda. A remoção das favelas, ideia de Lacerda, hoje é apresentada como tendo sido uma desumana expulsão de moradores pobres e destruição de moradias populares, havendo até quem afirme que ele mandou colocar fogo na favela do Pinto, na Gávea, para forçar os moradores a se retirar. Na época, a remoção foi considerada uma grande benevolência, pois as casas de alvenaria construídas na Cidade de Deus eram muito superiores aos barracos de madeira das favelas de então. Esse fato foi até explorado pela propaganda eleitoral de Lacerda, eu me lembro de cartazes mostrando ele sendo cumprimentado por favelados. E o incêndio na favela do Pinto ocorreu em 1969, quando o governador era Negrão de Lima. A favela já tinha sido desocupada, e o fogo foi ateado para auxiliar a demolição dos barracos vazios. Em tempo: Lacerda puniu os responsáveis pelo mata-mendigos, e criticou o presidente Castelo Branco por seu servilismo aos EUA.

    Mas Lacerda é hoje muito mais lembrado pelo que destruiu, do que pelo que construiu.

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