O papel da ciência e da pesquisa para reduzir desigualdades na pandemia de Covid-19

O Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma seleção de artigos sobre desigualdades em saúde na pandemia de Covid-19, trazendo um panorama com múltiplas visões relacionadas ao tema

No Brasil, a desigualdade é plural – são diversas desigualdades: econômica, social, racial, de gênero… E, se o problema não é de hoje, o fato é que a pandemia está expondo ainda mais a enorme vulnerabilidade do país. Atenta a essa questão crucial, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência escolheu o tema “Os caminhos da ciência para a redução das desigualdades” para marcar o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador (8/7) – data de sua criação em 1948. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) expressa este compromisso em sua própria missão institucional: “Produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e que contribuam para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira, para a redução das desigualdades sociais e para a dinâmica nacional de inovação, tendo a defesa do direito à saúde e da cidadania ampla como valores centrais”.

 

Diante da crise sanitária, diversos pesquisadores têm se dedicado a analisar como as populações mais vulneráveis vêm sendo afetadas. Entre eles, Tânia Fernandes e André Lima – ambos da Fiocruz –, que produziram um artigo sobre Covid-19 e as favelas, no qual atentam para os perigos de uma homogeneização do acesso à saúde. “Essa desigualdade também desconstrói a ideia de que a Covid-19 é uma doença democrática, que atinge igualmente a todos os cidadãos. Na realidade, o vírus atinge a todos, mas seus efeitos não se expressam democraticamente, diante da inadequação histórica das políticas públicas, das diversas vulnerabilidades a que está exposta uma fração significativa da sociedade, e da atenção do Estado para seus cidadãos, que não se dá de forma equânime. A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, concorda e complementa esta constatação, afirmando que ‘a capacidade de proteção e de resposta a isso é diferente num país desigual como o nosso’”, escrevem.

Neste contexto, o Portal de Periódicos Fiocruz apresenta uma seleção de artigos sobre desigualdades em saúde com foco na pandemia de Covid-19, traçando um panorama com múltiplas visões relacionadas ao assunto. O conteúdo é também uma forma de homenagear os pesquisadores que se dedicam a produzir conhecimentos em defesa da vida, e de aprofundar a reflexão sobre populações vulneráveis e inequidades no Brasil. Acesse a lista, a seguir, e compartilhe nas suas redes.

Explosão da mortalidade no epicentro amazônico da epidemia de Covid-19 (Cadernos de Saúde Pública, vol. 36, n. 7, jul/2020)

O estudo analisa o excesso na mortalidade geral em Manaus, capital do estado brasileiro do Amazonas, segundo Semanas Epidemiológicas, para identificar mudanças potencialmente associadas à epidemia. A explosão da mortalidade geral em Manaus e a elevada proporção de óbitos em domicílio/via pública expõe a gravidade da epidemia em contextos de grande desigualdade social e fraca efetividade de ações governamentais, em especial aquelas voltadas ao enfrentamento das desigualdades sociais e para a garantia e fortalecimento do Sistema Único de Saúde.

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A Covid-19 em favelas: vulnerabilidades sociais e auto-organização em Manguinhos (Especial Covid-19 da Casa de Oswaldo Cruz, disponível no Blog de HCS-Manguinhos, jun/2020)

A pandemia deu visibilidade a questões referentes aos sistemas políticos e de saúde de cada país e, sobretudo, às formas de organização social e de enfrentamento da grave crise que se instalou nos diversos cantos do planeta, com adoecimento e morte em números alarmantes. O Brasil, que já enfrentava uma profunda crise político-econômico-social, marcada por políticas de austeridade de caráter neoliberal, se depara com inúmeros desafios no enfrentamento desta pandemia, que lança luz sobre a grande desigualdade e o racismo estrutural que caracterizam a sociedade brasileira. Essa desigualdade também descontrói a ideia de que a Covid-19 é uma doença democrática, que atinge igualmente a todos os cidadãos. Na realidade, o vírus atinge a todos, mas seus efeitos não se expressam democraticamente, diante da inadequação histórica das políticas públicas, das diversas vulnerabilidades a que está exposta uma fração significativa da sociedade, e da atenção do Estado para seus cidadãos, que não se dá de forma equânime. O Território Ampliado de Manguinhos, nesse contexto, exemplifica essa desigualdade.

A interiorização da Covid-19 na Amazônia: reflexões sobre o passado e o presente da saúde pública (Especial Covid-19 da Casa de Oswaldo Cruz, disponível no Blog de HCS-Manguinhos, jun/2020)

A pandemia de Covid-19 tem encontrado terreno fértil pela região amazônica. Atualmente, além das grandes cidades da região, os interiores da floresta vivenciam o aumento expressivo no número de casos, contexto em que as desigualdades sociais e de acesso a serviços de saúde ficam ainda mais evidenciados. A preocupação em estabelecer barreiras para controle da contaminação e mesmo a necessidade de estruturar serviços de saúde, no entanto, não são uma inteira novidade. Parte das medidas que são implementadas no tempo presente foram paliativos históricos da estruturação da saúde pública.

Troco uma máscara por alimento: fome e pobreza na Covid-19 (Blog de HCS-Manguinhos, jun/2020)

O noticiário de maio de 2020 trouxe a foto de uma criança com um cartaz em que se lia: “Troco uma máscara por alimento”. A situação despertou diversos debates sobre as (im)possibilidades de distanciamento social e quarentena de quem não vem sendo atendido pelo Estado, como os informais e desempregados. Nesse artigo, o autor comenta a importância da história do tempo presente, que, “para além do estudo de uma temporalidade recente, aborda as permanências de experiências históricas passadas na contemporaneidade”, destacando o problema da fome. Ele afirma que “por mais que tenha sido, por breves momentos, considerada superada na trajetória brasileira, mostra-se, em especial nos momentos de crise econômica, um pesado traço de um passado que não passa”.

