El Salvador, o país esquecido que ressurge nas mãos do polêmico presidente Nayib Bukele, por Camila Koenigstein

Sua figura juvenil chamou atenção justamente por romper o bipartidarismo existente desde o fim da Guerra Civil, que deixou um saldo de mortes de mais 75 mil pessoas.

El Salvador, o país esquecido que ressurge nas mãos do polêmico presidente Nayib Bukele.

por Camila Koenigstein

Nayib Bukele foi eleito presidente de El Salvador em 2019. O empresário e ex-prefeito de Nuevo Cuscatlán (2012-2015) e San Salvador (2015-2018) faz parte do Partido Novas Ideias, considerado uma via atual dentro dos velhos partidos que sempre governaram o país.

Sua figura juvenil chamou atenção justamente por romper o bipartidarismo existente desde o fim da Guerra Civil, que deixou um saldo de mortes de mais 75 mil pessoas.

O período ficou marcado pelo que denominaram Guerra Fria na América Central, precisamente pela intervenção dos Estados Unidos e Rússia, cada qual apoiando os grupos que correspondiam aos seus interesses.

O intervencionismo estadunidense no continente gerou ditaduras sangrentas, com o pretexto evitar a expansão do comunismo. Já sabemos do que se tratava e quais interesses estavam em jogo, o que de certa forma ainda é vigente – vide o caso da Venezuela.

Após 12 anos de Guerra Civil, foram firmados os Acordos de Paz de Chapultec, em 1992, o que possibilitou o surgimento dos dois principais partidos. Um deles, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), em homenagem a Farabundo Martí,  um dos organizadores da insurreição campesina e indígena de 1932. A FMLN foi composta das Forças Populares de Libertação “Farabundo Martí” (FPL), o Exército Revolucionário do Povo (ERP), a Resistência Nacional (RN), o Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centro-Americanos (PRTC) e Partido Comunista Salvadorenho (PCS). O outro partido, a Aliança Republicana Nacionalista (Arena), legenda tradicional, fundada por Roberto d’Aubuisson Arrieta, militar, responsável por milhares de mortes e desaparecimentos, mas nunca condenado por nenhum crime, foi formado pelo resíduo de integrantes que participaram da guerra. Assim emergiu o modelo de alternância de poderes, algo similar à política do café com leite no Brasil.

Após décadas de bipartidarismo, Nayid chegou com um discurso aparentemente mais aberto, tendo como lema durante a campanha eleitoral: “Nem bons, nem maus, nem esquerda, nem direita”, algo novo em uma sociedade acostumada há muito tempo com repressão constante.

Bukele recebeu um país repleto de problemas estruturais oriundos do período de Guerra Civil e também da desigualdade agrícola.

El Salvador era conhecido como o país das 14 famílias, ou seja, a concentração de riquezas e poderes basicamente nas mãos de caudilhos.

O tema da terra, desde sempre um dos maiores problemas não só na América Central, mas no continente, foi fundamental para o surgimento de guerrilhas que buscavam combater a opressão gerada pelos militares contra os agricultores.

O massacre de campesinos e teólogos da libertação marcou uma era na América Latina, algo que jamais será esquecido.

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Devido à violência no campo, resultado de décadas de retirada de direitos, houve o processo de êxodo, que expôs os campesinos à dura realidade dos centros urbanos. Mas o fato de o território de El Salvador ser pequeno gerou o surgimento de bairros enormes, verdadeiros guetos de pobreza que hoje dividem o país em grupos que promovem grande violência e mortes.

Em El Salvador, os maras se distribuem entre os M-18 e os salvatruchos MS-13, nome que faz referência à formiga marabunta que por onde passa destrói tudo. Os maras são filhos da desigualdade sistêmica sofrida tanto pelos avós como pelos pais saídos do campo que foram obrigados a emigrar para os Estados Unidos por causa da guerra.

Essas pessoas se refugiaram nos Estados Unidos, principalmente em Los Angeles. Os salvadorenhos que abandonaram o país não foram acolhidos de maneira ampla e tiveram que se inserir enfrentando altos níveis de exclusão. A primeira em seu próprio país devido à guerra.

Com a violência em solo americano, após o fim da guerra os Estados Unidos iniciaram um processo de deportação. Ao voltarem para o país de origem, os salvadorenhos enfrentaram novamente o processo de exclusão e falta de oportunidades, o que aumentou a criminalidade, ou seja, essas pessoas nunca tiveram chances efetivas de inserção social. Nessa zona cinzenta de descaso total, a saída foi vincular-se aos maras.

Com o corpo todo tatuado, e números muitas vezes desenhados no próprio rosto, os maras vivem e atuam como uma grande família. O lema: “Vive por um mara, morre por um mara, ou morre ou segue vivendo como as formigas marabuntas, devorando tudo o que passa”.

Atualmente, mais de 65 mil jovens e adultos estão envolvidos no narcotráfico, extorsão e crime organizado, divididos entre os bairros mais carentes, no chamado triângulo norte da América Central (El Salvador, Guatemala e Honduras).

Em 2003, o presidente Francisco Torres (1999-2004) implementou o manos duras, um plano de combate à violência que, desde então, sucessivamente, foi seguido pelos demais presidentes.

Com esse contexto desolador, El Salvador é considerado um dos países mais violentos do mundo para viver, chegou a contar 9,2 homicídios diários.

Com todo esse peso histórico emerge a figura de Bukule, que prometeu pôr fim nos problemas causados pela violência já naturalizada, assim como a pobreza extrema existente na sociedade – uma em cada três crianças salvadorenhas sofre de desnutrição.

