Cozinhas comunitárias amenizam a fome em comunidades carentes de políticas públicas

Experiências em Porto Alegre são exemplos de iniciativas que atuam no combate à insegurança alimentar em meio à pandemia

Organizações comunitárias e movimentos sociais atuam no combate à fome nas periferias com auto-organização - Divulgação/ Projeto "A Fome Tem Pressa"

do Brasil de Fato

Cozinhas comunitárias amenizam a fome em comunidades carentes de políticas públicas

Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |

“O Brasil caminha para voltar ao Mapa da Fome”, afirmou o economista Daniel Balaban, chefe do escritório brasileiro do Programa Mundial de Alimentos (WFP, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), em maio deste ano. A constatação evidencia aquilo que já é sabido pelas comunidades mais vulneráveis do país, em especial as que vivem nas periferias e nas ruas.

A pandemia causada pelo novo coronavírus aprofundou ainda mais a situação, com o aumento do desemprego e uma ausência cada vez mais pulsante de políticas públicas que combatam o problema. Soma-se a isso o aumento no preço dos alimentos e o corte drástico no valor do auxílio emergencial pelo governo Bolsonaro.

Neste contexto de negligência, a solidariedade dos grupos comprometidos com a vida da população, como movimentos populares, sindicatos e associações de moradores, prestam um apoio importante.

Em Porto Alegre, uma dessas iniciativas são as cozinhas comunitárias, que combatem a fome e, ao mesmo tempo, promovem o diálogo com as populações abandonadas à sua própria sorte nas periferias.

Elisabete Marques é moradora da Vila Pedreira, na Grande Cruzeiro, localidade que abrange dezenas de comunidades na zona Sul da capital. Ela tem 41 anos, é formada em magistério, mas nunca exerceu. Trabalha como diarista e atualmente cursa faculdade de Serviço Social, um curso que ela considera que a escolheu.

Em sua comunidade, por duas vezes, já foi realizada a ação de cozinha comunitária. Ela, que vive sozinha, teve covid-19 e precisou ficar isolada em casa, relata a importância desse tipo de ação.

“Aqui na comunidade já teve duas vezes a cozinha comunitária e tem sido de muita ajuda por vários motivos. Aqui falta muita água, então, às vezes também tem isso, não só a falta da comida, mas também falta de água para fazer comida. Às vezes, o pessoal que trabalha fora chega, e não tem água. É assim, tá mexendo na água, e quando menos espera, faltou”, conta.

Em março, Elisabete Marques parou de trabalhar, por medo de contrair a doença. A necessidade, porém, levou a retomar o trabalho. “Faria duas semanas que voltei a trabalhar. Eu pego muito ônibus, chego a pegar dois por dia, acho que foi aí que peguei covid”, relata.

Segundo ela, muitas pessoas na vila contraíram covid-19. “Então quando teve a cozinha comunitária, para mim foi fundamental, porque em função da covid eu tinha muita dor no corpo, não tinha condições de levantar da cama”, diz.

Solidariedade que alimenta e organiza

As ações da Vila Pedreira fazem parte do projeto “Marmitas Educativas”, realizado pela União de Vilas da Grande Cruzeiro. Morador da Vila União, Wagner Roxo Rodrigues, um dos voluntários da ação, conta que desde maio estão distribuindo cerca de 250 marmitas por semana, um final de semana em cada comunidade.

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“O projeto Marmitas Educativas surgiu através de uma parceria com o projeto A Fome Tem Pressa, que distribui marmitas para moradores de rua em Porto Alegre. Montamos um núcleo na Cruzeiro para distribuir marmitas, máscaras, álcool gel e um panfleto com informações de prevenção à covid”, explica.

Para ele, “é visível o total abandono dos governos com as comunidades”, já que a insegurança alimentar vem se intensificando há alguns anos. Por isso, ele considera importantíssimo o trabalho da cozinha.

