Exclusivo: Para analista argentino “desafio da esquerda sul-americana será regressar com projetos mais ousados”, por Victor Farinelli

GGN conversou com o sociólogo argentino Atilio Borón, doutor pela Universidade de Harvard e atualmente professor da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Foto/Arte - Insurgente

Para analista argentino “desafio da esquerda sul-americana será regressar com projetos mais ousados”

por Victor Farinelli

Há exatamente um ano, a vitória de Jair Bolsonaro na eleição brasileira em 2018 dava a impressão de final definitivo do ciclo de governos progressistas na América Latina, e início de um período de hegemonia da direita, inclusive com alguns governos de ultradireita, como no caso do Brasil e do Paraguai.

Porém, 364 dias depois daquela vitória, alguns países da região já vivem uma mudança de rumos políticos que naquele final de 2018 seria completamente inimaginável.

A vitória de Alberto Fernández na Argentina, a reeleição de Evo Morales na Bolívia e a chegada da ecologista de centro-esquerda Claudia López à Prefeitura de Bogotá – surpreendendo o favoritismo da direita –, aconteceram em um lapso de apenas 8 dias. Também houve um pequeno tropeço da esquerda: Daniel Martínez, que tenta o quarto mandato consecutivo da Frente Ampla uruguaia, terminou o primeiro turno das eleições presidenciais com vantagem de apenas 10% sobre o conservador Luis Lacalle Pou, e terá sérias dificuldades para vencer o segundo turno, marcado para o final de novembro.

No mesmo período, o Chile governado pelo neoliberal Sebastián Piñera entrou em um processo de convulsão social, cujo final ainda parece incerto. As manifestações chegaram, nesta quarta-feira (30/10), ao seu 13º dia consecutivo, e as assembleias populares, que começam a ser os primeiros focos de organização popular de um movimento que se iniciou anárquico, tentam direcionar as diversas demandas a uma exigência maior de renúncia do presidente Sebastián Piñera e instalação de uma assembleia constituinte, que seria a primeira da história do país – lembrando que a atual carta magna foi elaborada durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Para tratar de todos esses casos, o GGN conversou com o sociólogo argentino Atilio Borón, doutor pela Universidade de Harvard e atualmente professor da Universidade de Buenos Aires (UBA). Segundo ele, “há dois elementos interessantes no cenário atual: um deles é que a hegemonia da direita, anunciada após a vitória de Bolsonaro, durou muito menos do que se esperava. O próprio Bolsonaro já está sendo questionado, o mesmo acontece com Iván Duque na Colômbia e Abdo Benítez no Paraguai, e nem falar de Mauricio Macri e Sebastián Piñera. Isso mostra que a direita não estava preparada para governar, como disseram no ano passado”.

Porém, o segundo elemento proposto pelo professor é um aviso a uma esquerda que começa a recuperar terreno no continente. “A esquerda precisa mostrar algo diferente. O ciclo progressista da década passada, e da primeira metade desta, teve os seus méritos, mas os resultados desta segunda metade da década mostram que não basta com somente dar melhores condições econômicas à população, é preciso estabelecer objetivos mais ousados de transformação social. Um desafio para os que estão sendo eleitos agora, e também para os que desejam voltar em breve, como o PT no Brasil”.

Entre as mudanças que ele propõe, está o que ele chama de “realfabetização política”, que seria vencer a batalha cultural entre os projetos políticos em disputa. “Eu e Frei Betto estamos entre os que defendem essa necessidade, e os acontecimentos nos últimos anos nos deram razão. Se a melhoria econômica e social nos países da América Latina não é acompanhada de uma reeducação política, esses setores populares que melhoraram de vida terminam se aburguesando, se tornando uma nova classe média tão reacionária quanto a tradicional, e o problema não é se votam contra quem os tirou da pobreza, mas sim se votam a favor de quem vai levá-los de volta a ela”.

Analisando caso a caso, Borón acredita que a Bolívia deverá primeiro superar a tentativa opositora de desconhecer o resultado das eleições: “talvez adotem (a oposição) uma estratégia similar à de Juan Guaidó na Venezuela, com Carlos Mesa querendo constituir um governo paralelo, mas que não tem sustentação nos fatos. Até mesmo a OEA (Organização dos Estados Americanos), que já se mostrou simpática e funcional à oposição, não foi capaz de denunciar fraude, disse apenas que houve irregularidades, mas isso acontece em quase todas as eleições, inclusive nos Estados Unidos, como na vitória de Trump em 2016 e na de Bush em 2000, sem que isso justificasse desconhecer os resultados”.

