O presidente operacional do Brasil, por Homero Fonseca

Seu nome é Braga Netto: generais assumem o poder, mas mantêm Bolsonaro e aparência de normalidade.

O presidente operacional do Brasil

por Homero Fonseca

Os inéditos, frenéticos e surrealistas acontecimentos políticos dos últimos dias  confirmaram duas coisas:

1 – Os militares assumiram o poder de fato.

2 – Bolsonaro não acatará quieto a usurpação.

A pandemia causada pelo coronavírus, além do tremendo impacto sobre a saúde e a economia, teve um inesperado efeito político: rompeu a aliança entre as elites e a extrema direita, com aval dos chefes militares, que levou o obscuro deputado Jair Bolsonaro à presidência da República, no vácuo produzido pela Operação Lava Jato. O arranjo devia durar pelo menos até 2022, cabendo a Bolsonaro o papel de bufão que alimentava suas bases com doses cavalares de ideologia rudimentar e distraía as oposições à esquerda numa eterna guerra verbal, enquanto Paulo Guedes e seus chicagoboys tocavam o que interessava: a política econômica ultraliberal. Ao escancarar o despreparo e o desequilíbrio do ex-capitão, a Covid-19 explodiu esse pacto político.  Os donos do poder real se deram conta de que o fanatismo ideológico do chefe do governo e sua entourage podia ser uma ameaça a seus próprios interesses (o contraproducente confronto com a China é só um exemplo). Editorial do Estadão expôs o sentimento da elite conservadora a respeito: “Para os que ainda julgavam possível que Bolsonaro, ante a gravidade da crise, enfim tomasse consciência de seu papel e passasse a atuar como chefe de Estado, e não como chefe de bando, deve ter ficado claro de vez que o ex-deputado do baixo clero jamais será o estadista de que o País precisa. Bolsonaro, definitivamente, não é reciclável.”[1]

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A resposta de Bolsonaro, como se viu, foi radicalizar na direção de uma ruptura institucional, na intenção de implantar a ditadura repressiva dos seus sonhos.

Os generais em seu labirinto

Os generais se alarmaram quando perceberam que haviam se encalacrado no labirinto que ajudaram a construir: a absoluta incompetência do governante diante do enorme desafio à sua frente ameaçava o esforço de combate à pandemia, podendo desembocar numa convulsão social de grandes proporções – fantasma que ronda as forças armadas em seus pesadelos recorrentes. A evidente radicalização do chefe do governo somente piorava o quadro. E havia os panelaços, que preocuparam o general Villas Boas, “padrinho” do presidente[2], e o isolamento internacional (seus aliados Trump, Boris Johnson, o indiano Narendra Modi, o húngaro Viktor Orban, toda turma da direita, se viram obrigados a curvar-se à orientação da OMS). Até Twitter, Facebook e Instagram bloquearam o presidente da República! Os generais enfim agiram, no silêncio das decisões opacas.

No primeiro dia deste mês, o portal Defesa.net, espécie de porta-voz informal do militarismo, noticiou: “Gen. Braga Neto Assume o Estado-Maior do Planalto”, numa “complexa construção, (…) produto de um “acordo por cima, envolvendo ministros e comandantes militares e o próprio presidente da República”. A ideia seria “reduzir a exposição do presidente, deixando-o ‘democraticamente’ (…) se comportar como se não pertencesse ao seu próprio governo”. E acrescentou no mais puro jargão militar: “Essa deliberação já foi comunicada, com os devidos cuidados, aos ministros e às principais autoridades dos Três Poderes. Pelo menos enquanto a grave situação de crise perdurar, o general será o ‘presidente operacional’ do Brasil”.[3]

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Outra informação importante consta num documento do Ceeex (Centro de Estudos Estratégicos do Exército), apoiando a linha do Ministério da Saúde – sem citá-lo expressamente –, defendendo, no campo político, “um consenso a  ser construído de forma urgente” e arrematando de forma enigmática, mas expressiva:  “Não parece razoável uma quebra de governabilidade num momento tão crítico“.[4] Em outras palavras, recomenda apoio à política de Mandetta, mantendo Bolsonaro onde está. Todos os movimentos e falas dos chefes militares confirmam essa direção.

