Não se trata de evitar, mas de organizar a recessão, por Emilio Chernavsky

O momento requer não o fomento da atividade, mas sim sua contração organizada, com a garantia de que todo trabalhador autônomo e todo empregado formal ou informal preserve seus rendimentos, ao menos parcialmente

do Brasil Debate

Não se trata de evitar, mas de organizar a recessão

por Emilio Chernavsky

A disseminação do coronavírus colocou o mundo na iminência de uma das maiores crises econômicas da história. A recessão virá, e, como para salvar vidas o distanciamento social é fundamental, é preciso que ela venha mesmo, ao menos por um período inicial cuja duração não conhecemos. Ela virá, porque é preciso que o maior número possível de pessoas permaneça em casa e não consuma bens e serviços não essenciais que, assim, tampouco devem ser produzidos.

O objetivo da política pública não deve ser, portanto, o de evitar que a recessão venha, mas sim o de organizá-la para mitigar seus efeitos sobre a estrutura produtiva e o bem-estar da população, e sobre a própria saúde pública.

Para isso, não somente os instrumentos de política monetária, cruciais para conter o alastramento de crises financeiras, são inadequados, mas também o são aqueles de política fiscal desenhados para induzir o consumo e o investimento. Isso porque o momento requer não o fomento da atividade, mas sim sua contração organizada, com a garantia de que todo trabalhador autônomo e todo empregado formal ou informal preserve seus rendimentos, ao menos parcialmente.

Para isso, deve-se permitir a suspensão do contrato de trabalho nas empresas que suspenderem suas atividades e que o Estado pague um benefício equivalente ao seguro-desemprego a seus trabalhadores formais, um benefício emergencial a todas as famílias dos trabalhadores informais e dos desempregados, além de complementar o rendimento daqueles que tiverem sua jornada reduzida.

Leia também:  Governo Bolsonaro quer congelar por 2 anos valores de aposentadorias e pensões

É preciso também que aquelas empresas não quebrem, o que requer não somente permitir a suspensão dos contratos de trabalho, mas também diferir o pagamento de taxas e tributos, e fornecer liquidez por meio de empréstimos renovados automaticamente e de linhas de capital de giro com carências estendidas.

Certamente, muitas atividades podem ser realizadas por meio de teletrabalho, o que deve ser incentivado e que, em conjunto com a expansão da demanda por bens e serviços para a saúde garantida por créditos públicos extraordinários, ajudará a reduzir a profundidade da recessão; contudo, não a evitará.

Os efeitos dela se arrastarão, e uma futura retomada quando a crise sanitária reduzir seu ímpeto precisará de instrumentos cuja utilização é inviabilizada pelo atual arcabouço fiscal do país e por ideias que têm guiado os governantes nos últimos anos. Estas terão que ser abandonadas, e aquele reformulado. Haverá muito a fazer, tanto mais quanto maior for a destruição econômica e social gerada pela inépcia do governo em organizar a recessão que fatalmente virá.

Emilio Chernavsky – É doutor em economia pela USP

Crédito da foto da página inicial: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

9 comentários

  1. Hoje, tal qual o RC, eu tive um sonho
    Foi o mais bonito que eu sonhei em toda minha vida
    Sonhei que todo mundo vivia preocupado
    Tentando encontrar uma saída…

    Obrigado por mim e por Minha Prole, Chernavsky, nada obstante você ainda não consiga ver além do estreito horizonte capitalista

  2. Mais um lacaio do capital a sugerir o mesmo de sempre: que os trabalhadores suportem o ônus de um soluço do capital. Ao ilustre dotô, cabe a suspensão dos contratos, a redução de jornada, redução dos salários, para garantir o emprego. Francamente, um idiota desta categoria, que perfila ao lado de Guedes e outras nulidades, só tem espaço para ficar claro como a idiotia tomou conta.
    Para que o mentecapto não rumine algo na linha do “faça uma proposta melhor”, diria que os empregos devem ser mantidos sim, na medida que o capital tem maior probabilidade de reserva, que o trabalhador. Para tanto, reduzam os pro labores, as retiradas de caixa, os salários dos c-levels, para somente após estes enxugamentos, falar em alguma restrição ao emprego. Além disto, ao manter empregos e estimular a demanda por produtos nacionais, cria-se o círculo virtuoso do crescimento, cabendo ao governo investir em áreas que asseguram a circulação das riquezas e a livre concorrência. Simplifiquem as questões tributárias e reduzam impostos, cortando os altos salários do judiciário, do legislativo e judiciário. Simples não? Muito mais simples que suas ideias ultrapassadas e de estreiteza mental.

    • É um roto apontando o dedo para um maltrapilho

      O problema não são os altos salários dos servidores públicos, mas os salários baixos da iniciativa privada, em decorrência da alta taxa de lucro/juro/renda da terra.
      Pq vc não propõe a elevação dos salários dos empregados do setor privado em vez de propor a redução dos salários dos servidores públicos?

    • A redução do salário proporcionalmente a redução da jornada de trabalho é legal?

      Não. O salário é a contraprestação recebida pelo empregado não em decorrência do trabalho efetuado, mas em decorrência da subordinação do empregado ao empregador. Um dono de loja, por exemplo, contrata um empregado para vender. Se durante uma jornada o empregado não vende nada, apesar de estar à disposição e sob as ordens do empregador não vai receber salário?

      Claro que vai e vai receber o salário estipulado no contrato de trabalho. Destarte, a redução da jornada de trabalho não dá ao patrão o direito de reduzir o salário do trabalhador. Se for salário mínimo, menos ainda, pois ninguém deve ganhar abaixo de um salário mínimo. No Brasil o salario não é suficiente nem para garantir a sobrevivência digna do empregado, imagina salario inferior ao minimo

    • Eu não estou entendendo. Ao lado de casa há um pequeno armazém, uma farmácia, uma casa de sanduíches e um pequeno bar. Ou seja, comércio de bairro. Todos com movimento mínimo ou sem. Como os donos pagarão os funcionários? Agradeço por um esclarecimento.

      • Pacta sunt ser anda
        Isso é problema do empregador, a quem cabe, além dos lucros, o risco da atividade econômica.
        Mas o governo também vai cooperar
        É o que sabe espera de um governo minimamente preocupado, já que não sanitariamente, pelo menos economicamente com a nação. É ele quem administra os tributos recolhidos da sociedade, assim como são os patrões que administram o lucro gerado pelo trabalho dos operários

  3. A quebra mundial mal saiu da prancheta e os sabios se plantão já estão empurrando a conta para o pobre. Solução? Tem, sim. Bastaria os governantes confiscar 90% do dinheiro dos 3% mais ricos do mundo, que, mesmo assim, continuariam muito ricos, e reequilibrar a vida e dignidade humana na terra. Igual disse o babaca defestrado da cultura, será isso ou nada!

  4. O Evandro Condé questiona:

    “Eu não estou entendendo. Ao lado de casa há um pequeno armazém, uma farmácia, uma casa de sanduíches e um pequeno bar. Ou seja, comércio de bairro. Todos com movimento mínimo ou sem. Como os donos pagarão os seus empregados?”

    O problema é a pequenez do comércio ou a pequenez e/ou falta de movimento?

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome