Agronegócios não são apenas ruralistas, longe disso, por Rui Daher

Agronegócios não são apenas ruralistas, longe disso

por Rui Daher

Não creio que muitos leitores conheçam Colniza, no estado do Mato Grosso, a 1.065 km de Cuiabá. Nem eu. Em longínquas Andanças Capitais estive perto para visitar povoados indígenas agrícolas em Aripuanã, cidade maior, distante 100 km, de que Colniza foi desmembrada para se tornar município, em 1998.

Hoje é habitada por cerca de 30 mil pessoas. Já foi considerado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos, o município mais violento do País. Na década de 1980, integrou projeto para povoar a Amazônia, levando para lá colonos da região Sul.

Deu no que está dando. Inviabilizados os garimpos no início da década de 1990, passou-se ao desemprego e à procura de terras para agricultura e pecuária incipientes e extração de madeira ilegal. A partir de 1994, a criação de assentamentos estabeleceu novo fluxo migratório, desta vez proveniente de Rondônia. Sobraram poucas indústrias madeireiras, comércio, mineração, turismo e áreas de preservação permanente, frequentemente, usadas para extrativismo. Nos assassinados da semana passada, a maioria era de pessoas nascidas em Rondônia. Mais não precisaria dizer.

Bastará aos leitores pesquisarem um mapa ampliado do Estado para notar que na região convivem municípios cercados de centenas de aldeias indígenas e de glebas de assentados. Japuíra, Serra Morena, Pio, Paraicida, Zará, Roosevelt, Sete de Setembro, Igarapé Lourdes, etc.

Vivem do que podem e esperam chegarem fazendeiros e jagunços para perderem vida ou sustento.

Essas últimas, ironicamente, ocorreram no dia 19 de abril, Dia o Índio. Mais certo seria no Dia de São Expedito, das causas urgentes, ou de São Judas Tadeu, das causas desesperadas. Resultaram pelo menos nove mortes, vários feridos e muitos desaparecidos. São agricultores pobres, desprotegidos, e que sofrem frequentes tortura e cárcere privado.

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Segundo a polícia, já foram identificados quatro homens responsáveis pela matança. Os detalhes sobre o estado dos corpos são escabrosos.

O futuro só pode piorar. Segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra) “investigações policiais feitas nos últimos anos apontaram que os gerentes das fazendas da região comandavam uma rede capangas, altamente armados, que usam o terror para expulsar os pequenos produtores da área”.

Na semana passada, escrevi sobre o documentário “Martírio”, de Vincent Carelli, que relata o sofrimento dos índios Guarani Kaiowá.

Hoje lembro-me de outro filme. Nada dramático. “A Rosa Púrpura do Cairo”, de 1985, dirigido por Woody Allen. Nele, Mia Farrow, desiludida com o casamento, sonha nas salas de cinema com galãs plenos de virtudes. Até que um deles sai da tela e passa a viver um romance real com ela.

“Martírio” saiu da tela na semana passada para nos mostrar o cotidiano sangrento da ação ruralista pelos campos brasileiros.

E chega, por favor, de confundirem ruralistas, representados em bancadas, associações, federações, corporações e ministros da Justiça bundões, com o agronegócio. Este, como atividade econômica, tal qual outras produtivas e mercantis podem matar por acidentes de trabalho. Os ruralistas matam através de leis, ações violentas, mentiras e roubos qualificados.

No Brasil, por tudo pode-se matar. Poluição, futebol, trânsito, tráfico de drogas, cuspe na cara. Afinal, foram aqui registrados 60 mil assassinatos, em 2016.

Troquem suas incriminações de “os agronegócios matam para os ruralistas matam”.

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2 comentários

  1. “Troquem suas incriminações

    “Troquem suas incriminações de “os agronegócios matam para os ruralistas matam”.”

    Generalidades somente são vantagens para os criminosos. Muito boa colocação, Rui!

    Sobre índios, é de pouco se esperar se a cultura criada desde o início da invasão europeia é a do extermínio; de “limpeza” étnica.

     

    O capitão Pedro Vas de Barros (História heróica, claro!) https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Vaz_de_Barros

  2. agronegócios….

    Eu conheço Colniza. Fica a 1065 Km do Brasil. Como se ficar no Brasil fosse alguma vantagem. A 500 Km de Cuiabá, Judas perdeu as botas. A 700 Km de Cuiabá, o vento faz a curva e retorna. A 900 Km de Cuiabá, o mundo acaba e se cai num precipicio. Vocês ainda acreditam que o Mundo é redondo? Nunca foram a Colniza. 300 Km depois do fim do Mundo. Fica a mais de 1000 Km de outro lugarejo em Rondônia onde um amigo meu foi morar com a mulher e 5 filhas. Depois de ser peão de fábrica em Guarulhos, vindo do PR. Ou RS, como todos de Colniza. Ah! Estes Latifundiários do Agronegócio querendo destruir a Amazônia, seus indios e a Humanidade!!!. Humanidade loira de olhos azuis que desce em Tabatinga, em Aeroporto Internacional, para conhecerem a “sua” Amazônia. Aquela que 90% dos brasileiros não conhecem e nunca conhecerão. Estes mesmos brasileiros atrasados, que só querem destruir o Paraíso, que pode ser apreciado em Hotel 5 Estrelas e ar condicionado de Rede Internacional. Reservas em NY ou Londres, por favor. Mas lembramos que existem brasileiros lá? Largados, abandonados em Terra de Ninguém. Chacina foi o motivo? Então SP não sairia do noticiário. Mas aqui, Willian e Renata informam o ocorrido, por não ter como esconder e depois fakam Festival das Cerejeiras em Tóquio, para não queimar as chances presidenciais de Picolé de Chuchu. Até porque Picolé queimado?!  Mal informados, desinformados, ignorantes, doutrinados preconceituosamente por ideologias não sabemos nem o que é nosso país. O problema é a opinião dos brasileiros? Muito pior é a falta de informação que é fornecida aos brasileiros. Raras e excepcionais exceções, não ficarei aqui puxando o saco. Basta lembrar que o paulistano, como eu,  que adora as tendências do momernto, como ambientalismo, preservação, ongs estrangeiras, ecologias de shopping center, quando vai a Curitiba de carro pela BR 116, não para nem em Registro, a 100 Km da cidade de São Paulo  Por que só tem mato e mosquitos. E não pega o celular. E querem falar de agronegócio, violência e Amazônia?! Vão plantar banana !!! Ou parem em Registro ou outro lugar qualquer do Vale do Ribeira que lá existem em abundância.  abs.

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