COVID 19: Números da Itália mostram uma mortalidade quase restrita a idosos e doentes crônicos, por Ion de Andrade e Massimo Giangaspero

Se há grupos particularmente expostos e vulneráveis é a eles, em primeiro lugar, que os esforços devem ser dirigidos no sentido de que tenham a suas vidas poupadas.

COVID 19: Números da Itália mostram uma mortalidade quase restrita a idosos e doentes crônicos, por Ion de Andrade e Massimo Giangaspero

Em 2003 uma onda de calor varreu a Europa. Segundo o New Scientist, (clique aqui) estima-se que em virtude disso cerca de 39.000 idosos faleceram naquele verão. Não se tratando de uma doença infecciosa, não houve nenhum pânico social e apesar do caos produzido nos serviços funerários a sociedade e a economia não sofreram globalmente.

Em 2019, a Covid-19 foi relatada da China. Mais uma vez uma zoonose emergente transmitida por morcegos. Um evento não surpreendente já que, segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 60% dos agentes infecciosos recentemente identificados que afetaram as pessoas nas últimas décadas foram causados por patógenos originários de animais ou produtos de origem animal. Destas infecções zoonóticas, 70% são originárias da vida selvagem e os quirópteros foram indicados como importantes reservatórios de novas zoonoses perigosas e mortais como o Ébola, Marburg, SARS, Lyssavirus, Melaka ou Henipavirus.

Esses números têm uma magnitude muito maior do que a de todos os óbitos ocorridos pela COVID-19 desde que surgiu na China e que giram em torno de 12.955 óbitos em todo o globo dos 303.065 casos totais registrados até 21 de março de 2020.

O boletim epidemiológico emitido pela Saúde Pública Italiana, no entanto, é claro, e repetindo os números da China demonstra que, no plano estatístico, a gravidade da doença está quase restrita às faixas etárias idosas e aos doentes crônicos.

Vejamos:

Óbitos por faixa etária

COVID-19 Letalidade pelo Coronavírus na Itália(Dados atualizados até 17 de março de 2020). Istituto Superiore di Sanità, Roma

Em primeiro lugar constata-se, na amostra utilizada pelo Istituto Superiore di Sanità, que estatisticamente não difere do padrão chinês, que apenas 73 óbitos ocorreram em idades inferiores a 60 anos de 2003 totais, perfazendo 3,6% do total dos óbitos numa faixa etária que responde na Itália por cerca de 71,4% dos habitantes. Na China, segundo o Chinese Center for Disease Control, os óbitos na faixa etária inferior a 60 anos totalizaram 2,3%.

Não se trata de minimizar essas perdas, mas elas correspondem, conforme podemos ver no gráfico, a uma parte incomparavelmente menor diante da colossal gravidade que se avoluma após os 60 anos.

A mesma lógica se aplica às comorbidades. Vejamos tabela da distribuição dos óbitos segundo a comorbidade, conforme a base amostral utilizada pelo renomado instituto:

Tabela. Patologias mais comuns observada nos pacientes falecidos em decorrência de infecção pela COVID 19

Doenças

N

%

Cardiopatia Isquêmica

117

33.0

Fibrilação Atrial

87

24.5

Insuiciência cardíaca

34

9.6

Hipertensão arterial

270

76.1

Diabetes melito

126

35.5

Demência

24

6.8

DPOC

47

13.2

Câncer ativo nos últimos 5 anos

72

20.3

Hepatopatia crônica

11

3.1

Insuficiência renal crônica

64

18.0

Número de doenças

N

%

0 doença

3

0,8

1 doença

89

25,1

2 doenças

91

25,6

3 doenças

172

48,5

Letalidade pela COVID-19 associada às mais comuns doenças crônicas pré-existentes na Itália(Dados até 17 de março de 2020). Istituto Superiore di Sanità, Roma

A lógica mostrada na tabela acima é comparável à que se pode observar para a distribuição dos óbitos por faixa etária. Nela se vê que a COVID-19 mata sobretudo doentes, com mais de uma comorbidade e praticamente poupa os saudáveis.

A análise desses números fala por si mesma, estamos diante de um fenômeno que, excetuada a causa infecciosa, poderia ser comparado, no tocante à população efetivamente atingida, à onda de calor que varreu a Europa em 2003 e matou milhares de idosos.

A Saúde Pública em nível mundial deve estar atenta a essa peculiaridade porque se trata de uma fragilidade maior da cadeia epidemiológica da doença.