“A entrega de comida por si só não resolve todos os problemas existentes dentro da comunidade, mas sabendo que a comida é uma forma de confraternização social, criamos mecanismos de organização que estão dando muito certo”.

Ele ressalta ainda a relevância da organização para o resultado positivo do projeto.

“Hoje temos nas comunidades líderes de becos, onde eles ficam responsáveis por qualquer problema na sua rua e com as famílias daquela rua. Também conseguimos criar agentes de participação, agentes de cultura, agentes de saúde e agentes de educação. Essas estruturas organizativas estreitam as relações entre a comunidade e aumentam a qualidade de vida das pessoas, tudo isso só foi possível através das Marmitas Educativas”, avalia Rodrigues.

O problema da volta da fome no país foi agravado pela pandemia / Divulgação/ Comitê Gaúcho Contra a Fome

Outro exemplo vem da Lomba do Pinheiro, um dos três bairros mais populosos da capital gaúcha, que reúne dezenas de vilas na zona Leste de Porto Alegre. Lá, nove cozinhas atendem à população. Uma das moradoras atendidas é Marta Jurema Lima Oliveira, de 53 anos. Mãe de quatro filhos, Marta se encontra desempregada depois que o estabelecimento de banho e tosa em que trabalhava teve as portas fechadas por consequência da pandemia.

Sem a renda do trabalho, a moradora sustenta a si e aos filhos com a pensão do marido, no valor de um salário mínimo. Por receber a pensão, ela não foi contemplada com o auxílio emergencial.

“A cozinha é muito importante para as pessoas, em especial neste momento difícil, elas ajudam bastante todo mundo da comunidade. Tu vê ali casas com oito pessoas. A comunidade fica bem faceira no dia de ir buscar, porque tudo ajuda nessa dificuldade”, avalia.

Marta Oliveira acrescenta que para além do serviço que é feito pela cozinha, a ajuda para a comunidade também vem em forma de cestas emergenciais, assim como doações de roupa.

As cozinhas da Lomba do Pinheiro têm o apoio do Comitê de Combate à Fome. Isabel Adriana Klein, moradora da Lomba do Pinheiro, na comunidade de Santo Antônio, coordena uma das cozinhas que serve cerca de 200 refeições todas as quartas-feiras.

“Falar sobre a fome na periferia em épocas de pandemia é fácil, porque na periferia a fome sempre existiu. Com a chegada da pandemia e com todos os malefícios que ela trouxe, a fome só se evidenciou. Agora ela ficou em todos os níveis, porque as pessoas passaram a perder seus empregos, suas faxinas, seus bicos”, destaca Klein.

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Segundo ela, o Comitê veio amparar em um momento onde não se tinha nenhuma assistência. Além de ajudar a comunidade a montar o grupo de pessoas que administram as cozinhas, também realiza oficinas e debates.

“Tudo aquilo que a comunidade não tinha e que nossos gestores nunca se importaram que a gente tivesse. A importância da cozinha e do Comitê dentro das comunidades têm um aspecto social, humano, acolhedor”, pontua.

Ela acredita que na pandemia e após, a comunidade terá um parâmetro para que os moradores possam se direcionar, se reestruturar “enquanto família, enquanto comunidade, enquanto ser humano”, finaliza.

A fome voltou com o golpe

Para Rogério Dalo, secretário da Confederação Latino-americana de Cooperativas e Mutuais de Trabalhadores (Colacot) e membro da articulação “A Fome Tem Pressa”, o Brasil volta para o mapa da fome como fruto de uma política em que não se importa com os mais pobres.

“Para os números vale a macroeconomia de uma classe média que se acha classe alta, esse 1% da população que realmente é classe alta, as oligarquias que dominam nossos processos. Temos um modelo que atende o mercado e não que atende às necessidades básicas, isso não tem outra fórmula, outro resultado, que não seja gerar miséria”, ressalta.

