Nosso agronegócio é sustentável?, por Rui Daher

Nosso agronegócio é sustentável?

por Rui Daher

em CartaCapital

Alguém no Facebook: “a agricultura nunca será sustentável, pois na hora em que os alimentos se tornam mercadorias que usam os recursos naturais deixam de ser sustentáveis”. Ops, pré-história ou extermínio?

Já mencionei a barafunda que hoje se faz com o termo sustentabilidade. Virou carne de vaca fraca, quase de joelhos. O tema, quando corretamente abordado, sem vieses políticos ou comerciais, é de extrema importância.

A Folha de São Paulo pensa que tem dois colunistas de agronegócios, Ronaldo Caiado e Marcos Sawaya Jank. Tem apenas um. O primeiro é um político de péssima cepa que nunca tratou do tema desde a sua estreia.

Marcos, sim, é um especialista equilibrado. Muito mais jovem do que eu, lembro, há mais de 20 anos, tê-lo contratado para uma série de palestras à equipe de vendas de uma empresa de fertilizantes em que eu trabalhava.

Na sua coluna de 29/04/22017, “Erros grosseiros no Índice de Sustentabilidade de Alimentos”, ranking de 25 países divulgado pela unidade de inteligência da britânica The Economist, calculado em base a critérios que levam em conta desde perdas e desperdício de alimentos, até agricultura sustentável, passando por saúde e nutrição, o Brasil foi colocado nas últimas posições (20º).

É o que Marcos contesta: “Fomos puxados para baixo por indicadores conceitualmente equivocados ou de mensuração altamente questionável”.

Em alguns pontos terá razão, noutros não. Onde acho que erra? Quando segue linha frequente e conveniente aos líderes do agronegócio, confederações e federações da agropecuária, associações de classe dos fabricantes de agroquímicos e a bancada ruralista no Congresso, que usaram os mesmos argumentos para fazer passar o novo Código Florestal.

Sigamos:

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MJ: “Fomos punidos pelo uso elevado de fertilizantes e agroquímicos. Ora, corrigir e adubar solos e combater pragas e doenças deveria dar nota alta, e não baixa, principalmente em zona tropical, onde se plantam duas safras por ano”;

Verdade, mas foi merecida a nota baixa devido aos usos excessivos, desnecessários, forçados nas doses pelos fabricantes concentrados em grandes complexos multinacionais, com poder de divulgação massiva e, muitas vezes, mentirosa. A pesquisa hoje reconhece a quantidade de nutrientes retida no solo, indisponíveis, e as várias opções orgânicas, naturais e minerais que podem reduzir as aplicações químicas e manter a produtividade das lavouras, reduzindo o custo por hectare. O mesmo vale para pragas e doenças. Agrotóxicos podem ser eliminados ou, pelo menos, reduzidos com o uso de controladores biológicos.

Num caso e noutro o bolso do agricultor agradeceria e a EIU (Economist Intelligence Unit) seria mais condescendente com o Brasil.

MJ: “(…) seriam sustentáveis os países que têm maior área relativa ocupada com produção orgânica. O contrassenso é evidente: como a produtividade da agricultura orgânica é notoriamente menor do que a da agricultura convencional, ela fatalmente acabará demandando maiores extensões de terra, leia-se desmatamento adicional, além do impacto do maior custo do alimento final”.

Sim, mas não. Primeiro: experimentos que comparam vantagens dos tratamentos convencionais em relação aos orgânicos não as mostram assim tão “notórias”. Segundo: a expansão de áreas de plantio, no Brasil, não deveria implicar desmatamento, dada a disponibilidade de espaços agricultáveis. São suficientes para décadas de exploração e, concomitante, proporcionaria tempo para desenvolvimento de inovações tecnológicas de menores custos e impacto ambiental.

Não foi a preocupação com a sustentabilidade que fez nossa agricultura economizar área através da produtividade, mas o bolso dos produtores. Novas fronteiras são distantes, mal servidas pela logística, e de condições edafoclimáticas duvidosas. Daí os altos riscos e investimento para expandir áreas. Considere-se ainda a especulação imobiliária primitiva. 

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No mesmo tema:

MJ: “(…) não aparece nenhuma referência ao percentual da área de cada país preservada com florestas, onde somos campeões mundiais”.

Ora, ora. Sabemos que os demais países já terminaram a obra que nunca deveria ter começado aqui. Se o que temos devemos aos portugueses, lembremos que, campeões mundiais de área preservada com florestas, mas também em desmatamento.

Acerta Marcos Jank, no entanto, nos seguintes pontos: a) o absurdo de considerarem a agricultura brasileira como protecionista e altamente subsidiada; b) o uso não diversificado de nossas terras; c) negar como benéficas as produções de rações animais e biocombustíveis; d) o fator nutrição e saúde ser avaliado pela população do país dividida pelo número total de restaurantes das cadeias McDonald’s, KFC e Burger King.

Suas críticas mais se fortalecem quando aponta uma das principais empresas que vendem carboidratos no mundo, líder mundial em macarrão, como patrocinadora da avaliação, a Barilla. Trigo não é o nosso forte.

Deixo apenas uma lembrança singela. A mesma desconfiança vale para estudos e pesquisas que garantem sustentabilidade aos agroquímicos quando patrocinados por Syngenta, Monsanto, Bayer, Basf, Dow/Dupont, enfim, os membros da Associação Nacional de Defesa Vegetal, ANDEF. 

 

 

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13 comentários

  1. Na mosca

    E os megaprodutores, principalmente no Centro Oeste, por mais endinheirados, não se conscientizam disso, pois vivem lobotomizados pelas notícias da grande mídia e sujeitos às abordagens propagandísticas e patrocineiras de eventos das multis do setor.

