O Brasil fora do debate sobre a transição energética mundial, por Ikaro Chaves

Mesmo nos EUA, apesar do negacionismo “trumpista”, o desafio é a transição de uma sociedade movida a combustíveis fósseis para uma economia de baixo carbono.

Foto Cebds

O Brasil fora do debate sobre a transição energética mundial

por Ikaro Chaves

O setor elétrico é a base sobre a qual está estabelecida praticamente toda a sociedade moderna, seja na satisfação das necessidades da vida doméstica, como a internet, a iluminação e a conservação dos alimentos, seja no funcionamento de praticamente todo o sistema produtivo. Ao que tudo indica, com a tendência de universalização do uso de veículos elétricos, a eletrificação das sociedades será ainda maior no futuro.

Quando se fala de algo tão essencial, seria extremamente imprudente fechar os olhos para o que acontece no setor elétrico no restante do mundo. Afinal, qual a tendência do setor elétrico nas principais economias? Qual é o debate que se trava sobre o setor elétrico nos EUA, na Europa, na China e na Índia? Não resta nenhuma dívida que, a despeito de evidentes particularidades em cada país, o eixo da evolução do setor elétrico no planeta é a transição energética. Mesmo nos EUA, apesar do negacionismo “trumpista”, o desafio é a transição de uma sociedade movida a combustíveis fósseis para uma economia de baixo carbono.

A substituição de fontes fósseis por renováveis, tanto no sistema elétrico quanto no setor de transportes, é uma necessidade, por conta do alarmante problema do aquecimento global. Porém, a evolução das tecnologias de energia limpa e seu barateamento, fizeram com que essa transição fosse não só ambientalmente necessária, mas economicamente vantajosa. Ou seja, aqueles países que ficarem de fora da transição energética, perderão competitividade e ficarão para traz na corrida tecnológica.

A grave crise econômica mundial, decorrente da pandemia da COVID-19, ao invés de representar uma pausa no esforço global rumo à transição energética, tende a acelerá-la. As principais nações do planeta têm encarado as medidas de descarbonização como uma grande oportunidade para a reativação de suas economias e a geração de milhares de empregos. A contração econômica, em especial em economias já desenvolvidas, não recomenda a ampliação de capacidade produtiva. Porém, no caso da transição energética, não se trata de criação de capacidade adicional, mas da substituição de instalações poluentes e obsoletas por outras, com baixa emissão de carbono, modernas e mais eficientes do ponto de vista econômico.

Leia também:  O artista e seu comitente ou a arte e a falta de grana no Brasil, por Rogério Mattos

No relatório “Covid-19 and energy: seting the scene” a Agência Internacional de Energia (IEA em inglês) constata o forte impacto da pandemia sobre o setor energético como um todo, prevendo uma redução de até 6% no consumo das fontes primárias. A maior queda no consumo desde a crise de 1929. Mas essa queda não deve se dar igualmente em todos o segmentos energéticos, a previsão é de que haja uma queda no consumo de combustíveis fósseis de até 8%, enquanto para as fontes renováveis há previsão, inclusive, de crescimento de até 5%.

Segundo a IEA cada milhão de dólares investidos em hidrelétricas ou parques eólicos pode gerar 03 empregos diretos, se o mesmo valor for investido na modernização da rede elétrica, podem ser gerados 08, ou 10 empregos por milhão de US$ no caso da geração fotovoltáica.

Mas infelizmente o Brasil está completamente alheio a esse debate. No que se refere ao esforço global pela descarbonização, o governo se limita a afirmar que o Brasil já possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo. Isso é verdade, porém, a tendência atual não é de manutenção dessa condição, mas sim de aumento do uso de caras e sujas fontes de energia fósseis.

Enquanto o mundo todo age no sentido da transição para uma economia de baixo carbono, no Brasil o debate é sobre a ampliação do uso do gás natural para gerar energia. Enquanto o mundo inteiro utiliza as empresas estatais energéticas como alavancas para programas de investimento em energias limpas, no Brasil a obsessão do governo é pela privatização da Eletrobras. Enquanto no mundo todo, os estados assumem seu papel de investidores para reativar a economia, no Brasil a solução proposta é a privatização total do setor elétrico e sua completa mercantilização, como se o mercado sozinho fosse dar conta de todo o planejamento e expansão do setor elétrico e ainda por cima da transição energética rumo a uma economia de baixo carbono.

Leia também:  Dona Maria: retrato de um Brasil fraco. Por fome!, por Marcelo Auler

Ikaro Chaves Barreto de Sousa – diretor da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras – AESEL

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

  1. Excelente o texto. Só, talvez, não fosse o ideal ser ingênuo em relação às chamadas energias renováveis ou “limpas”. Limpas e renováveis só mesmo as fontes. Querendo ter informações, pode-se dirigir às comunidades de fundo de pasto na Bahia para saber o que se passa por lá no que toca aos parques eólicos. Em breve, se quiser, envio uma mesa redonda a esse respeito. abraços,

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome