Hipocrisia em tempos de pandemia, por Ailton Andrade

Não é com uma política contrária à maioria da comunidade científica do mundo, com medidas que contradigam o isolamento social, que conseguiremos atenuar os impactos econômicos em nosso país. 

Hipocrisia em tempos de pandemia

por Ailton Andrade

Os efeitos gigantescos da pandemia da COVID-19 na condição de vida da população do nosso país (e de todo o planeta) é algo real, claro e doloroso, causando nefastos efeitos sociais e econômicos.

Primeiramente, é imprescindível destacar o principal, que é a perda de 16.118 cidadãos brasileiros (números divulgados pelo Ministério da Saúde no dia 17/05/2020), pessoas que, ao falecerem, vitimados pela pandemia da COVID-19, deixam um rastro de dor e sofrimento para milhares de familiares e amigos.

Além do efeito principal, que são milhares de pessoas mortas, podemos elencar o efeito econômico, que é global, mas vamos nos deter ao que percebemos em nosso país.

Evidentemente que a atividade econômica sofreu um revés, de acordo com as primeiras projeções do PIB de 2020, antes da pandemia, previa-se um crescimento de 2,24%, conforme o relatório FOCUS publicado pelo Banco Central do Brasil em 03/01/2020,  a projeção divulgada, segundo a mesma fonte, no dia 08/05/2020, é de um recuo de 4,11% no PIB de nosso país.

Em dezembro de 2019, conforme dados do IBGE na Pnad Contínua , relativos ao quarto trimestre de 2019, o Brasil possuía 11% de desempregados, 5% de desalentados (que nem mais procuram emprego), sendo que essas duas porções, da população em idade de trabalho (acima de 14 anos) representavam, à época, 16,2 milhões de pessoas; dentre os trabalhadores brasileiros havia 41,1% da força de trabalho na informalidade – 38,4 milhões de pessoas.  Ao fazermos uma soma apenas entre os brasileiros na informalidade, desempregados e desalentados, no final de dezembro/2019 tínhamos 54,65milhões de pessoas (31,84% da força de trabalho do país ou 26% da população total do país). Ressalta-se que, em dezembro de 2019, a COVID-19 teve seus primeiros casos na China e, conforme a OPAS – Organização Pan-Americana de Saúde –, ligada à OMS – Organização Mundial de Saúde –,  os primeiros relatos, por parte da China, só se deram em 07/01/2020 e portanto não influenciaram os resultados do quarto trimestre de 2019.

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Portanto, antes mesmo de a Pandemia da COVID-19 se alastrar pelo mundo, o já Brasil possuía um contingente superior a 1/4 da população do país (26%) em condições de vulnerabilidade em relação ao trabalho, o que, consequentemente, gera para esse enorme grupo um risco de sobrevivência, por conta da frágil condição de renda.

O contingente de desempregados, desalentados e trabalhadores informais tem apresentado, no Brasil, dados crescentes após a crise política deflagrada no início do segundo governo Dilma, em janeiro de 2015. Nem mesmo a propalada guinada anunciada pelos apoiadores da reforma trabalhista do governo Temer, que, com a LEI 13.467 de 13/07/2017, anunciavam o novo tempo para a recuperação dos empregos, nem a reforma da previdência no governo Bolsonaro, pela Emenda Constitucional 103 de 12/11/2019, que também era defendida como a chave para a recuperação dos empregos,  trouxeram o que prometeram.

Agora, frente a uma crise mundial de saúde que certamente levará a um maior número de desempregados,  vemos uma parcela da sociedade brasileira se declarar preocupada com a fome e com o desemprego que grassará sobre o nosso país, causados pelos efeitos econômicos advindos da crise gerada pela COVID-19; eles propagam a ideia de que os efeitos econômicos possa ser mais severos que as ações e cuidados para se evitar o contágio  da COVID-19.

Lamentavelmente nos deparamos com uma flagrante hipocrisia dessa parcela da população que finge não conhecer o longo período pelo qual milhões de brasileiros informais, desempregados e desalentados tem sofrido para garantir seu sustento. Fica evidente a completa falta de sensibilidade social e empatia para com esses brasileiros que, há anos, estão marginalizados em nosso país.

Agora, diante de um discurso raso promovido pelo Presidente Bolsonaro, de que a crise econômica levará a um caos e mais mortes pela fome e o desemprego do que o remédio atualmente utilizado, isolamento social, percebemos que, aparentemente, uma parcela considerável da população não via tal risco que essa mesma população corria anteriormente, os milhões de desempregados, desalentados e informais, que crescem em número desde 2015.

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Cegos por uma narrativa que denota preocupação maior com o projeto político de uma reeleição do que com as necessidades reais dos brasileiros, elaboram falsas premissas, revestindo-se de uma tremenda hipocrisia, que, no fundo, remete a interesses outros, que não o de enxergar e reconhecer os milhões de brasileiros invisíveis, da informalidade, do desemprego e do desalento.

É inegável que, o fato de sermos atingidos fortemente pelas consequências econômicas da crise deflagrada pela Pandemia da COVID-19, exigirá ações de Estado. É preciso ressaltar que os principais líderes mundiais estão usando do poder do Estado para atender às populações mais vulneráveis, que sofrem com os efeitos econômicos advindos desta crise, e que as medidas adotadas levarão ao endividamento do Estado, bem como a perda de receita em tributos, por conta da recessão em curso. Nesse momento o primordial é garantir a vida das pessoas e passado o período mais desafiador da humanidade, nesse início do século XXI, o estado poderá, junto a sociedade, criar instrumentos para equilibrar sua condição fiscal.

Não é com uma política contrária à maioria da comunidade científica do mundo, com medidas que contradigam o isolamento social, que conseguiremos atenuar os impactos econômicos em nosso país.   Será que, se tivéssemos desde o início da ocorrência de casos no país (a cerca de 60 dias) adotado o isolamento social, trabalhando para atingir a meta de 70% – seguindo orientação da OMS como meta ideal de isolamento – já não estaríamos em condição de retomar com segurança as atividades em nosso país?

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Essa mesma parcela da população, que apoia o discurso contrário ao isolamento, que se diz sensibilizada com a fome e o desemprego – e que se situa principalmente nas camadas de maior poder aquisitivo, a elite do país, bem como uma classe média que se mostra desconectada da realidade –, demostra uma visão egoísta e gananciosa pois escondem, sob o manto verdadeiro da crise de emprego e de renda, a sua intenção de garantir seus ganhos e o seu conforto a partir da força de trabalho dos milhões de brasileiros. Apregoam que os empregados deveriam estar trabalhando nas fábricas, no comércio e nos locais de lazer que essa pequena parcela da população frequenta, trabalhadores que ao se expor ao risco de morte garantiriam a manutenção do padrão de vida da elite e classe média de nosso país.

Ainda há tempo para que as elites e a classe média, que apoiam a política fratricida de expor a massa da população brasileira ao COVID-19, despertem. É imprescindível retirar o véu que os impede de enxergar os brasileiros invisíveis, para poderem cobrar  ações coordenadas entre as esferas políticas. É imperioso que usem o poder da crítica para demonstrar o repudio ao uso político da pandemia, que sejam solidários aos que realmente necessitam de apoio neste momento, enfim, saiam de suas bolhas e busquem enxergar o Brasil,  não apenas os seus “iguais” mas a maioria “invisível” que, há anos, vive no subemprego, na informalidade,  no desemprego, no desalento e na fome.

Ailton Andrade – Engenheiro e Diretor do STIU-DF

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