Pesquisa mostra o tamanho da desgraça brasileira, por Oswaldo E. do Amaral

O Brasil corre o risco de voltar ao nível de pobreza antes do Plano Real, com 30% da população vivendo com menos do que R$ 470 por mês, aponta pesquisador

Jornal GGN – O Brasil corre o risco de voltar ao nível de pobreza antes do Plano Real, com 30% da população vivendo com menos do que R$ 470 por mês. Essa é a constatação do professor de ciência política da Unicamp, Oswaldo E. do Amaral, após a divulgação da pesquisa “A Cara da Democracia”, do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação.

Nela, 69% dos entrevistados afirmam que vivem pior do que há um ano, 31% que perdeu o emprego durante a pandemia, para 75% dos mais pobres a economia pessoal piorou.

Leia a coluna completa:

A desgraça brasileira: pesquisa mostra o tamanho da crise social no país

Por Oswaldo E. do Amaral

Da coluna “A Cara da Democracia”, no Uol

Quem já passou dos 40 anos e caminha pelas ruas das grandes cidades brasileiras tem uma terrível sensação de déjà vu. Para os mais jovens, o sentimento é de distopia, o que vai marcar uma geração. Fome, miséria, pessoas vivendo nas ruas em níveis alarmantes, campanhas para a arrecadação de alimentos, desemprego nas alturas e um nível de incerteza econômica que não víamos desde o início dos anos 1990.

A desgraçada combinação da pandemia com o governo Bolsonaro provocou um desastre social no Brasil. O contexto pandêmico por si só já seria dramático em um país desigual e com uma economia em crise. Mas o governo federal conseguiu deixar tudo pior. Para os mais ricos, é uma tempestade perfeita. Para os mais pobres, é uma hecatombe.

O Brasil corre o risco de voltar a ter o nível de pobreza que tinha antes do Plano Real, com cerca de 30% da população vivendo com menos do que R$470 por mês. Poderia ser diferente? Claro que sim. Bastava desenhar políticas públicas para combater o vírus e a pobreza. Nada disso foi feito. Não houve aporte suficiente de recursos ao Sistema Único de Saúde (SUS), não compramos vacinas quando deveríamos, não elaboramos um programa de proteção social de longo prazo (o robusto auxílio de 2020 foi um espasmo).

“Não podemos gastar, o Estado quebrou!” A Guedes o que é de Guedes. A história vai colocar o ministro da economia do governo Bolsonaro em uma macabra nota de rodapé: “o ministro da economia insistiu que não dava para gastar e combater a fome e a miséria no país. Dizia-se liberal e elogiava o Chile de Pinochet”.

Os dados do desastre

A pesquisa nacional “A Cara da Democracia”, realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, mostra o desastre social que nos atinge. A pesquisa foi a campo entre 20 e 27 de abril, contou com 2031 entrevistados e possui margem de erro de 2,2 pontos percentuais.

Perguntados sobre a situação econômica pessoal, 69% dos entrevistados afirmaram que vivem pior agora do que há um ano, e 31% declararam ter perdido o emprego na pandemia. 57% disseram estar gastando menos com saúde e 51%, com educação. Não há dúvidas que vamos demorar a nos recuperar.

Como sempre, a crise social não afeta igualmente a todos. Entre os mais pobres, com renda familiar mensal de até dois salários mínimos, a percepção de deterioração da situação econômica pessoal atingiu 75% dos entrevistados. Entre os mais ricos, com renda familiar mensal acima de dez salários mínimos, a porcentagem foi de 61%.

O mercado de trabalho também não foi afetado de maneira linear. Enquanto 9% dos entrevistados mais ricos perderam seus empregos durante a pandemia, entre os mais pobres a porcentagem foi de 39%.

Os números confirmam o que vemos nos hospitais e nas ruas. Para além de serem desproporcionalmente mais atingidos pela pandemia, os mais pobres são os que mais sofrem com a crise social.

Consequências políticas

Em ótimo texto publicado em março na revista Piauí, os cientistas políticos Daniela Campello e Cesar Zucco sugeriram que o governo cavava sua própria cova política ao ser incapaz de enfrentar a crise social. Nossos dados vão no mesmo sentido.

Em pergunta estimulada sobre a intenção de voto caso as eleições presidenciais fossem agora, 21% dos entrevistados declararam que votariam pela reeleição de Bolsonaro. Entre os mais pobres (cerca de 40% do eleitorado), 15% pretendiam votar no capitão reformado. Apenas para efeito de comparação, entre os mais ricos (entre 5% e 10% do eleitorado), 29% disseram que seguiriam com o presidente.

A avaliação do governo segue o mesmo caminho. A administração Bolsonaro foi considerada como “ótima” ou “boa” por 23% dos brasileiros. No conjunto dos que têm renda familiar de até dois salários mínimos, a aprovação foi de 17%.

A ciência política mostra que presidentes à frente de governos com esse nível de aprovação dificilmente conseguem se reeleger. Sem uma forte retomada da economia nos próximos meses (algo cada vez mais improvável) e sem um eficiente programa de proteção social, o cenário político será muito desfavorável a Jair Bolsonaro em 2022. Resta saber se o país aguenta até lá.

*Oswaldo E. do Amaral é professor de Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da mesma instituição.


Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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