Poderes batem em retirada, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Assim Bolsonaro ilude sua plateia: criando-lhe uma ficção que, para ser plausível, vai ao encontro dos anseios e dos valores dos ouvintes. Espalha boas notícias – falsas! – e exibe rompantes performáticos. 

Foto O Globo

Poderes batem em retirada

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Cão que ladra não morde. Ciclistas sabem disso. Quem se locomove de bicicleta está habituado a ser diariamente perseguido por matilhas raivosas esbravejantes. Quem pedala sabe também que, se parar a bicicleta, os cães não só cessam de latir, como recuam, receosos. Cães são covardes: só latem, rosnam e perseguem porque julgam que a reação é improvável. A premissa básica de todo valentão.  

Acabo de almoçar num destes restaurantes populares que servem PFs no centro da cidade. Adentrando o recinto, escuto o seguinte fórum bolsonarista entre os comensais: 

__ Eu não gostava dele não, achava que não ia fazer nada. Agora tô vendo um monte de obras que tava tudo parado. Depois dessa doença aí, quando a gente voltar, vocês vão ver, vai estar tudo pronto aí.

__ Ele é peitudo, ele é peitudo. Você viu ele falando pros deputado, né?

Naturalmente, os homens se referiam, respectivamente, às manjadas fake news sobre rodovias pavimentadas que circulam na cracolândia digital e às últimas manifestações antidemocráticas nas quais o presidente encoraja seus apoiadores à insurreição contra os demais poderes da república e a aventuras autoritárias. 

Assim Bolsonaro ilude sua plateia: criando-lhe uma ficção que, para ser plausível, vai ao encontro dos anseios e dos valores dos ouvintes. Espalha boas notícias – falsas! – e exibe rompantes performáticos. 

As demonstrações de agressividade, midiáticas e estratégicas, que lhe rendem o elegante adjetivo de “peitudo”, têm se tornado cada vez mais frequentes e ousadas, sugerindo uma escalada autoritária. E, sem reações à altura da parte dos poderes sob ataque, tendem a se radicalizar ainda mais e a se revelarem mais que meras bravatas. Com os poderes batendo em retirada ao invés de pararem a bicicleta e reagirem, é provável que a matilha patriota lata cada vez mais alto. E passe até mesmo a morder. 

Diante das injúrias, Maia insiste na permissividade conveniente de quem está de acordo com agenda neoliberal de Guedes. Toffoli se apega à conivência de quem confunde exaltação à ditadura com liberdade de expressão, de quem defende o modo como a pandemia vem sendo enfrentada e de quem acolhe a invasão da cruzada empresarial cujos CNPJs estão na UTI. Travestidas de republicanismo, a inação e covardia do legislativo e do judiciário não passam de cumplicidade com o projeto fascista e neoliberal ou mesmo de conformismo com as consequências do golpe de 2016, do qual o bolsonarismo é um efeito colateral. O Estado de Direito pedala em debandada.   

Como parte do espetáculo, o presidente segue latindo e rosnando para os demais poderes. E só o faz porque sabe que eles, ao invés de responder à altura, na lei, tomando as medidas cabíveis e enquadrando-lhe pelos crimes nos quais incorre, seguem pedalando ofegantes até chegar em casa, de onde emitirão uma nota de repúdio. Mas cães não sabem ler.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia.  

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