Se Cristo fosse ministro da Educação o ENEM seria adiado na pandemia?, por Alexandre Filordi 

A manutenção do ENEM, no mês de janeiro, é um descalabro, bem como um acinte às 206.009 vítimas da pandemia.

Matthias Grünewald, [1515], Crucificação

Se Cristo fosse ministro da Educação o ENEM seria adiado na pandemia?

por Alexandre Filordi 

O Ministério da Educação insiste em realizar o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, nos domingos próximos: dias 17 e 24. A pasta recusou-se dogmaticamente a dialogar com entidades estudantis, como a UNE, a UBES, além de organizações científicas como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com um intuito de se vislumbrar outras possibilidades.

A manutenção do ENEM, no mês de janeiro, é um descalabro, bem como um acinte às 206.009 vítimas da pandemia. Não nos esqueçamos: ainda colhemos um surto colossal de Covid-19, devido às festas do fim de ano, e a fatura ainda nem está fechada; 21 estados estão à beira da lotação completa de suas UTIs, segundo a Fiocruz; no Amazonas falta inclusive oxigênio hospitalar; não há previsão inteligível para a execução da vacinação em ampla cobertura, aliás, hoje ficamos sabendo da informação, dada pelo ministro da Saúde ao STF, que sequer há seringas o suficiente em toda a Federação. Cidades mais bem estruturadas talvez consigam realizar a vacinação quando for possível. Mas o Brasil é um país de condições desiguais.

Segundo informações do Worldmeters, o Brasil é um dos piores países da América Latina na testagem do Covid-19 por milhão de habitantes. Exemplo: Chile detém a proporção de 365.678 testes por milhão de habitantes; no Uruguai são 207.424, na Colômbia, 172.510 testes. O Brasil contabiliza, para os seus 213.370.212 habitantes,  apenas 134.039 testes por milhão de habitantes (https://www.worldometers.info/coronavirus/).

Ora, testagem baixa é um passe livre à circulação do vírus, uma vez que muitas pessoas podem estar infectadas e, sem saberem da contaminação, acabam propagando a doença por aí.

Quando se reúnem mais de 5 milhões de estudantes para se realizar o ENEM, que demanda pessoas para cuidar de sua aplicação e de sua logística, que precisarão de transporte público, o que a sensatez diria? Minimante: esperemos a vacinação para a realização do ENEM. Assim, o ENEM poderia também ser feito na hora H e no dia D, acompanhando o cronograma à Nostradamus do governo para a vacinação. Ou ainda, O MEC poderia ter pensado em programa de testagem gratuita e obrigatória para todos os envolvidos no ENEM – dos estudantes a todo pessoal demandado – mitigando, assim, a exposição de possíveis indivíduos contaminados. Nada disso, porém.

Argumentar que adiar o exame, como sugere o MEC, causam impacto econômico e implicações para o calendário acadêmico, embora verdadeiro, é absurdo e desumano. De um lado, porque computa por cifrões o que não possui valor contábil: a vida. No caso, em sua maioria, a vida de uma geração inteira de estudantes. De outro lado, porque o calendário académico escolar e universitário já está alterado e continuará se alterando, em virtude dos descasos tupiniquins com um lockdown eficiente, como fazem agora Reino Unido e Alemanha,  e com uma campanha de vacinação delineada com eficiência. Ademais, ignora-se por completo que os tempos demandam exceções cautelares.

A essa altura é preciso lembrar que o ministro da Educação é um pastor presbiteriano, portanto, cristão. Por ser cristão, e ainda mais pastor, não deveríamos ver aí o testemunho empírico dos ensinamentos de Cristo?

Para os cristãos, sob a graça divina, Cristo inaugurou uma nova aliança com Deus, o tal Novo Testamento. Onde a velha aliança – o Velho Testamento – dizia: ame teu próximo, Cristo acrescentava: ame também aos seus inimigos; no lugar de se apedrejar a adúltera como o Velho Testamento previa, Cristo propunha: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra. Não é sem razão que o Evangelho de São João vai sistematizar toda essa nova aliança numa ideia: Deus é amor, sendo Cristo a encarnação desse amor. No cristianismo, por amor e graça, é Cristo quem se sacrifica para dar prova de seu amor a quem nele crê, e não o contrário. No mesmo Evangelho, aprende-se que o bom pastor dá a vida para salvar suas ovelhas.

Já sabemos que a razão não foi e nem é capaz de trazer chão de sensatez para o MEC. A julgar pelos tempos de inversão de valores, talvez nem os ensinamentos de Cristo o faça. Mas valeria a especulação: se Cristo fosse ministro da Educação o ENEM seria adiado na pandemia?

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