O terrorismo sanitário nas Universidades Federais e a gestão avestruz, por Alexandre Filordi

Como se não bastasse o ensino remoto ter se transformado na cloroquina pedagógica, agora as instituições públicas de ensino superior, em nome de um pretenso “protocolo de biossegurança” instituído pelo MEC, padecem de um terrorismo sanitário.

(Imagem extraída de www.shutterstock.com)

O terrorismo sanitário nas Universidades Federais e a gestão avestruz

por Alexandre Filordi

A portaria Nº 1.030, de 1º de dezembro de 2020, publicada no Diário Oficial da União, sob emissão do Ministério da Educação, dispôs acerca do retorno das aulas presenciais nas instituições superiores integrantes do sistema federal de ensino. O impacto nas universidades federais, em plena subida de contaminação da Covid-19, no mundo e no Brasil, não pode ser desprezado.

O que passou a ser denominado de segunda onda da pandemia se reverbera em vários fatores: a) na dificuldade dos poderes públicos, sobretudo o Governo Federal, de enxergar a realidade fora de projeções irrealistas, aliás, desde o início da pandemia; b) o relaxamento da população que se habituou a ignorar o impacto e a continuidade das mortes, hoje próximas aos 175 mil – “o hábito é a segunda pele”, diria Proust; c) e, por conseguinte, a aceitação em se correr riscos, daí o funcionamento “mascarado” dos bares, restaurantes, comércios; das academias de ginástica, das praias etc.

“Ora (direis)” é preciso viver, parafraseando Bilac. Contudo, todo cuidado é pouco. Apesar do cansaço com as restrições necessárias, impactando em nossos afetos, sentimentos, relações humanas e projetos de vida, além do transtorno econômico, a pandemia é real e persiste: causa morte e, por ora, não nos dispomos de imunização. Sendo assim, o “preciso viver” continua “na corda bamba sem sombrinha”, e a qualquer instante o vírus dá uma rasteira nas pretensões irreais. Mas o que fazer quando gestores públicos se comportam como avestruzes: enterram a cabeça na burocracia autocentrada e fingem que o mundo real não existe e subscrevem a portaria?

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Como se não bastasse o ensino remoto ter se transformado na cloroquina pedagógica, agora as instituições públicas de ensino superior, em nome de um pretenso “protocolo de biossegurança” instituído pelo MEC, padecem de um terrorismo sanitário.

Em primeiro lugar, porque o problema, por si só, não são estudantes de todas as regiões brasileiras estarem presentes em cada campus universitário. A questão é que eles precisam de transporte público, residem coletivamente, saem para comer, beber, sem contar a cultura de festas e, assim, não estarão 24 horas do dia sob “protocolo de biossegurança”. Argumentar que isso seria irracional é esquecer que para todo rabo de jacaré existe uma cabeça, ou seja, não se pode contornar efeitos negligenciando o disparador das causas: a autorização de parcela significativa de estudantes presentes nas instituições federais.

Em segundo lugar, porque o argumento da pretensa urgência de trabalhos laboratoriais ou em campo, além de pesquisas a serem realizadas, passa à frente da dignidade e do valor da vida. Claro está, isso é apenas ressonância da afobação necropolítica que reduz o capital intangível produzido na universidade ao capital tangível, produtivista, subserviente à lógica do valor de troca e da execução encabrestada pela pulsão dos lucros. Daí a pressa sem preço. E mais: no caso de contaminação estudantil as universidades se responsabilizarão por tratamento, internação, compra de medicamentos etc.?

Em terceiro lugar, porque, em meio a tudo isso, temos perdido a oportunidade de reavaliarmos os procedimentos e as estratégias pelas quais o conhecimento científico deveria desacelerar os marcadores de destruição do antropoceno. A pandemia é sintoma das condições que a humanidade tem produzido para a sua autodestruição. Assim, no lugar de oportunizarmos outras valorações para os territórios existências; no lugar de desacelerarmos o ritmo alucinante das demandas produtivistas; no lugar de aproveitarmos a pandemia como cenário que escancara a pobreza, a miséria, a injustiça social, a precarização, a falta de acesso à saúde; no lugar de perspectivarmos a função da educação como agente social transformador, ao contrário, vemo-nos obrigados a usar a camisa de força cuja matéria prima é a tanatocracia.

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Embora o MEC tenha revisto a urgência da referida portaria e tenha desistido, em 2 de dezembro, de defender a volta às aulas presenciais em janeiro de 2021, espécie de política do bater e soprar depois, não nos enganemos, porém: a coerência com a sombra de nossos tempos – há vidas que merecem ser vividas e outras nem tanto – não será revogada do mesmo modo. Os gestores passivos e súditos deverão seguir o mesmo curso. Se bom ou mau, o tempo dirá, desde que estejamos vivos para testemunhar.

Alexandre Filordi (DED/UFLA)

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