“Aquele caminho que nós fizemos entre 2002 e 2014, que fez o Brasil sair do Mapa da Fome em um curto espaço de tempo, de 2014 até 2018 retrocedeu cerca de 10 anos”, frisa o presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio Grande do Sul (Consea-RS) e integrante do Comitê de Combate à Fome, Juliano Ferreira de Sá.

Ele destaca que, para além da fome, há o fator da insegurança alimentar. “Uma pesquisa do IBGE aponta que mais de 30% da população brasileira já está em situação de insegurança alimentar e nutricional, que não come de forma adequada, que não tem acesso a uma alimentação equilibrada e saudável”, expõe.

Tanto Rogério Dalo quanto Juliano de Sá reforçam que a situação da fome do Brasil foi potencializada após o impeachment de Dilma Rousseff.

“Nós tínhamos várias soluções, no período de Lula e Dilma, porque isso era tema central da política. Se a pessoa tivesse fome, com pouco ou nada chegava no restaurante popular e tinha um prato de comida, com pouco ou nada tinha acesso ao local para dormir e assim por diante. Isso foi caindo a partir do golpe”, contextualiza Rogério.

A partir do golpe, complementa Juliano de Sá, houve o desmantelamento das políticas públicas, iniciado com a aprovação da Emenda Constitucional 95, que congelou por 20 anos os investimentos em serviços públicos como educação, saúde e assistência social.

“De lá para cá começou um processo muito intenso de desmonte das estruturas do Estado brasileiro. Tivemos um período de desmonte de políticas públicas importantes, como por exemplo o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma das principais políticas públicas que ajudou o Brasil a sair do Mapa da Fome e que está sucateado”, exemplifica.

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Ele cita também o caso do Bolsa Família, dos impactos causados pelas reformas da Previdência, trabalhista e, recentemente, a diminuição no auxílio emergencial para R$ 300.

Estado tem que fazer sua parte

“As cozinhas populares no combate à fome são realmente a ponta do esteio daquele que mais está necessitado. Sobretudo nas periferias de Porto Alegre, cumprem o papel de fazer comida e distribuir para as famílias da redondeza. Esse tecido social organizado deveria crescer cada vez mais”, sugere Rogério Dalo.

Além do trabalho que é desenvolvido pelos movimentos sociais e por membros da comunidade, outro tema estratégico, na avaliação do integrante do projeto A Fome Tem Pressa, seria buscar a produção de alguns alimentos por meio de hortas comunitárias.

“É possível manter hortas nos terrenos baldios, dentro das casas, dentro dos espaços urbanos. De forma que não se dependa só do supermercado e do mercadinho, porque nesse modelo tudo depende do dinheiro, desde a primeira folha de alface, o arroz e o feijão, até os alimentos mais processados como óleo.”

Dalo afirma que a ideia não é um sonho. “Eu conheço experiências na América Latina, em vários países, vários locais, várias comunidades, em que isso virou inclusive política pública. Como a experiência em Rosário na Argentina, onde nos famosos parques e praças as pessoas podem ter um espaço para produzir alimento”, explica.

Juliano de Sá enaltece o trabalho desenvolvido pelas comunidades que estão cumprindo um papel que deveria ser feito pelo Estado, em seus três âmbitos. “Essas entidades, movimentos e organismos sociais fazem uma grande diferença para não ser pior ainda essa tragédia que a gente vive hoje, esse conjunto de crises que a gente vive. É a pandemia da fome, a pandemia climática, e agora a pandemia da covid”, afirma.

Como alternativa, o presidente do Consea-RS sugere “a retomada de forma mais integrada e com recursos estruturais para o nosso programa de aquisição de alimentos e fortalecer políticas importantes como o Bolsa Família e diversas outras”.

Além disso, “os estados têm que fazer sua parte”. Ele defende ainda como uma ação crucial para enfrentar o período de pandemia e o aumento da fome a criação de uma renda básica permanente. Enquanto tais políticas públicas seguem negligenciadas, resta ao povo a auto-organização e o apoio dos movimentos populares.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Geisa Marques e Katia Marko

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