Fim do isolamento: morra sozinho e seja enterrado coletivamente, por Bruno Barros Rocha

Tem gente que defende o fim do período de isolamento com o discurso de que a economia sofrerá muito mais. Diversos economistas já demonstraram que o retorno precoce as aglomerações sociais trará um impacto muito maior para a economia.

Fim do isolamento: morra sozinho e seja enterrado coletivamente

por Bruno Barros Rocha

O Doria sabe que é improvável que o Bolsonaro não acabe com o isolamento social onde for esfera de poder dele em alguns dias e que ele consegue influenciar outros governadores, por isso se adiantou em declarar aqui no estado de São Paulo que encerrará gradualmente à partir de 11 de maio.

No seu discurso disse que fará isso com o aval da ciência. Não sou biólogo, mas sei que sem testes o suficiente para saber a situação da saúde da população em relação ao COVID-19 não tem abertura baseada na ciência. Como quase não há testes as pessoas pagarão literalmente com a vida pelas ações eleitoreiras desses dois.

Tem gente que defende o fim do período de isolamento com o discurso de que a economia sofrerá muito mais. Diversos economistas já demonstraram que o retorno precoce as aglomerações sociais trará um impacto muito maior para a economia já que as pessoas morrerão e sem pessoas o baque econômico é muito maior. A solução é taxar as grandes fortunas e negociar a dívida pública (pra ser honesto, o correto socialmente e economicamente seria anulá-la, já que existe em cima de juros abusivos e capital improdutivo). Tem pessoas que não concebem que taxar grandes fortunas traria a verba necessária para combater essa crise de forma correta (e diminuir desigualdades). Argumentam que o dinheiro será levado para outros países. Pois bem, as grandes fortunas já não trazem esse dinheiro para o país. Seu dinheiro está em bancos internacionais sediados em paraísos fiscais. E mesmo o dinheiro que está aqui não retorna pra sociedade. Os ricos não criam a maioria dos postos de trabalho na sociedade e nem pagam os impostos de forma devida. 

Sua existência é comparável a de um parasita que suga a vida de seu hospedeiro. É hora da sociedade se livrar de seus parasitas. As grandes fortunas, as megacorporações e os conglomerados de investimento no mercado geram dinheiro na flutuação e especulação do mercado, porém nunca tem grandes perdas, pois possuem investimentos em todas as grandes empresas de capital aberto. As companhias são donas de várias ações umas das outras. O capital é uma teia tecida entre os capitalistas. Nós, a sociedade, somos as presas. 

Não é de se espantar que o Morumbi tenha 297 casos confirmados e apenas 7 mortes, enquanto que a Brasilândia possui 89 casos confirmados e 54 mortes durante a pandemia. Os ricos trouxeram a doença para o Brasil, mas os pobres é que morrem. Porém não podemos nos fazer apáticos para o fato que Brasilândia possui menos casos e um número extremamente alto dessas mortes. A desigualdade criada por processos históricos, tal qual a escravização da população africana e negra, os genocídios indígenas nas Américas, “guerra as drogas”, traz à tona que a mortes por COVID-19 nessas regiões não é acaso. Todas as cidades do mundo possuem em suas periferias o produto das desigualdades históricas. Esse produto são vidas, são pessoas que labutam e labutam para viver uma vida minimamente digna num sistema que os oprime. Essa pandemia joga isso na cara de todos (escrevendo assim até parece que as ações policiais, do tráfico, dos políticos, de todos nós de classe média, do acesso a educação, saúde e sistema sanitário já não jogasse antes). Fazê-las voltar ao trabalho com a possibilidade de morrerem e infectarem seus entes queridos é imoral e ilegítimo. As pessoas merecem condições dignas e pagaram altas contas pra isso (mais que qualquer banqueiro possa botar na ponta do lápis, a vida não tem preço). O estado entra pra matar ou deixar morrer nas favela, de outra forma é sempre o estado mínimo que os neoliberais tanto repetem idiotamente feito mantra.

Então pros que não querem taxar grandes fortunas por medo de criarem pobreza em excesso, pros que não querem nem ao menos debater a nulificação da dívida pública abusiva que os bancos nos fazem reféns, eu deixo a pergunta, o sistema atual já não produz pobreza suficiente pra você? Qual é o limite de miséria humana que você acha aceitável? A taxação das misérias que é como o mundo funciona atualmente é o suficiente pra você? O mundo que você vive é florido demais à ponto de você achar que os ricos sustentam a economia e não que a economia sustenta os ricos?

Quem produz é quem sustenta a sociedade. Tem os que se apropriam do produto do trabalho alheio e tem os que trabalham. Defenda quem você achar melhor, mas saiba que quem fica em cima do muro já optou pelo poder hegemônico. Toda realidade é extremada, a única pergunta cabível que você pode se fazer é a que Paulo Freire nos deixou, “Sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

Se nesses tempos em que a desigualdade cava valas coletivas nos cemitérios sua resposta for “neutra”, “em cima do muro” ou que “os extremos se cegam”, você já escolheu o lado opressor.

O Doria e o Bolsonaro nunca estiveram nem aí pra você. Eles são parte do sistema, por mais que tentem forjar um discurso contrário só abraçam o capital a cada ação. 

Você? Morre sozinho e é enterrado coletivamente.

Bruno Barros Rocha é cientista social graduado pela FESPSP e pós-graduado em inovação social pelo Instituto Amani. Possui experiências com cooperativas em Uganda (África), é ativista de direitos humanos e proteção ao refugiado

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10 comentários

  1. Não taxar as grandes fortunas, mesmo a herança, tampouco os dividendos, e permitir os abusivos bônus aos executivos sem cobrar-lhes o quanto devido e não concordar com a auditoria na dívida pública, quem concorda com isso é cúmplice no genocídio que se aproxima. Mas a classe média parece não se importar e não gosta de quem e importa!!! Portanto, não é somente a elite ou assim chamada elite que tem um procedimento aviltante. O texto me lembra aqueles caras de Angra dos Reis, que “empregam” durante as férias, a preço de salário mínimo, uma dúzia “de felizardos” para lhes servir no iate, desde o amanhecer até o fim da noite, e dizem que o luxo que ostentam na verdade produz emprego e riqueza Cinismo e hipocrisia sem fim!!! O que estão, a final, fazendo ou pretendo fazer com o Brasil?

  2. Tempos novos e difíceis que viveremos,mas com muita expectativa de progresso nas relações sociais e mudanças serias para nossa economia que só priveligia pouquissimas famílias. Avante Brunão ,tá de parabéns camarada,excelente reflexão.

  3. Ótimo artigo. Mostra como nossa brutal desigualdade torna-se ainda mais perversa em tempos de pandemia.

  4. Obrigada pelo ótimo texto! As veias da desigualdade escancaradas na pandemia. E sim, estar em cima do muro é estar do lado hegemônico. Lado insano apático que pouco se importa com vidas. Título potente e verdadeiro: morre sozinho e é enterrado coletivamente. Infelizmente!

  5. O erro é não perceber que nós pagamos impostos exatamente para ter um mínimo estado de bem-estar social, o que, no caso de uma pandemia consistiria em que o Estado tomasse ações sociais para manter a população em situações dignas de saúde, alimentação e moradia. Isso sim deveria ser pedido ao Estado.
    O impacto de uma pandemia é sim muito duro, para todos, mas é responsabilidade do Estado oferecer meios para mitigar estes impactos e não deixar a população entre a escolha da miséria e da fome ou da doença.

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