    Daí a importância da divulgação dessas ideias, com políticas públicas que deem viabilidadde de uso a essas alternativas biologicamente sustentáveis. E isso, somente organismos estatais podem fazer, a exemplo do que a Embrapa fez no cerrado com a adaptação do plantio de grãos em larga escala a partir dos anos 1970.

    • Elias,

      vivo essa situação na prática. São os mais cabeçudos da agricultura nacional, além de politicamente ignorantes. Há dez anos, a situação de preços os favorece. O dia em que isso virar e não puderem mais esbanjar com o absurdo que as multinacionais cobram seus insumos, sairão correndo pedindo benesses do Tesouro Nacional.

      Abraços

  2. Agronegócio

    Em minha opinião, para saber se qualquer Agronegócio, empresarial ou  familiar, brasileiro ou estrangeiro, é sustentável ou não teria que se contabilizar em seus custos de produção sua pegada ecológica, ou seja, os custos gerados pela necessidade de repor os recursos naturais consumidos e sua decorrente degradação ambiental. Arriscaria dizer que a maioria dos agronegócios empresariais não são sustentáveis ao inverso dos familiares.

    Dentro desse assunto aproveito para chamar atenção sobre a inconsequência de um recente comercial de uma certa pick-up da Chevrolet. 

  3. Em minha opinião, para saber

    Em minha opinião, para saber se qualquer Agronegócio, empresarial ou  familiar, brasileiro ou estrangeiro, é sustentável ou não teria que se contabilizar em seus custos de produção sua pegada ecológica, ou seja, os custos gerados pela necessidade de repor os recursos naturais consumidos e sua decorrente degradação ambiental. Arriscaria dizer que a maioria dos agronegócios empresariais não são sustentáveis ao inverso dos familiares.

    Dentro desse assunto aproveito para chamar atenção sobre a inconsequência de um recente comercial de uma certa pick-up da Chevrolet. 

  4. Pergunta de um amador…..

    Estando fora da patria amada a mais de 2 decadas, adotei usos e costumes de “alem mar”…..um desses costumes que adotei é ter uma “hortinha” no terreno, algo de pequeno e simples, mas que me abastece de legumes, verduras e frutas(tenho algumas arvores frutiferas) 100% sem fertilizante quimico nem agrotoxico….so esterco e materal de compostagem…..aqui na minha região um pouco antes da primavera,começa  o movimento de tratores carregados de esterco……….para um particular não profissional como eu, chega custar 10 euros um saco de esterco de 20 quilos….no Brasil com a quantidade imensa de vaca, galinhas e outros animais, não se usa mais o esterco??????Uma pergunta provavelmente idiota, mas sou amador…..

  5. nosso….

    Caro sr. Rui, fui ver uma fazenda de 1.000 alqueires no Ribeira. 90% só mato. Andei o dia inteiro a cavalo e não vi quase nada. Pouco mais de 100 Km da cidade de São Paulo. Só 1.0000 alqueires e dentro da maior cidade das Américas. 2/3 do Brasil é só mato e estamos falando em desmatamento? É brincadeira?! Este papo só interessa aos nosso concorrentes e países com olho gordo em nosso território. Tem que desmatar muito ainda. E preservar muito também. Começando pelas cidades. Começando pelo rios, onde defecamos e depois retiramos a água para beber. Preservar nas milhares de cidades como citada a alguns dias, Petrolina, todas com Secretária do Meio Ambiente, mas sem duas árvores nem para colocar o carro embaixo.  Tem que preservar onde os brasileiros estão. Nas cidades. Verdadeiros donos do país e do seu meio ambiente. Mas isto interessa aos interesses estrangeiros? Ongs estrangeiras? Empresas estrangeiras? Interessa nada !!! Precisamos preservar para o brasileiro conhecer o que é seu. A maioria morrerá sem conhecer a Amazônia ou o Pantanal. Passeio de Escolas do Ensino Secundário de países industrializados. E não ficamos horrorizados?!  No estado mais rico da federação, as crianças não conhecem a Juréia, Ilha do Cardoso, Fazenda InterVales, espetáculo da Mata Atlântica a duas horas das suas casas. E também poder constatar que a agropecuária não é inimiga e sim amiga do meio ambiente. Maior fator de preservação no território brasileiro. Poderão ver como os milhares de alqueires de banana, palmito, chá preto, inhame e gengibre ou as extensivas criações de bufalos ajudam a preservar esta parte do estado de São Paulo. Por sinal a mais preservada. abs. 

    • Taí, Zé Sérgio

      viajando muito, não tinha lido seu comentário. Concordo. Seus argumentos são os meus e suas críticas construtivas. Assim fica mais equilibrado e não preciso de um especialista em xadrez para te entender.

      Abraços

  6. “dada a disponibilidade de espaços agricultáveis.. .”

    No momento, não há espaço nem no Brasil, nem no mundo para uma agricultura orgânica de grãos, 100% autosustentável, mas como diz o próprio texto, ainda temos muito espaço de áreas agricultáveis para usar, temos mais de 10 milhões de ha de pastos degradados. Fim de semana  passada viajei do norte do Paraná até a cidade de Botucatu-SP, e o que vi de pastagem, se não erosão, mas muito mal usada, com mato, grama mato grosso em pleno interior do estado de São Paulo é brincadeira, são os famosos três alqueires e uma vaca, se no estado de São Paulo acontece isso, o que dirá no restante do país.

    • Jofran,

      é exatamente assim em todos os estados por que se anda. Se algo falta e mais faltará na agricultura é gente para trabalhar nela, com apoio técnico e financiamento. Continua grande o deslocamento para os centros urbanos.

      Abraços

  7. + comentários

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