Pandemia, villas e idealização: Os novos desafios de Alberto Fernandez, por Camila Koenigstein

A Villa 31, localizada na zona de Retiro, bairro marginal mais antigo de Buenos Aires já conta com números preocupantes de infectados.

Villa 31

Pandemia, villas e idealização: Os novos desafios de Alberto Fernandez

por Camila Koenigstein

Há mais de cinquenta dias o atual presidente Alberto Fernandez decretou a quarentena oficial e iniciou o processo de cerceamento de quase todas às atividades sociais.

Nesse momento iniciou um novo período, através de medidas, como: flexibilização de saídas, abertura, ainda que lenta e restrita de alguns estabelecimentos comerciais e industriais e alargamento no tempo de permanência dos cidadãos na rua. No entanto, enfrenta novos problemas oriundos de quase dois meses de isolamento social.

Buenos Aires, capital do país, centro de grandes redes de comércio, portanto, de enorme importância econômica, se encontra em um cenário até então distante dos bairros residenciais, ilhas, que aparentemente eram a representação do êxito do baixo número de mortos e contaminados.

Embora a curva tenha declinado, o descaso com a população mais pobre da região urbana mostrou que o isolamento não é o único vetor para evitar a proliferação da doença, mas sim a diminuição da desigualdade social, fator ímpar para o controle da pandemia, e também doenças endêmicas.

O prefeito Horacio Rodríguez Larreta, empresário e atual prefeito de Buenos Aires, e representante político da oposição, não adotou medidas que pudessem conter o avanço de COVID-19 nas villas e bairros carentes.

Hoje, perto do fim da quarentena, que já passou por diversas etapas, temos um cenário alarmante, justamente saído da realidade negada tanto por Larreta, quanto pela população abastada e até mesmo pelo próprio presidente, que sempre enfatizou a necessidade do isolamento domiciliar, esquecendo que muitos vivem em situações precárias, não só na capital, mas em todo o país.

A Villa 31, localizada na zona de Retiro, bairro marginal mais antigo de Buenos Aires já conta com números preocupantes de infectados. A falta de abastecimento de água, por onze dias desencadeou o desespero da população local. Em seguida, ocorreu a primeira morte, uma senhora de 84 anos, habitante local. Líderes comunitários fizeram todo tipo de pressão e manifestação sobre o descaso do atendimento médico e contenção da doença, vez que, a maioria dos moradores vivem em pequenos cômodos divididos por várias pessoas.

Até o momento o país conta com a soma de 7134 infectados e 353 mortos em todo o país. O que de fato mostra que o isolamento foi importante, impedindo a superlotação hospitalar e diminuindo os números de contágios. Mas, nos últimos dias, os casos das villas ganharam notoriedade, não pela importância dada à população, mas pelos novos números de casos de COVID-19, com: 375 na Villa 31, 120 na Villa 1-11-14 e 519 em bairros populares (La Poderosa, 2020).

O aumento inesperado de casos, justamente quando o presidente Alberto Fernandez decidiu diminuir as medidas restritivas de circulação gerou uma encruzilhada para ele, dada à pressão dos empresários pelo retorno das atividades e a dificuldade da população em seguir mais tempo isolada, embora às entrevistas apontam ainda tolerância caso seja necessário seguir.

Além da pandemia, Argentina enfrenta outra epidemia, essa silenciada há anos: a dengue.

Segundo o último informe do Ministério da Saúde, há um total de 22.320 casos, somando com pessoas que estiveram fora do país, a cifra chega a 25,764 infectados, números absurdos e camuflados atualmente pela pandemia. O que expõe a ausência de medidas sanitárias e instruções que mantenham que os cidadãos protegidos, principalmente cidadãos que residem nas áreas mais carentes. Em seguida surge o fracasso das medidas adotadas em relação à violência doméstica e o número de feminicídios, tema que não ganhou à devida relevância, exceto à visibilidade dada através dos coletivos feministas.

Entre 20/03/2020 e 10/05/2020 foram 49 feminicídios, e até o momento 117 desde o início do ano (Ahora, 2020).