Como em tantas outras doenças, se há grupos particularmente expostos e vulneráveis é a eles, em primeiro lugar, que os esforços devem ser dirigidos no sentido de que tenham a suas vidas poupadas. Se os demais grupos da população não apresentam risco de maior gravidade, mas adoecem e transmitem, poderia não ser recomendável aos idosos e doentes crônicos o confinamento em conjunto com esses grupos, que é precisamente o que vem sendo considerado como medida de grande impacto. Os idosos e doentes crônicos deveriam ser protegidos de maneira especíica.

A COVID-19 para os grupos que compõem a população ativa, excetuada a faixa etária acima de 60 anos, mesmo que não possa ser denominada de doença benigna está muito longe de produzir nessas faixas etárias mais jovens a letalidade de outras doenças negligenciadas que matam milhões de pessoas todos os anos.

O que fazer?

Em primeiro lugar é crucial que a Saúde Pública mundial reconheça que há dois padrões distintos de adoecimento, o do jovem, com idade inferior a 60 anos e o dos idosos, com idade superior a 60 anos e que os trate de maneira distinta.

No padrão de adoecimento dos mais jovens o risco é menor e eles sobrecarregam muito menos os serviços de saúde do que os mais idosos.

Quanto aos idosos e doentes crônicos, é preciso claramente que se tornem o alvo número um das políticas de prevenção e de isolamento social. As restrições à circulação desse grupo ocupam de fato, uma PRIORIDADE ABSOLUTA pois da integridade deles depende a saúde de todos.

Na Itália, as complicações por faixa etária demonstram que enquanto o tratamento intensivo é necessário para 58% dos pacientes graves com idade superior a 65 anos, sua necessidade cai para 42% nas faixas etárias mais jovens, fator a mais a recomendar ações preventivas focadas na proteção ao idoso.

Sempre devemos lembrar que as famílias mais pobres terão imensas dificuldades de isolar o seu idoso em ambientes domiciliares com muita gente e poucos cômodos, ou onde os avós ocupam um papel relevante para o funcionamento da família, cuidando dos netos.

Porém estamos falando nesse caso de filas nos hospitais e mortes, isso significa que mesmo que o idoso que possa ser isolado seja aquele de uma família mais privilegiada, ele será sempre um paciente a menos a sobrecarregar os serviços de saúde, o que será benéfico também para os idosos mais pobres. Interessa à sociedade como um todo que idosos e doentes crônicos, independentemente de suas origens sociais sejam protegidos da doença.

Diversas fórmulas de produzir essa proteção domiciliar do idoso e do doente crônico podem ser imaginadas e elas devem ser urgentemente constituídas enquanto políticas públicas em cada país, pois as realidades são muitas.

Devemos salientar que o Poder Público e as Redes de Proteção existentes em todos os países devem se esforçar de forma urgente e afirmativa para que esse objetivo seja alcançado. Isso poderia significar maior liberdade de movimento para as faixas etárias mais jovens.

Se conseguirmos construir políticas sólidas de proteção ao idoso e ao doente crônico talvez tenhamos chance de reerguer novamente a economia para que, se houver uma segunda onda, não estejamos exaustos e sem condições de reagir.

Ion de Andrade é médico epidemiologista da Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN e pesquisador do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde LAIS/UFRN;

Massimo Giangaspero é virologista especialista em epidemiologia e zoonoses.

Covid-19: Numbers from Italy show a mortality almost restricted to the elderly and chronically ill,

Ion deAndrade and Massimo Giangaspero

In 2003 a heat wave swept across Europe. According to New Scientist, (click here) it is estimated that about 39,000 elderly people died that summer. Not being an infectious disease, there was no social panic and despite the chaos produced in the funeral services, society and the economy did not suffer globally.

In 2019, the Coronavirus disease (Covid-19) was reported from China, once again a new bat-borne emerging zoonosis. A not surprising event since according to the World Health Organization more than 60% of newly identified infectious agents that have affected people over the past few decades have been caused by pathogens originating from animals or animal products. Of these zoonotic infections, 70% originate from wildlife, and chiropters have been indicated as important reservoirs of new dangerous and deadly zoonoses as Ebola, Marburg, SARS, Lyssavirus, Melaka or Henipavirus.

These numbers have a much larger magnitude than all the deaths that have occurred by COVID-19 since its inception in China, and that revolve around 12,955 deaths across the globe of 303,065 total cases reported until March 21st 2020.

The epidemiological bulletin issued by the Italian Public Health, however, is clear, and repeating the figures from China shows that, statistically, the severity of the disease is almost restricted to older age groups and the chronically ill.

