Dois anos de resistência a Macri, por Néstor Restivo

Concentração na Praça de Maio 24/09 – antecedendo a greve geral nacional

Dois anos de resistência a Macri

Por Néstor Restivo

A resistência ao governo neoliberal de Mauricio Macri começou assim que ele assumiu, em dezembro de 2015. Mas, na época ela provinha apenas pelos que aderiam ao kirchnerismo, o setor do peronismo que acabava de deixar o poder, depois de 12 anos de governo.

Nas praças e nos bares, essa parte do eleitorado argentino cantava “a volver, vamos a volver” com alegria, como se não houvesse dimensionado a tragédia e la profundidade da reação que havia se instalado e que estava por vir.

Uma parte importante do restante da sociedade, a que votou em Macri, acreditava que não era a velha direita oligárquica e reacionária que voltava de novo ao poder, agora não como ditadura mas sim pela via eleitoral. “É outra coisa, estava faltando uma mudança”, era o pensamento dominante. Mas desde o principio o núcleo duro do novo governo sim sabia porque se instalava na Casa Rosada.

Macri, cujo grupo empresarial cresceu durante la ditadura 1976/1983 e na década de 1990 com a primeira onda neoliberal, instalou-se e começou a desarmar o que havia feito o kirchnerismo em matéria de ciência, expansão de direitos, negociações coletivas através das “paritárias” para os trabalhadores, no setor externo, na Justiça, em direitos humanos, em todas as áreas. E armando dois dispositivos, o publicitário- ideológico e o repressivo, para assegurar sua tarefa.

Em outubro de 2017, o governo do “Cambiemos” (a aliança do PRO e dos Radicais encabeçado por Macri com grande apoio mediático e empresarial) obteve ainda um melhor resultado eleitoral que em 2015 nas eleições legislativa. Basicamente, foi porque conseguiu articular politicamente com o peronismo de direita e ante-kirchnerista, porque acelerou (ou simulou ter acelerado) obras públicas e porque usou ilegalmente a base de dados  do Estado para influir no eleitorado de todo o país.

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Essa vitoria o encorajou ao ponto de ter como garantida sua reeleição presidencial em 2019. Mas em poucos meses, dilapidou seu capital e a resistência começou a crescer.

A primeira reação popular verdadeira contra Macri foi em dezembro de 2017 quando o governo meteu no Congresso uma reforma do sistema previdenciário, de aposentadorias e pensões. Milhares de pessoas saíram espontaneamente nas ruas de todo o país para protestar e fazer soar suas panelas. As pessoas de mais idade integram uma das bases eleitorais chave de Macri. Mas ao final, pelo menos uma parte dessa base, entendeu que havia sido estafada.

Neste verão de 2018, o único motor econômico que o governo dispunha (o eterno e pedido suicida de crédito externo a fundos e bancos privados) acabou-se subitamente e gerou uma grande crise cambial e financeira. Para Macri e os CEOs e financistas de seu governo terminava o “chorro” de Wall Street porque já era óbvio que os níveis atingidos pela dívida (um grande negocio para o setor financeiro e para os dolarizados da Argentina, uma minoria) se tornariam insustentáveis e poderiam gerar um novo default.

Quando terminou a primavera macrista, em maio desse ano o governo teve que desesperadamente recorrer ao FMI, apesar de ter dito que não iria ( outra das tantas promessas descumpridas como: baixar a inflação, não desvalorizar, seguir com o futebol gratis para a TV, etc.) e a resistência disparou.

Estes meses de caos, com a inflação descontrolada, o aprofundamento da recessão, uma inédita desvalorização do peso, a alta do desemprego e a pobreza, reaparição do fantasma do “risco país” e outras calamidades, a resistência passou a ser diária. Praticamente não passa um dia sem que os professores (uma das vanguardas da luta), estudantes, “piqueteiros”, sindicatos, aposentados, cientistas, médicos e trabalhadores do setor saúde, artistas ou outros grupos não se manifestem contra Macri.

Em setembro (dia 25), a 4a greve geral nacional contra seu governo e contra o FMI (que agora parece ser o dono da Argentina) foi contundente. A mais contundente de todas.

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A primeira greve enfrentada pelo governo de “Cambiemos” foi no dia 6 de abril de 2017, em protesto contra a política econômica. O segundo, foi em 18 de dezembro passado, como protesto contra pelo anunciado projeto de lei de reforma previdenciária que finalmente o Congresso aprovou (mas que pelo limite que fixaram os trabalhadores não pode avançar em outra reforma prevista, a trabalhista) ; e o terceiro, foi dia 25 de junho de 2018, logo após a desvalorização de maio, tendo como principal reivindicação a reabertura geral das negociações salariais (as paritárias) sem estabelecimento de nenhum tipo teto.

Agora em setembro a greve foi contra toda a política econômica e em repudio ao retorno ao FMI. A greve começou no dia 24 com uma mobilização na Praça de Mayo, no centro histórico de Buenos Aires (mas também em diferentes lugares de todo o país) da Central dos Trabalhadores Argentinos, a CTA. Foi uma quantidade impressionante de trabalhadores e lutadores sociais que se congregaram. No dia 25 de setembro começou a a greve geral convocada pela CTA e a Confederação Geral do Trabalho, a CGT, a maior central sindical. Os dirigentes da CGT, que nos dois primeiros anos de governo negociaram e contiveram a resistência, já não podiam permanecer a margem e saíram a confrontar Macri.

Além dessas greves gerais, desde o final de 2015 há numerosos atos de resistência nas ruas.

A Confederação de docentes CETERA e os sindicatos a ela filiados (SUTEBA e outros) foram os mais mobilizados. Mas em geral os trabalhadores de todo o campo laboral que viram seus direitos e salários serem reduzidos estão lutando contra Macri todo este tempo. E as mulheres têm tido um papel muito destacado, onde além de terem se mobilizado como nunca pelo projeto legislativo (afinal não aprovado) para regular o aborto não penalizável, seguro e gratuito e contra a violência de gênero, como também participam cada vez mais nas mobilizações populares para reclamar pela não regressão nos direitos mais amplos em que esse governo avança.

Também merece um parágrafo especial a enorme mobilização popular feita em maio de 2017, contra a Suprema Corte de Justiça quando tentou , a pedido do governo Macri, beneficiar com a chamada lei do “2 por 1” beneficiar os genocidas encarcerados por seus crimes de lesa humanidade cometidos durante a última ditadura. Um dos impulsionadores da tentativa foi o juiz da Corte Carlos Rosenkrantz, que em 2018 subiu à presidência do tribunal. Apesar do freio interposto pelo Congresso naquele momento, os organismos de direitos humanos seguem alertas.

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O mesmo alerta que a CGT e a CTA, assim como outras agrupações sindicais ou trabalhadores cujas empresas fecham, para dar continuidade à resistência a um governo cuja política econômica e social de agora até outubro de 2019 não pode oferecer outra coisa que não seja o aprofundamento da crise.

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Néstor Restivo – Historiador UBA y periodista de Página 12, Radio Nacional y Radio Cooperativa de Argentina

– Argentina 2/10/2018

 

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