O quase desastre financeiro produzido por Guedes e Mansueto, por Luis Nassif

O artigo abaixo é inóspito. Serve para quem quiser entender os meandros do grande erro cometido pelo Secretário do Tesouro Mansueto de Almeida.

Ontem publiquei um artigo mostrando como o Ministro da Economia Paulo Guedes e o Secretário do Tesouro Mansueto de Almeida quase produziram uma crise financeira de proporções catastróficas. Foram salvos pela ação de Roberto Campos Neto no Banco Central.

Muitos leitores pediram mais detalhes sobre a matemática do desastre. Aqui vai.

Passo 1 – entender a marcação a mercado

Desde 2002, as instituições financeiras são obrigadas a registrar o valor de seus ativos com a chamada marcação a mercado. Funciona assim:

  1. Toda LTN tem preço definido de vencimento. Digamos que no dia do vencimento, ela valerá 100.
  2. Se falta um ano para o vencimento, seu valor a mercado corresponderá ao preço que ele deveria ser vendida para, no vencimento, corresponder ao juro da venda.

Valor de resgate…… = 100

Taxa de juros……….. = 5% ao ano

Prazo para o resgate = 365 dias

Valor presente……… = 100 / (1+ 0,5%) = 95,24

  1. Mas suponha que, por algum motivo, ocorre um aumento da oferta de LTNs no mercado e, pela lei da oferta e da procura, o preço caia para 93,46. Nesse caso, como o preço inicial caiu e o final se manteve o mesmo, a distância entre eles aumentou – o que significa que a remuneração subiu. No exemplo em questão, a taxa de juros saltou para 100 / 93,46 – 1 = 0,07 ou 7%

Passo 2 – entender o cálculo do valor das cotas

Para facilitar o entendimento, vamos imaginar um fundo constituído com  R$ 350 milhões de LTNs (calculado pelo valor de resgate) e R$ 400 milhões em ações.

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Suponha a taxa de juros a 5%. O valor da carteira ficará assim:

Carteira de ações = 400.000.000

Carteira de LTNs. = 350.000.000 / 1,05 = 333.333.333

Valor total ………. = 733.333.333

Valor de cada cota (supondo 1 milhão de cotas) = 733.333.333 / 1.000.000 = 733,33

Passo 3 – o valor da cota com aumento dos juros

Ai aconteceu a corrida de alguns investidores para resgatarem suas cotas. As instituições passaram, então, a vender LTNs no mercado para ter dinheiro para pagar o cliente que estava saindo. Com essa corrida, houve uma inundação de LTNs, derrubando os preços do papel. Digamos que ele tenha caído para 93,46. Significa que as taxas de remuneração saltaram de 5% para 7% ao ano.  100 / 93,47 – 1 = 7%.

O valor da cota caiu então.

Carteira de LTNs….. =  327.102.804

Carteira de ações…. = 400.000.000

Valor total…………… = 727.102.804

Supondo que tenha 1 milhão de cotas, o valor de cada cota cairá de R$ 733,33 para R$ 727,00. Por enquanto, uma variação pequena.

Peça 4 – a venda de ações

Aí vem o Secretário de Tesouro e acha que o aumento dos juros prejudicará a contabilidade de todo o estoque de LTN existente. Porque, basta uma negociação de LTN para que todo o estoque seja reavaliado pelo valor negociado, mesmo de quem irá levar o papel em carteira até o vencimento.

Proibidos de vender as LTNs, o mercado passou a vender ações, derrubando seus preços. E a queda dos preços provocou um terremoto no mercado futuro.

Entendendo o mercado futuro

O mercado futuro funciona assim: se acho que uma determinada ação vai valer 100 daqui a 6 meses, por exemplo, e no mercado futuro ela esteja sendo negociada a 90, eu entro e faço a aposta: me comprometo a comprar a futuro por 90. No vencimento, recebo as ações por 90 e, se minha aposta estiver correta, vendo por 100.

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Com as instituições vendendo as ações, o mercado caiu derrubando os contratos futuros. Quando as cotações caem , o comprado é obrigado a pagar a diferença.

Digamos que o valor futuro do papel caiu para 60. O comprado tinha se obrigado a adquirir o contrato futuro por 90. Se adquirir por 90 e vender por 60, terá um prejuízo de 30. Para evitar inadimplência, ele é obrigado a depositar a diferença na Bolsa. É a maneira do mercado garantir que ele terá recursos para bancar o prejuízo.

Ocorre que, aproveitando o período de alta do mercado, muitos investidores se endividaram em dólar para apostar no mercado futuro. E ficaram à mercê de dois movimentos, ambos acentuados pelo coronavirus. De um lado, as ações caíram; de outro, o dólar subiu. E aí o efeito foi geométrico, porque ele ficou desenquadrado – isto é, o valor da dívida ficou maior do que seu patrimônio.

Em mercados mais conservadores, interromperam-se as negociações. Na B3, a bolsa brasileira de futuros, deixou-se correr à solta, porque as corretoras faturam quando há compra e venda de contratos.

Resultado, o mercado despencou de vez, quebrando muita gente.

Vamos ver como ficou nosso fundo de investimento, supondo uma queda de 30% na carteira de ações.

 

O valor de cada cota cai, então, de R$ 733 para R$ 635, ou 13,44% de perda em relação ao pré-crise.

Aí começou a corrida contra os fundos derrubando não apenas o valor patrimonial, mas o valor das cotas e obrigando muitos deles a interromper os resgates

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Foi quando entrou na parada Roberto Campos Neto, do Banco Central, conversou com Mansueto, e flexibilizaram esse controle.

 

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