Em meio à crise, conspiracionismo custa vidas, por Ergon Cugler

Duas semanas após a primeira confirmação de coronavírus no país, pesquisadores da UFMG apontavam o aumento no nível de populismo do presidente com sua convocação de manifestações.

Em meio à crise, conspiracionismo custa vidas, por Ergon Cugler

Em tempos de pós-verdade, a guerra das narrativas se entrelaça com a rotina ao ponto que nos desacostumamos do real – fica comum cair em fake news e desacreditar da informação que nos chega. Não à toa, mesmo com o alerta da pandemia do Covid-19, o obscurantismo teima em reduzir a realidade à ponto de vista, acusando a comunidade científica de histeria em meio às evidências.

Recentemente (10), o presidente Bolsonaro chamou a pandemia de “fantasia propagada pela mídia”, no esforço de polarizar junto à crise. Duas semanas após a primeira confirmação de coronavírus no país, pesquisadores da UFMG apontavam o aumento no nível de populismo do presidente com sua convocação de manifestações.

De live usando máscara (12) ao incentivo e participação de aglomerações em favor do governo (15), Bolsonaro chamou o alerta mais uma vez de “histeria”, mesmo após a primeira morte por Covid-19 no país (17), afirmando em entrevista (20) que “vão morrer alguns, sim”, “mas não podemos criar esse clima todo aí”, pois “prejudica a economia”.

Revolta da Vacina às avessas

Na obra Engenheiros do Caos, G. Da Empoli aponta que o caos gerado pela polarização constante propicia a superexcitação do engajamento, sem considerar se o conteúdo é verdadeiro ou falso. Da criminosa acusação que a China teria produzido arma biológica, à irresponsável minimização da crise junto à convocação de manifestações, o bolsonarismo se beneficia ao ter sua base mais fiel instigada por teorias da conspiração.

Vale reforçar que após o corte no bolsa família em meio ao Covid-19, o Governo propôs a suspensão de salário por até 4 meses. Alertas da comunidade científica, por exemplo, levaram países como Reino Unido e EUA mudarem radicalmente a estratégia de combate ao coronavírus. Quando governos ao redor do mundo injetam dinheiro na economia para proteger seu povo, no Brasil a narrativa é sequestrada para servir de instrumento político de um populismo obscuro e anticientífico.

Em uma espécie de Revolta da Vacina às avessas, enquanto parcela da população brasileira se sensibiliza em evitar circulação e conter o contágio, o Governo Federal – que deveria ter comando no combate à crise -, surfa às custas do caos. Pois é da ausência de responsabilidade de se governar para todos que o bolsonarismo utiliza do Estado para responder apenas às demandas de sua base de apoio, retroalimentando sua permanência no poder ao constituir um Governo de nicho, faminto pela polarização.

Ocorre que, se em meio à rotina, o país governado pelo obscurantismo já colhe tragédia; durante uma pandemia, a letalidade é potencializada pela irresponsabilidade e ingerência daqueles que nos governam. Prova disso, é o ritmo de contágio no Brasil próximo do cenário italiano; e acelerando (Observatório do Covid-19 BR).

Prelúdio do Colapso

Após se isentar de operacionalizar as políticas de contenção, deixando vácuo para os governos estaduais restringirem aglomeração, até no aporte entre entes federativos, Bolsonaro decidiu polarizar; no sábado (21) apresentou Medida Provisória desautorizando normas estabelecidas pelos governadores e, ao invés de coordenar o combate à crise em unidade, desordenou cadeias de contenção em operação.

Contraditoriamente, o mesmo Governo que minimiza a crise, prevê o colapso do sistema de saúde em abril. Mesmo com a estrutura do SUS, as projeções na América Latina se relacionam com limitações de acesso à água, esgoto, saneamento e moradia – demandando maior responsabilidade do Estado na contenção, com mais vidas em risco.

O presidente não entendeu que a guerra é contra o vírus. Ou se entendeu, faz pouco caso. Entretanto, como a pandemia nos ensina que sem ciência não há futuro, nos vale Albert Camus, o qual nos lembra – na obra A Peste -, que em tempos de dor, angústia e medo, a solidariedade surge como a única resposta possível para se confrontar o absurdo da realidade como tal.

Graças à prontidão da comunidade científica em todo mundo e do empenho incessante dos profissionais da saúde que ocupam a linha de frente no combate à pandemia, podemos vencer essa crise com solidariedade, tendo em quem confiar. Quanto ao presidente, enquanto vidas estão em risco, fica a máxima de Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”.

 

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* Ergon Cugler é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), associado ao Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas (OIPP) e ao Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (GETIP) – EACH/USP.

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