Após renúncia de Evo Morales, Bolívia não consolida saída à insegurança política

O país vive um cenário de insegurança política, com gestos do Congresso de que o presidente que renunciou poderá retornar para o comando a qualquer momento

Foto: Reuters

Jornal GGN – O exílio de Evo Morales no México não acalmou os ânimos para uma transição na Bolívia. O país vive um cenário de insegurança política, com a resistência dos apoiadores de Morales nas ruas, na qual se destaca a cidade de El Alto, e gestos do Congresso de que o presidente que renunciou poderá retornar para o comando a qualquer momento.

A renúncia de Evo Morales, no último domingo (10), foi seguida pela presidente do Senado boliviano, Adriana Salvatierra, a quem competia assumir o comando do país com a saída do dirigente indígena. Assim como o fez Morales, Salvatierra preferiu entregar seu cargo em meio às ameaças das forças opositoras, admitindo que “antes de que liberem militares nas ruas, eu prefiro retirar minha presença ao comando do Estado”.

Por outro lado, os sinais de resistências nas ruas e a atual eleição de outro governista, integrante do partido de Evo, o MAS (Movimento ao Socialismo), no comando da Câmara Baixa do país, voltaram a trazer esperanças de um possível retorno de Morales.

Nesta quarta (13), a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, tentou entrar no Congresso, sem sucesso, sendo detida pelas forças de segurança que bloquearam seu acesso, vivendo momentos de tensão. A tentativa da parlamentar de voltar às atividades foi justificada porque a decisão de renúncia deve ser confirmada oficialmente por sessão do Congresso, o que ainda não ocorreu.

Sem a confirmação de que Salvatierra fosse efetivamente afastada da Presidência do Senado, um dia antes, a vice-presidente da Casa e opositora ao governo de Evo, Jeanine Añez Chavez, havia se auto-proclamado presidente interina da Bolívia. A imagem de Jeanine recebendo a faixa presidencial foi interpretada pelos membros do MAS e por Evo Morales como um “novo atentado de golpe de Estado”.

Essa foi a expressão pelo próprio mandatário renunciado, compartilhada desde seu exílio no México pelas redes sociais. Com o impedimento de ingresso de Adriana Salvatierra à Casa, Morales afirmou que “legisladores do povo foram sido brutalmente reprimidos e impedidos de ingressar à Assembleia”. “O golpe racista e fascista se afunda na ilegalidade”, concluiu Evo.

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Nesta quinta (14), foi a vez da Câmara Baixa apresentar mais um gesto de resistência por parte dos integrantes do MAS no país. Sem opositores presentes na sessão da noite de ontem, o Movimento conseguiu quórum suficiente para eleger Sergio Choque o novo presidente da Casa.

Em seu discurso e com a Casa completa de parlamentares do partido de Evo Morales, Sergio pediu paz e criticou “atos de vandalismo”, solicitando que “as autoridades correspondentes devem realizar as investigações”. “Pedimos à polícia boliviana que pare de nos intimidar, isso não acontece em um período democrático”, afirmou.

A nomeação de Choque ocorreu após a convocatória emitida pela então vice-presidente da Câmara. Ao se dirigir à Casa, os deputados do MAS denunciaram que foram agredidos: “apesar de que fomos agredidos pela polícia boliviana, conseguimos nos reunir, respondendo à convocatória dentro do marco da Constituição e o regulamento da Câmara”, afirmou, ao justificar a legalidade de sua eleição ao posto, com o quórum de 74 deputados presentes, apenas uma deputada de oposição.

A situação vivida nos corredores do Congresso boliviano também repercutiu nas cidades do país. A cidade aymara El Alto, reduto do ex-presidente, demonstrou que segue na luta pelo retorno do líder indígena à Bolívia e afirma que não reconhece o mandato de Janine Áñez.

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El Alto
Nesta quarta, os moradores de El Alto saíram às ruas em resistência – Foto: GETTY IMAGES

Vizinha de La Paz, a cidade em sua maioria formada por indígenas aymara, é o maior reduto eleitoral de Evo Morales e representa a esperança do MAS do retorno do ex-mandatário. Nesta quarta-feira, os moradores da cidade altarenha voltaram às ruas para reivindicar a quem eles consideram ser ainda o presidente do país.

A possibilidade tampouco foi fechada pelo agora renunciado presidente, que desde a Cidade do México, também acendeu esperanças: “Vamos voltar tarde ou cedo. O melhor possível para pacificar a Bolívia”, afirmou em uma coletiva, no país que escolheu para se refugiar como asilado político.

 

 

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2 comentários

  1. Uma situação pré-revolucionária

    Apesar da ascensão econômica das camadas mais pobres da população, os partidos que representam os controladores do capital não conquistaram a confiança dos trabalhadores e camponeses na Bolívia.

    Além disso, o avanço da das organizações fascista com apoio das forças polícias, volta a despertar a necessidade da formação de grupo de autodefesa das organizações populares do campo e da cidade.
    O aprofundamento do atual conflito pode desencadear uma onda de bloqueios nas estradas a realização de uma longa greve geral, como já aconteceu no passado recente.

    Certamente estas ações conjuntas dos trabalhadores do campo e da cidade vai impor severas perdas aos controladores do capital, levando uma divisão entre aqueles de defendem o uso da força militar e os que defendem a volta de governo de conciliação para atenuar os conflitos sociais .

    Certamente o prolongamentos dos conflitos fará surgir novas liderança no campo dos trabalhadores do campo e da cidade, que pode resultar em um movimento insurrecional, considerando o histórico da Bolívia, principalmente se os comitês de autodefesa que já estão se formando, evoluírem para a formação de milicias camponesas e operárias.
    A situação na Bolívia caminha a passos rápidos para uma situação revolucionária, onde dias parecerão anos ou décadas.

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