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Covid-19, causas fundamentais, classe social e território (Trabalho, Educação e Saúde, vol. 18, n. 3, maio/2020)

A teoria que considera as condições sociais como causas fundamentais da saúde, em articulação com as noções de classe social e território, é usada em reflexões acerca da trajetória e da distribuição dos efeitos da pandemia da Covid-19 no país. Parte-se de sínteses teóricas, abordagens e evidências de trabalhos do autor sobre desigualdade de saúde no Brasil. Entende-se que o ‘meio social’, de natureza relacional e estruturada, afeta a propagação e a distribuição da doença entre os grupos. As diferenças de classe em circunstâncias de trabalho, localização e moradia são referidas. No tocante às diferenças sociais no risco de desenlace fatal da doença, são consideradas a distribuição prévia de condições adversas e as diferenças no modo como as instituições de saúde processam as pessoas. Como proposto pela teoria, as desigualdades de recursos, informações, disposições e capacidade estariam afetando a distribuição social dos efeitos da pandemia no Brasil.

Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19 (Trabalho, Educação e Saúde, vol. 18, n. 3, maio/2020)

O racismo é um sistema estruturante, gerador de comportamentos, práticas, crenças e preconceitos que fundamentam desigualdades evitáveis e injustas, baseadas na raça ou etnia. Na saúde o racismo pode se manifestar de diversas formas, como o institucional, que frequentemente ocorre de forma implícita. A pandemia do coronavírus tem sido um desafio para países que apresentam profundas desigualdades. No Brasil, em que pese a ausência das informações desagregadas por raça ou etnia ou que quando coletadas apresentam um preenchimento precário, sabe-se que negras e negros irão sofrer mais severamente os impactos da pandemia e seus vários desfechos negativos. No texto recuperamos aspectos históricos e sua relação com as condições de vulnerabilidade da população negra e apresentamos uma agenda de ações específicas para o combate ao racismo e suas devastadoras consequências no contexto da Covid-19.

Celeiros da pobreza urbana: suplementação de renda e isolamento social em ambientes metropolitanos nos tempos pandêmicos (Visa em Debate, ahead of print, maio/2020)

As regiões metropolitanas registraram, em 19 de março de 2020, 85,71% dos óbitos e 93,3% das ocorrências da Covid-19, percentual que persistiu, com poucas variações, até o dia 18 de maio de 2020. A associação entre alta densidade, carência de infraestrutura urbana e mercado de trabalho com forte dependência da informalidade, demonstrou a vulnerabilidade, do ponto de vista do contágio da Covid-19, nas periferias metropolitanas. Nesse contexto, a implementação de políticas de recomposição e suplementação de renda são necessárias para, ao mesmo tempo, garantir a subsistência das famílias e facilitar as políticas de isolamento social.

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No meio da crise civilizatória tem uma pandemia: desvelando vulnerabilidades e potencialidades emancipatórias (Visa em Debate, ahead of print, maio/2020)

Esse debate, em forma de ensaio, reflete alguns desafios para a sociedade diante da atual pandemia da Covid-19, em particular para a saúde, a vigilância e a promoção. Assumimos que a crise atual faz parte de uma crise civilizatória mais ampla com múltiplas dimensões – social, econômica, democrática, ambiental e sanitária –, e que a saúde pública/coletiva precisará se reinventar numa perspectiva emancipatória. O artigo está organizado em quatro partes. Na primeira apresentamos nossa chave de leitura conceitual, na segunda defendemos nosso argumento central: a pandemia intensifica injustiças e vulnerabilidades anteriores que marcam a modernidade capitalista e colonial, excludente e racista. Na terceira, refletimos sobre as encruzilhadas, desafios e possibilidades emancipatórias diante das fendas abertas pela proximidade da morte e a diluição de fronteiras entre a normalidade e as urgências, inclusive para grupos e países mais ricos. Encerramos o texto com reflexões inspiradas em sábios e artistas de Minas Gerais, como o indígena Ailton Krenak, Guimarães Rosa e o Clube da Esquina.

Uma nova geografia e o direito à informação e comunicação: a sobrevida em meio à pandemia de Covid-19 (Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, vol. 14, n. 2, abr-jun/2020)

Em entrevista à Reciis, o geógrafo e sanitarista, Christovam Barcellos, reflete sobre a influência das condições socioambientais no estado de saúde das populações, um tema que adquiriu ainda mais relevância depois de uma sequência de desastres ambientais ocorridos recentemente no Brasil. A pandemia da Covid-19 o fez retomar alguns estudos, que podem contribuir para pensar de forma ampla sobre as diversas questões sociais e de saúde envolvidas nas situações de emergência sanitária que alteram o cotidiano das pessoas e da sociedade. Contribuindo para as ações de controle à pandemia do novo coronavírus no estado do Rio de Janeiro e no Brasil, o vice-diretor de pesquisa do Instituto de Comunicação, Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz) relata o desafio de propor decisões oportunas e baseadas em dados que, apesar da ideia geral de preservar a vida, conforme o uso podem pôr em risco as pessoas mais vulneráveis num contexto de profundas incertezas relacionadas à Covid-19 e às desigualdades sociais históricas do Brasil. O pesquisador revela que esta pandemia produzirá uma nova organização socioespacial com a formação de grupos que podem ser mais solidários ou, ao contrário, individualistas. Para Barcellos, a pandemia também reforçará a relevância da ciência e da saúde pública para a sociedade, de modo que, na pós-pandemia, o direito às tecnologias de informação e comunicação qualificadas será pauta necessária para uma agenda de combate às desigualdades.

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