Solidariedade e genocídio, por Paulo Fernandes Silveira

O auxílio emergencial aprovado pelo congresso e sancionado pelo governo federal é absolutamente essencial! De todo modo, vivemos numa sociedade que costuma cultuar a solidariedade e a extrema brutalidade.

(Imagem do genocídio tutsi em Ruanda).

Solidariedade e genocídio

por Paulo Fernandes Silveira

“O mínimo que se pensava, sobre aquele ‘tipo de gente’, é que éramos ‘ladrões’ ou ‘imprestáveis’!”. Florestan Fernandes (em 2020, o sociólogo faria 100 anos).

As primeiras semanas de confinamento provocado pela pandemia trouxeram ótimas notícias sobre a solidariedade dos brasileiros. Além da imprensa livre e combativa, como o Jornal GGN, os Jornalistas Livres e a Ponte Jornalismo, a grande imprensa tem destacado as ações dos governos, das prefeituras, das igrejas, das ONGs e dos cidadãos em geral para minimizar a precariedade da população mais vulnerável. Somente após quinze dias de confinamento, congresso e planalto decidiram os termos da primeira ação efetiva no âmbito federal: um auxílio emergencial entre 600 e 1200 reais a trabalhadores sem carteira assinada.

A princípio, esse auxílio estaria restrito aos trabalhadores que já estivessem inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, como o Bolsa Família. Pressionado pela imprensa, o governo anunciou que outros trabalhadores ainda poderiam se cadastrar por meio de um aplicativo.

Até o momento, a opinião pública parece respaldar as ações de solidariedade e as medidas estatais com relação às pessoas pobres que perderam suas condições mínimas de sobrevivência. Por outro lado, o atual governo representa uma parcela da população que se opõe radicalmente aos programas sociais conquistados nas últimas décadas.

Aqueles que criticam o Bolsa Família desconhecem ou fingem desconhecer os valores transferidos pelo governo às famílias mais pobres. O valor fixo do benefício básico é de R$ 89,00 mensais. As famílias com um ou mais adolescentes entre 16 e 17 anos de idade podem receber um acréscimo de até R$ 96,00 mensais.

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A campanha presidencial do atual governo aliou a intensa campanha contra corrupção da Lava Jato à campanha contra o “coitadismo” que estaria por trás das políticas públicas e programas sociais. Em algumas narrativas, os políticos corruptos e suas famílias aparecem como beneficiados dos R$ 89,00 mensais do Bolsa Família, em outras narrativas, pobres malandros e preguiçosos figuram como responsáveis por uma crise econômica originada com esses programas sociais. Como bem e belamente analisa o historiador Sidney Chalhoub (1996), fazemos parte de uma cultura que há mais de um século associa as classes pobres à bandidagem e à vadiagem.

Em meio aos panelaços que incentivaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff, começaram as agressões às intelectuais que estudam e defendem os programas sociais, entre eles, os ataques verbais à socióloga Walquiria Leão Rego, uma das autoras do livro As vozes do bolsa família.

O auxílio emergencial aprovado pelo congresso e sancionado pelo governo federal é absolutamente essencial! De todo modo, vivemos numa sociedade que costuma cultuar a solidariedade e a extrema brutalidade. É preciso que o estado garanta a segurança da população mais vulnerável! Numa situação de crise econômica, lideranças políticas promoveram o genocídio tutsi em Ruanda, fazendo com que uma parte da população estuprasse e assassinasse a outra. Algo semelhante pode acontecer no Brasil.

Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP – Direitos Humanos)

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