Let us see:

Deaths by age group

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COVID-19 fatality rate by age in Italy (based on data updated at March 17th 2020). Istituto Superiore di Sanità, Rome

Firstly, the sample used by the Istituto Superiore di Sanità, which statistically does not differ from the Chinese standard, shows that 73 deaths occurred at ages under 60 out of a total of 2003, making up only 3.6% of deaths in an age group that accounts for about 71.4% of the population in Italy. In China, according to the Chinese Center for Disease Control, deaths in the under-60 age group totaled 2.3%.

It is not a question of minimizing these losses, but they correspond, as we can see in the graph, to an incomparably small part in the face of the colossal gravity that develops after 60 years.

The same logic applies to comorbidities. Let us see the table of the death distribution according to the comorbidity, according to the sample basis used by the renowned institute:

Table. Most common pathologies observed in patients deceased due to COVID-19

Diseases

N

%

Ischemic heart disease

117

33.0

Atrial Fibrillation

87

24.5

Heart failure

34

9.6

Hypertension

270

76.1

Diabetes mellitus

126

35.5

Dementia

24

6.8

DPOC

47

13.2

Active cancer in the last 5 years

72

20.3

Chronic hepatitis

11

3.1

Chronic renal failure

 64

18.0

Number of diseases

N

%

0 disease

3

0,8

1 disease

89

25,1

2 diseases

91

25,6

3 diseases

172

48,5

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COVID-19 fatality rate in relation with most commonly associated pre-existing chronic pathologies in Italy (based on data updated at March 17th 2020). Istituto Superiore di Sanità, Rome

The logic shown in the table above is comparable to the one that can be observed for the distribution of deaths by age group. It shows that COVID-19 kills mostly sick people, with more than one comorbidity and practically saves the healthy ones.

The analysis of these figures speaks for itself, we are facing a phenomenon that, apart from the infectious cause, could be compared, with regard to the population actually affected, to the heat wave that swept through Europe in 2003 and killed thousands of elderly people.

Public Health worldwide must be aware of this peculiarity because it is a major weakness of the epidemiological chain of the disease.

As with so many other diseases, if there are particularly exposed and vulnerable groups it is to them, first and foremost, that efforts should be directed towards sparing their lives. If the other population groups are not more serious, it might not be advisable for the elderly and chronically ill to confine themselves to one another, which is precisely what is being considered as an impact measure. The elderly and chronically ill should be specifically protected.

COVID-19 for the groups that make up the active population, except for the over-60 age group, even if it cannot be called a benign disease is very far from producing in these younger age groups the lethality of other neglected diseases that kill millions of people every year.

What can be done?

First, it is crucial that the world’s Public Health recognizes that there are two distinct patterns of illness, that of young people under the age of 60 and that of older people over the age of 60, and treat them differently.

In the pattern of illness of the youngest, the risk is lower and they burden the health services much less than the oldest.

As for the elderly and the chronically ill, they clearly need to become the number one target of prevention and social isolation policies. The restrictions on the movement of this group in fact occupy an ABSOLUTE PRIORITY because on their integrity depends the health of all.

In Italy, the complications by age group show that while intensive treatment is necessary for 58% of critically ill patients over 65 years, their need falls to 42% in the younger age groups, a factor that is more to recommend preventive actions focused on the protection of the elderly.

We must always remember that the poorest families will have immense difficulties in isolating their elderly people in home environments with many people and few rooms, or where grandparents play a relevant role in the functioning of the family, taking care of their grandchildren.

But we are talking about in this case of queues in hospitals and deaths, which means that even if the elderly person who can be isolated is from a more privileged family, he will always be one less patient to burden the health services, which will be beneficial, after all, also for the poorest elderly people. It is in the interest of society as a whole that the elderly and the chronically ill, regardless of their social background, are protected from illness.

Various formulas for producing this home protection for the elderly and the chronically ill can be imagined and they must be urgently constituted as public policies in each country, since the realities are many.

We must emphasize that the Public Power and the Protection Networks existing in all countries must make an urgent and affirmative effort to achieve this goal. This could mean greater freedom of movement for younger age groups.

If we can build sound policies to protect the elderly and the chronically ill, we may have a chance to revive the economy so that, if there is a second wave, we are not exhausted and unable to react.

Ion de Andrade is an epidemiologist of the State Secretariat of Public Health of RN, Master in Pediatrics, PhD in Health Sciences, and researcher of the Laboratory of Technological Innovation in Health LAIS/UFRN;

Massimo Giangaspero is a virologist expert in epidemiology and zoonosis