A infelicidade de uma Nação, por Rui Daher

A infelicidade de uma Nação, por Rui Daher

Em CartaCapital, este texto teve como título “A Agricultura familiar sob ataque”. Verdade anunciada por mim repetidamente. Se nunca favorecida no ponto certo, no governo inconstitucional, dentro do setor agropecuário, será a mais prejudicada. Antes, desde 2003, era necessário dar a ela uma capa de prioridade. Não foi, mas andou melhor. Hoje em dia, vivemos desgraças políticas, econômicas, sociais e culturais.Tornamo-nos uma sequência cotidiana de mediocridades bárbaras, difíceis de acreditar. Os mais conscientes babam exasperação e agem com incredulidade.

Tendemos a acreditar numa irreversibilidade pouco negada pela História do Brasil. Sim, houve a ditadura militar. Dela, hoje, só não chegamos às torturas e assassinatos. No mais, engolimos o pior. Perderemos décadas irrecuperáveis, inclusive na agropecuária, setor que, sendo o que temos para hoje, deveria ser visto com amor, carinho, paz e Jesus Cristo, como querem Roberto e Erasmo Carlos. 

Dou um tempo nas colunas citando as ameaças internas e externas a cada dia mais próximas dos alegres produtores de grãos. Pensaram que o golpe faria melhorar a economia, e ó. Não quero praguejar o setor com que trabalho e acho o mais evidente sustento do País. Aos níveis menos acariciados, como a agricultura familiar, opinei que iria piorar com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e a redução de recursos.

A agropecuária chia contra o atrelamento das taxas de juros do crédito rural à Selic e pede para que o governo alivie a cobrança do Funrural, cerca de 80 bilhões de reais devidos ao erário público.

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Embora comum depois da colheita, caem significativamente os preços da soja e também do milho ainda a colher. 

Seria indelicado perguntar há quantos meses escrevi isso? 

Não deixo de lado o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (ou deixo? Nunca me sentaria à mesa para jantar com senhor tão lesivo ao País). Ele pretende liberar a venda indiscriminada de terras a estrangeiros. 

Senhores agropecuaristas, essas terras são suas, mas estão no País. Já as tive, hoje não as tenho mais. De que adiantaria, então, escrever sobre futuro, soberania e riqueza se vocês pouco ligam para isso? Melhor um “Cê que Sabe”, denominação comum a motéis Brasil afora. 

“Sustainable”

É um documentário de Matt Wechsler e Annie Speicher, EUA, 2016. Tem no YouTube. Quem o indica é a leitora de meu blog no GGNCristiane Vieira, junto a comentário importante sobre texto criticando a Operação Carne Fraca

Exímia percepção com a lupa, ela aponta: 

“Um dos entraves para o desenvolvimento sustentável no campo, no Brasil e no mundo, é, também, a falta de informação do público em geral sobre o que acontece nessa região, o que favorece a ação latifundiária e financista dos ruralistas e que a discussão sobre os rumos da política agrário-agrícola e seus impactos social e econômico fique restrita a especialistas ou interessados”.

A verdade, Cristiane, é que na Federação de Corporações pouca bola se dá à complementaridade da produção agrária e ao resultado nos alimentos e fibras que chegam aos consumidores.

Deveria haver aí uma ação integrada que partisse das mais variadas formas de cultivos e manejos vegetais ou animais, sem a conotação mecanicista atual. É fundamental estender a discussão entre caboclos, campesinos, sertanejos e ruralistas à população em geral que não apenas consome suas produções, mas também a qualidade delas.

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Essas interações sociais compreendem os agentes produtores, mercantis e prestadores de serviços em suas política e economia rurais, passando por ações e aceitações para preservação ambiental, proteção da biodiversidade e recomposição do valor do trabalho no campo.

Isso sim seria Sustainable.    

Volto ao texto de Cristiane:

“Sinto falta de acesso (…) sobre nossa realidade e o que as pessoas do MST, da Embrapa, das faculdades públicas de agronomia e ciências da terra e ambientais, os agricultores familiares, as cooperativas, andam produzindo como realidade e retrato em documentários ou registros diversos (…) entender por que se retirou a versão diária matutina do outrora excelente programa apesar do nome autorreferente, Globo Rural, e lançou campanhas de popularização do agronegócio em horários nobres? Ou por que o IBGE resolveu cortar exatamente as questões que tratam da agricultura familiar no polêmico Censo Agropecuário 2017”.

Posso responder? Pois é, caminhamos da burrice à sacanagem informativa. Grande parte da economia mundial está se estabelecendo em oligopólios-patrocinadores. Trata-se de um “viver da fé, só não se sabe fé em quê”, espalhado pelas folhas e telas cotidianas dedicadas a noticiarem desastres pontuais, sem perceberem a que ponto chegamos no esgarçamento do tecido social e de seus aparelhos de proteção ambiental em países hegemônicos ou não.

Mais de Cristiane:

 “(…) O futuro depende do campo, das florestas, dos sistemas naturais de produção e conservação, para sobrevivência e geração de emprego e renda, e se nós que estamos exilados nas regiões urbanas não formos educados e informados para esta realidade, continuaremos reféns dos que transformam e reduzem a vida, literalmente, a negócios para poucos”.

Eu assino embaixo. Vocês não?

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5 comentários

  1. Assino também. E seguimos

    Assino também. E seguimos nos, como gado, mal-informados pelos meio de comunicação e pela falta de protagonismo dos mais interessados em que a agricultura tenha mais destaque no cotidiano de toda sociedade, de que esta é questão crucial para o desenvolvimento social e meio-ambiente.

    E as abelhas, continuam sendo extintas?

  2. Ataque à agricultura familiar

    Ataque à agricultura familiar uma das causas da fome no mundo.

    Embora a produção agrícola seja suficiente para alimentar quase o dobro da população mundial, mas de 850 milhões de pessoas passam fome no mundo causando a morte por fome – a cada 5 segundos – de uma criança de zero a 10 anos.

    Uma das consequências especulativas na Bolsa de Mercadorias e de Futuro é a destruição da agricultura familiar e de sobrevivência, arrastando milhares de pessoas aos grande centros urbanos.

    Para saber mais, ler CAPARRÓS, Martín em exaustivo livro “A Fome” e, ainda, ZIEGLER, Jean (ex-relator especial da ONU para o Direito à Alimentação) no também obrigatório livro “Destruição em massa, geopolítica da fome”.

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