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Em sua chegada à Presidência, Bukele tinha um forte discurso contra a corrupção e a violência, o que parecia a saída para um país extremamente pobre.

No primeiro ano de mandato conseguiu bons acordos com a classe empresarial, melhorou as condições dos hospitais implementando uma renovação estrutural em tempo recorde, estabeleceu bases para ganhar a confiança dos governos estrangeiros, e consequentemente alguma ¨estabilidade¨ para futuros investimentos no país, promoveu avanços no âmbito da segurança pública, ainda que não tenha apresentado planos de combate às estruturas que levam jovens à criminalidade, daí o fato de muitos críticos considerarem paliativas as medidas contra a violência.

Mas tamanho êxito começou a ser questionado quando em fevereiro o presidente entrou na Assembleia Legislativa juntamente com um grupo de militares com a finalidade de exigir um empréstimo.

Tras la crisis del agua contaminada en San Salvador, el otro episodio que marcó el primer año de gestión de Nayib Bukele fue su irrupción con militares en la Asamblea Legislativa el 09 de febrero. La tensión entre el Ejecutivo y el Parlamento, motivada por la presión del gobierno para que se aprobara la autorización de préstamos para el plan Control Territorial, tuvo como punto álgido el llamado “intento de golpe”, impulsado por el mandatario […] Esta acción fue duramente criticada a nivel nacional e internacional. La imagen del hasta entonces “presidente cool”, cambió.

Após esse episódio, novamente surgiu uma espécie de divisão na sociedade salvadorenha sobre a entrada do presidente na Assembleia. É importante ressaltar que Nayib não tem boa relação com os membros dos outros partidos, e vem optando por uma política combativa e de pouca tolerância, com isso sua popularidade aumenta nos setores populares da sociedade que foram atingidos justamente pela alternância de governabilidade entre os antigos partidos que ainda seguem no poder.

No entanto, a pandemia chegou não só para pôr em xeque a popularidade que conquistou durante um ano, com o apoio de 92% da população, mas questionar se o presidente é mais um no histórico de presidentes autoritários que atentam contra a democracia e o Estado de direito.

Bakule foi um dos primeiros líderes a estipular o fechamento de fronteiras e a promover um sistema hospitalar de ponta para receber os doentes. A postura truculenta com os cidadãos que saíssem às ruas durante a quarentena, no entanto, gerou sérias críticas, assim como a medida de confinar presos de facções criminosas distintas mesmo espaço, algo visto pelos órgãos de direitos humanos como abusivo e cruel, sabendo-se que poderia gerar uma onda de homicídios.

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A cena de presos com máscara, sentados e quase sem roupa correu mundo, colocando o presidente mais uma vez em uma posição complexa em um país marcado pelo autoritarismo.

Na noite de 8 de junho, a Corte Suprema declarou inconstitucional o decreto governamental de Nayib Bukele – que vinha administrando a crise sanitária por meio de decretos emitidos pelo Ministério da Saúde, sem declarar estado de exceção. Diante dessa medida, Bukele afirmou: “Assassinaremos dezenas de milhares de salvadorenhos”.

Passados 80 dias desde que a quarentena restrita foi decretada, os deputados negaram seu seguimento.

Los diputados se negaron a ampliar automáticamente estas normativas por señalamientos de falta de transparencia en el manejo de fondos y supuestas violaciones a derechos humanos, por lo que emitieron dos leyes de reapertura económica y vigilancia sanitaria, que Bukele vetó.

Nesse momento, o país registrava somente 58 mortes. No entanto, um mês após a decisão dos deputados há cemitérios colapsando e um aumento significativo de contaminados e mortos. Até o sábado 4 de julho, o Ministério da Saúde confirmou 7.777 casos, 217 mortes, 2.987 casos ativos e 8.344 casos em suspeita.

Segue o conflito entre o presidente e a Corte Suprema de Justiça. Novamente o cenário é de desconfiança em relação às intenções de Bakule em manter a quarentena, tirando o foco de possíveis irregularidades. Outros cidadãos creem que Nayib foi o melhor mandatário que governou o país centro-americano. O que há de oficial são os números, que mostram que a abertura gerou em um mês um cenário desolador.

Se Bakule veio para mudar as estruturas ou é mais um líder populista de cunho autoritário, só o tempo vai mostrar.

https://www.laprensa.com.ni/2017/09/10/suplemento/la-prensa-domingo/2294797-que-es-y-como-opera-la-temida-mara-salvatrucha

https://www.france24.com/es/20190208-debate-el-salvador-bukele-partidos-tradicionales

http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20181119123615/Actualidad_reforma.pdf

https://www.chicagotribune.com/hoy/ct-hoy-origen-evolucion-mara-salvatrucha-20191014-ga2rbkzulrbiniojxbqgagmc7a-story.html

https://www.nodal.am/2020/06/un-ano-de-bukele-presidente-criticas-emergencia-nacional-e-irrupcion-en-el-congreso-con-militares/

https://www.abc.es/internacional/abci-maras-terror-expulsa-centroamericanos-201810210259_noticia.html

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

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5 comentários

  1. Quem achar que 1 país devastado como o descrito pela articulista pode ser governado como 1 demlcracia escandinava ou é ingênuo ou de má fé. Como o garoto estava dando certo , começa a onda da falta de liberdade e da corrupção. Onde será que eu já ví este filme?

  2. Como as referências são da imprensa internacional oligopólica, não consigo ver nenhuma credibilidade no artigo, nem contra, nem a favor, muito antes pelo contrário.

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