Nas buscas por informações sobre cloroquina no Google… Brasil dispara, por Sérgio Guedes Reis

Nesta última semana, Bolsonaro voltou à carga, anunciando que um novo protocolo seria lançado pelo Ministério da Saúde, desta vez instituindo o uso da cloroquina.

Nas buscas por informações sobre cloroquina no Google… Brasil dispara

por Sérgio Roberto Guedes Reis

Quando a pandemia do COVID-19 atingiu o status de problema global, naturalmente as pessoas passaram a buscar se informar sobre formas de prevenção, tratamento e cura da doença. Uma das primeiras soluções ventiladas foi a da (hidroxi-) cloroquina, um remédio produzido há décadas pra atender casos de malária, lúpus e outras doenças auto-imunes. Quem se destacou de início na proposição desse medicamento foi o médico francês Didier Raoult, que publicou vídeos e artigos sugerindo que a droga teria alta eficácia no tratamento de pacientes com coronavírus. A notícia viralizou e o médico, já conhecido na França, alcançou status de celebridade global. Logo algumas lideranças políticas buscaram se aproveitar dessa revelação e, diante do absoluto desconhecimento geral da população sobre o que fazer pra enfrentar o vírus, apresentaram o remédio como uma espécie de elixir da vida. Três governantes dedicaram bastante tempo de seus discursos na defesa da cloroquina: Trump, Bolsonaro e Maduro.

Conforme pesquisas científicas mais confiáveis e sofisticadas foram sendo publicadas, ficou claro que a cloroquina não só não melhorava, na média, a condição clínica dos pacientes, mas ainda amplificava a probabilidade de mortes por comorbidades, como arritmias cardíacas e hipertensão (ver por exemplo o resultado deste experimento: [aqui]). Raoult, o médico francês, passou a ter uma postura bem mais cética e cautelosa; o FDA, o NIH e o CDC, as principais instituições responsáveis pela saúde pública nos EUA, passaram a, explicitamente, não recomendar o uso do medicamento. Trump simplesmente excluiu o remédio do seu vocabulário (até o uso de desinfetante ele sugeriu, mas passou mais de um mês sem citar o termo “cloroquina” em seus discursos).

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Sobraram Brasil e Venezuela. Como mostra o gráfico do Google Trends para o período entre 25 de Março a 15 de Maio, o Brasil se destaca como o país no qual existe mais procura na internet pelo termo “cloroquina“. Os picos coincidem com declarações de Bolsonaro em defesa do remédio, as quais antecederam, em apenas alguns dias, as demissões de seus ministros da Saúde, Mandetta e Teich. A primeira declaração nesse período foi feita ainda em 21 de Março, dois dias após Trump ter anunciado os efeitos “milagrosos” do remédio (nota-se no gráfico o primeiro pico do crescimento no Brasil nos dias seguintes, enquanto nos EUA a repercussão é menor). Nela, Bolsonaro promete o aumento da produção do remédio. Em 08 de Abril, Bolsonaro exaltou a cloroquina em pronunciamento nacional. Menos de uma semana depois, Mandetta, que discordara do uso do remédio, é demitido.

Nesta última semana, Bolsonaro voltou à carga, anunciando que um novo protocolo seria lançado pelo Ministério da Saúde, desta vez instituindo o uso da cloroquina. Esse foi considerado um dos fatores críticos para a demissão de Teich, que também discordava da adoção do medicamento.

Como mostra o gráfico, a cloroquina voltou a ser um termo extremamente popular no Google (mais ainda do que em momentos anteriores). Como também mostra o gráfico, mesmo nos outros países em que o remédio foi cogitado como solução para o COVID-19 o grau de interesse da população foi muito menor ao longo do tempo, e claramente tem declinado mais recentemente. O Brasil, uma vez mais, é grande exceção, graças à insistência de Bolsonaro em vender uma saída rápida para a crise – a qual, é importante reiterar, não tem fundamento em qualquer estudo clínico sério. A título de curiosidade, adicionei a Nova Zelândia como “controle” – um dos países que, de acordo com as estatísticas de que dispomos, melhor respondeu à crise (menos de 1,5 mil casos e 20 mortes, cerca de 20 vezes menos do que o Brasil quando avaliamos o número de óbitos por milhão de habitantes). Note-se como por lá o nível de interesse da população pelo remédio sempre foi insignificante (máximo de 8 pontos) e, atualmente, é nulo (0 pontos na escala do Google, enquanto no Brasil atingimos neste fim de semana 71 de 100 pontos possíveis, com tendência de subida). A ignorância, infelizmente, é um projeto político. E o desespero é um dos seus combustíveis mais eficazes. Precisaremos de mais ciência e menos garganta se quisermos realmente superar esta crise.

2 comentários

  1. No blog do jornalista Altino Machado o professor Lauro Barata, num artigo sobre a quina, bela árvore de 20 metros de altura:

    Os indígenas, antes dos espanhóis e portugueses chegarem ao Novo Mundo, já a conheciam e tratavam seus doentes com a casca da Quina, uma bela árvore de 20 metros da Amazônia, da mesma família do café (Rubiaceae)

    https://twitter.com/AltinoMachado/status/1262365146548232193

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