Juntando-se as pontas, depreende-se que os excessos de Bolsonaro, sabotando a ação do seu próprio Ministério da Saúde e dos governos de vários Estados, levaram os comandantes militares a irem além da tutela pura e simples e assumir o poder, mantendo porém a aparência de “normalidade”.

Mas o incontrolável ex-capitão prosseguiu em sua linha de provocação, cujo auge surrealista (até o momento) se deu na inesquecível segunda-feira (6/04): a novela da demissão que não houve. Depois de protagonizar uma das falas mais patéticas jamais ditas por um chefe de governo (“Não tenho medo de usar a caneta”), Bolsonaro convocou o ministério e vazou que demitiria Mandetta (O Globo chegou a publicar na internet a “barriga” de que Mandetta estava demitido).[5]

Finda a reunião, ao invés de o presidente comunicar à imprensa a demissão do auxiliar, foi o próprio Mandetta que fez um pronunciamento dizendo que continuava ministro, endereçando várias indiretas ao presidente. Foi a repetição surrealista do “Dia do Fico”.

Jair Bolsonaro saiu desmoralizado do episódio. A grande imprensa minimizou o fato, na linha de aparentar normalidade, como desejam os generais. Bolsonaro perdeu uma batalha. Mas, não perdeu a guerra. Os chefes militares cercaram o vírus político que ajudaram a criar, mas não o exterminaram – afinal comungam da mesma ideologia. Bolsonaro, além do apoio de uma base até agora inabalável, tem um trunfo demoníaco: se a pandemia trouxer o caos sanitário e social, conforme previsto e apesar dos esforços para contê-la, ele poderá berrar: “Eu não disse?”, acusando a opção pelo isolamento geral, que ele mesmo sabotou,  como a  culpada. Será ouvido? Por quem? Qual o estado de espírito da população no meio destruição da pandemia? Os generais devolverão o poder governamental a Bolsonaro ou seguirão na tutela (“sem quebra de governabilidade”, como está no estudo do Ceeex)? Mais fácil é a tarefa dos meteorologistas.

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Citações:

[1] O Estado de S. Paulo,  04/04/2020:

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,sabotagem,70003259891

 

[2] O Estado de S. Paulo, 05/05/2020: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,villas-boas-ninguem-tutela-o-bolsonaro,70003258645

[3] Defesa.net, 01/04/2020. http://www.defesanet.com.br/ncd/noticia/36301/Exclusivo—Gen-Braga-Neto-Assume-o-Estado-Maior-do-Planalto/

[4] UOL, 05/04/2020. “Estudo do Exército contraria Bolsonaro e apoia isolamento horizontal”. https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/04/05/exercito-forcas-armadas-coronavirus-bolsonaro.htm?cmpid=

[5] O Globo. A manchete original “Mandetta deve ser demitido ainda hoje” foi substituída depois por “Bolsonaro decide demitir Mandetta, mas volta atrás”. https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-decide-demitir-mandetta-mas-volta-atras-24354357. 06/04/2020 – 15:21 / Atualizado em 06/04/2020 – 23:52.

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3 comentários

  1. Bolsonaro ficar quieto (e como vemos pelo olhar cada vez mais triste e abalado), está ligado ao tamanho do dossiê e ameaças apresentadas pela corte militar que ele foi se cercando na presidência. Apenas esqueceu que os generais estudam estratégias de guerras, espionagens e ele apenas replica Trump e a “fisolofia” do sir Olavo da Virgínia, que perdeu o poder para os militares “comunistas”. Se o presidente operacional tiver em sua pasta, descrições e detalhes acerca das investigações sobre o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e seu assessor, levando proximidade ao condomínio da barra pesada da Tijuca, acabou-se para ele e calado e mais triste ficará. Vão permitir que continue fazendo seus negócios e negociatas junto com os filhos, mas os limites devem ter sido colocados.

  2. Nao tem nada de “normal” no Brasil desde que Aecio perdeu e começou a sabotar o país junto com Cunha.

    E apesar dos sucessivos escândalos AÉCIO não foi preso, os celulares de Cunha não foram periciados (cade vaza jato neles?), Moro e Dallagnol continuam impunes e a coisa toda continua degringolada.

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