Transplante de Medula: mais uma nota de desabastecimento, por Annick Beaugrand

Hoje o transplante de medula pode parar no Brasil. E amanhã? O que mais pode parar?

da ABMMD

Transplante de Medula: mais uma nota de desabastecimento, por Annick Beaugrand

Juramos, diariamente, no oficio da atividade assistencial, jamais prejudicar o enfermo e lutar contra o que está provocando a enfermidade.

Mas a palavra Bussulfano vem assombrando médicos e pacientes envolvidos com o transplante de medula óssea. Em novembro do ano passado, o laboratório francês Pierre Fabre, único distribuidor do medicamento no Brasil, anunciou término de sua distribuição e o INCA (Instituto Nacional do Câncer) mantém uma reserva de estoque que pode durar por até três meses.

Dr Claudio Galvão, atual presente da SOBOPE (Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica) lembra que não é a primeira vez que nos deparamos com uma situação como esta, de desabastecimento de fármacos essenciais à hematologia. Em um momento com tantos desafios, principalmente na saúde, seguimos esperando.

Nenhuma novidade: anualmente são cerca de cinco mil pessoas que esperam poder realizar um transplante de medula óssea (TMO). Em 2019 foram realizados 4.805 transplantes de medula óssea em adultos e 534 pediátricos.

Na ausência do bussulfano ou alguma alternativa viável, a maioria destes procedimentos não será realizada. Um prognóstico sombrio está a nossa espreita. O bussulfano é uma droga usada no condicionamento de um TMO, ao destruir a medula óssea original do paciente, possibilita receber a medula do doador.

O TMO é uma realidade no Brasil há mais de 40 anos, indicado para doenças como leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, neuroblastoma, imunodeficiências, falências medulares.

Numa dança das cadeiras, enfrentamos novamente o desabastecimento, sem nenhuma proposição substitutiva. Apesar do juramento de não causar dano para o paciente, vivenciamos um dilema existencial: como não oferecer um tratamento curativo e passar a sugerir medidas paliativas? Não por falta de capacidade, de competência ou de estrutura, mas por não ter disponibilidade da droga no Brasil.

As normativas que regulamentam devem ser revistas urgentemente não apenas quanto ao registro de fármacos, mas na decisão por descontinuá-los também, como enfatizam Dr. Claudio e Dr. Nelson Hamerschlak.

Hoje o transplante de medula pode parar no Brasil. E amanhã? O que mais pode parar?

No dia 13 de janeiro de 2021, a associação brasileira de hematologia, hemoterapia e terapia celular  (ABHH) divulgou que em atuação conjunta com o conselho nacional dos secretários municipais de saúde que mobilizaram ministério e Fabricante e garantiram manutenção do fornecimento do Bussulfano. Mas sem precisão por quanto tempo será essa manutenção.

Vamos esperar. Mais espera…

E como fazer esperar aqueles que muitas vezes não têm mais tempo de aguardar?

Annick Beaugrand é Onco-Hematologista do Hospital da Liga Norte Riograndense contra o câncer e professora do Departamento de Pediatria da UFRN

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