O presidente iniciou a quarentena com um forte discurso sobre suas prioridades, no caso resguardar vidas, só não perguntamos quais. O olhar direcionado para determinados grupos sociais, deixou parte população abandonada, nada surpreendente, visto que justamente são os mais vulneráveis que são atingidos pelo aumento de contágios.

Após dois meses de isolamento, presidente e governador se encontraram pela primeira vez e citaram a situação das villas, prisões e geriátricos.

Chegou o momento que a popularidade do presidente será posta à prova, vez que, os empresários estão insatisfeitos, nova onda de recessão e o dólar à $132 ARS, colocando a economia em vias de um colapso, mais os novos casos saídos dos bairros pobres geram um novo painel sobre a atual situação do país.

No entanto, nas palavras do Presidente:

“Se la pasaron hablando muchos de que ampliamos la cuarentena porque no sabíamos qué hacer con la economía. La realidad es que estamos trabajando todo el día en ver salidas para la economía. Decían que no podíamos resolver el tema de la deuda porque no sabíamos donde estamos parados y ayer presentamos la oferta. Queremos resolver eso”. (Clarín, 2020)

Fernandez, sempre “priorizou” a saúde nos seus discursos, mas, a falta  de paridade com o prefeito da cidade de Buenos Aires, seu opositor, deixou buracos nos seus discursos. Só atualmente apareceram juntos, o que aponta que a saúde não tenha sido vista antes das divergências políticas.

Todo esse cenário exposto pelo COVID-19, mostrou uma Argentina, principalmente uma Buenos Aires, escondida, que não é visitada pelos milhares de turistas que se encantam pela capital e seus bairros charmosos e arborizados. Tal realidade, inclusive, é desconhecida até mesmo para alguns habitantes que sequer sabem a localização dessas zonas.

A realidade das Villas e bairros pobres mostrou o descaso do poder público com a falta de salubridade, moradias dignas, planejamento urbano, educação de qualidade, oportunidades de emprego e todos os problemas já conhecidos vindos de regiões que formam bolsões de pobreza.

Resta saber se Alberto mostrará a cara e o que de fato representa dentro do continente. 

Se todas as medidas adotadas não passam de um projeto populista que atende uma classe média progressista, ou atuará como a frase tão dita dentro das Villas: “virar a cara para o outro lado” como de costume na América Latina.

Referências bibliográficas :

  • Clarín (17/04/2020). Permiso para circular. Alberto Fernández respaldó a Rodríguez Larreta: “No lo tomen como un ataque a la libertad, los estamos cuidando”. Recuperado de

https://www.clarin.com/politica/alberto-fernandez-respaldo-rodriguez-larreta-tomen-ataque-libertad-cuidando-_0__7Zv5EgXF.html

  • La Poderosa (10/05/2020). Ya tenemos 373 casos en la Villa 31 y 519 en los barrios populares de CABA. Recuperado de

http://www.lapoderosa.org.ar/2020/05/ya-tenemos-373-casos-en-la-villa-31-y-519-en-los-barrios-populares-de-caba/

  • Ahora que si nos ven, Observatorio de las violencias de género (12/05/2020). Femicidios durante la cuarentena. Recuperado de

https://www.instagram.com/p/CAGD8uJAnyg/

  • La Nación (15/05/2020).Coronavirus hoy en la Argentina y el mundo: minuto a minuto y las novedades del 15 de mayo. Recuperado de

https://www.lanacion.com.ar/sociedad/coronavirus-hoy-minuto-minuto-novedades-argentina-mundo-nid2340949

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em  Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

 

1 comentário

  1. Sempre bom acompanhar as notícias de Bue; mesmo que às vezes não tão boas.

    Se me permite uma pequena reparação, Retiro – onde está a Villa 31 – não se trata de um bairro marginal, uma vez que se encontra no centro antigo da capital federal – no extremo da famosa calle Florida -, bem ao lado da Recoleta e a menos de um quilometro de Puerto Madero.

    Detalhe histórico: Essa villa surgiu em 1931, em decorrência da crise mundial que se iniciou com o crash de 1930.

    As villas, na Argentina, assim como as favelas no Brasil e em outras partes da América Latina, se inserem no miolo do próprio tecido urbano. Drama antigo e até hoje insolúvel.

    Tristes trópicos.

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