Desafios do trabalho: desemprego, informalidade, crise

“No final de 2020, nove meses após o começo da crise sanitária, 13,9% da força de trabalho não tinham ocupação”, lembrou o Dieese. “Em 2020, o número de desocupados, desalentados e subocupados cresceu 3,5 milhões.”

Desafios do trabalho: desemprego recorde, pandemia, negacionismo, empobrecimento e crise. Acompanhe o ato virtual

Por Vitor Nuzzi, da RBA

O 1º de Maio deste ano teve o terceiro ato unificado seguido das centrais sindicais, e o segundo em formato virtual, sob agravamento da crise – sanitária, econômica, social, política. Ontem (30), por exemplo, o IBGE anunciou novo recorde no número de desempregados: mais de 14,4 milhões, além de quase 6 milhões de desalentados. Apenas um dia antes, o país chegou à marca oficial de 400 mil mortos em consequência da covid-19. Soma-se a isso uma crise política que parece interminável. E agora materializada em uma CPI no Senado para apurar (ir)responsabilidades na administração da pandemia, marcada por demonstrações de negacionismo.

Por isso, o lema adotado pelas centrais para o ato do Dia do Trabalhador incluiu “vida, democracia, emprego, vacina para todos e auxílio emergencial de R$ 600”. As entidades discutiram alternativas para a retomada da economia. Mas propõem medidas imediatas para sustentar, principalmente, parcelas mais atingidas. Isso, no momento em que a fome volta a ser realidade presente para milhões de famílias e um dos principais representantes do governo, o ministro Paulo Guedes, se queixa que as pessoas querem viver muito, referindo-se à expectativa de vida.

Flexibilização, desemprego, informalidade

Em especial referente ao 1º de Maio, o Dieese destaca os efeitos da “reforma” trabalhista de 2017 sobre o mercado. Os dados mostram que, diferente do prometido durante a tramitação do projeto que resultou na Lei 13.467, a “flexibilização” teve quase nenhum efeito na criação de postos de trabalho. Entre o final de 2017 e igual período de 2019 (ou seja, antes da pandemia), o desemprego havia caído apenas 0,8 ponto percentual. Se houve redução de 635 mil desempregados entre o final de 2017 e igual período de 2019, esse número foi “compensado” pelo aparecimento de 681 mil desalentados e subocupados.

“No final de 2020, nove meses após o começo da crise sanitária, 13,9% da força de trabalho não tinham ocupação”, lembrou o Dieese. “Em 2020, o número de desocupados, desalentados e subocupados cresceu 3,5 milhões.”

Menos dinheiro circulando

No ano passado, a massa de rendimentos mensal do trabalho caiu 6%, de R$ 217,8 bilhões para R$ 204,9 bilhões. Isso significa, lembra o Dieese, “R$ 13 bilhões a menos no bolso dos trabalhadores, todos os meses, e um menor volume de renda disponível para o consumo, o que dificulta a retomada do crescimento econômico”.

Além disso, aponta o instituto, a “reforma” levou à criação de milhares de contratos na modalidade conhecida como trabalho intermitente. “Muitos nunca saíram da gaveta. Nessa modalidade, o trabalhador fica à disposição do empregador, aguardando, sem remuneração, ser chamado para trabalhar. Entre os intermitentes admitidos em 2019 e ativos até o final do ano, 22% não trabalharam nenhuma vez.” Para quem conseguiu trabalhar, a remuneração média foi de R$ 637, o equivalente a 64% do valor do salário mínimo.

Falta de perspectiva

O levantamento mostra outros impactos da pandemia, que agravou a crise econômica já existente. “A falta de perspectiva, a possibilidade de contaminação e a necessidade de isolamento social fizeram com que parte dessa população deixasse a força de trabalho, ou seja, muitos desses trabalhadores não saíram em busca de uma nova colocação. São 8,9 milhões de pessoas sem trabalho e renda, sem procurar ocupação.”

Além disso, a política de valorização do salário mínimo, que o Dieese aponta como importante instrumento de distribuição de renda, foi interrompida. Isso no momento de aumento de preços dos produtos da cesta básica. Em algumas das 17 capitais pesquisadas, mais da metade do salário mínimo vai para aquisição de alimentos essenciais. A inflação também continua em ritmo de elevação, puxada em boa parte pelos combustíveis. Resultado de uma política de preços da Petrobras que tem o mercado internacional como referência.

Lenha e carvão

“Com o alto desemprego e a queda da renda, muitas famílias ficaram sem recursos para comprar, ao mesmo tempo, alimentos e gás e se viram obrigadas a usar lenha ou carvão para cozinhar”, relata o Dieese. O instituto cita dados do IBGE: em 2019, por exemplo, 14 milhões de famílias usavam lenha ou carvão, 3 milhões a mais do que em 2016.

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