O sociólogo acredita que Evo Morales terminará controlando a situação, “apesar do clima hostil impulsado pela OEA e pela Embaixada dos Estados Unidos”, mas terá que enfrentar o desafio de mostrar novos e melhores desafios políticos e sociais à população. “A diferença entre aqueles 61% de 2014 e os 48% de agora mostra que é preciso buscar um projeto mais ousado. O governo tem que refletir sobre porque o melhor manejo macroeconômico da região e a maior expansão dos direitos sociais da história do país, já não é suficiente para ter uma votação de mais de 50% dos votos, e adotar as políticas que possam recuperar esse eleitorado perdido”.

Sobre a Argentina, a vitória de Alberto Fernández “terminou sendo menor que a esperada em algum momento, e evidencia aquilo que já se sabia que seria seu grande desafio: mais que ganhar as eleições, o problema de Fernández será o de cumprir o que prometeu às pessoas, que é desmantelar o modelo macrista”.

Segundo o professor da Universidade de Buenos Aires, “Macri perdeu, mas conseguiu para seu partido uma representação parlamentar importante, o suficiente para garantir uma resistência à desativação do modelo neoliberal, revitalizado nestes últimos quatro anos. O peronismo terá que mostrar que está realmente unido em torno desse projeto mais social que Fernández defendeu na campanha. Além da necessidade de mostrar serviço de forma urgente, porque a situação social e econômica que a direita deixa ao próximo presidente, com a miséria em crescimento, inflação descontrolada e uma dívida astronômica, requerem medidas que sejam urgentes e eficazes”.

No caso do Uruguai, Borón vê muitas dificuldades para a Frente Ampla conseguir seu quarto mandato. O sociólogo diz que “a vitória por pouca margem no primeiro turno já era de se esperar, como também é de se esperar uma disputa muito acirrada neste segundo turno. Martínez talvez tenha alguma vantagem, porque tem um projeto mais consistente para oferecer, em comparação com as promessas da direita, mas teremos um mês de campanha pela frente, e é difícil fazer uma previsão sobre qual tendência terminará se impondo”.

No entanto, o cientista político acredita que os acontecimentos no Chile podem ter alguma influência no debate durante o segundo turno uruguaio. “A política no Uruguai sempre acompanha muito o que acontece na região, especialmente os vizinhos, Brasil e Argentina, onde Bolsonaro e Macri são modelos que não creio que possam render votos à direita. Mas o mais importante agora é o Chile, que também lá, como em toda a região, era apresentado como modelo bem-sucedido de neoliberalismo, e agora não só está colapsando como mostra que precisa de forte repressão para controlar suas crises. Isso pode fazer a sociedade uruguaia questionar o discurso liberal dessa direita que pretende voltar ao poder”.

O Chile parece ser o novo centro das atenções do continente, desde que a população iniciou a revolta popular, no dia 18 de outubro. Segundo o sociólogo Atilio Borón, o que acontece no país “é a grande novidade política na América Latina nestes últimos anos, e talvez neste século, dependendo do desenlace que isso possa ter, mas só o fato de ver o povo chileno lutando heroicamente contra o modelo neoliberal já é digno de reconhecimento”.

Segundo o professor, “o neoliberalismo levou o Chile a ser um país tão desigual economicamente quanto Ruanda e outros países africanos, mas é mostrado ao mundo como paradigma de sucesso nos negócios para países em desenvolvimento, e o que vemos agora joga por terra, e para sempre, esse discurso do suposto sucesso chileno”.

Contudo, ele acredita que “o processo para reconstruir o país será muito difícil. Primeiro porque o movimento não tem ainda uma orientação política clara, ele só é contra o modelo neoliberal atual, sem uma ideia clara do que quer colocar no lugar. Também devemos recordar que a oligarquia chilena é muito violenta, sanguinária até, especialmente quando defende seus interesses. Há registros de que muitos dos saques ao comércio são realizados pelos próprios militares, o que pode ser uma tentativa de instalar um caos que justifique uma ação de restauração da ordem, e uma saída autoritária, como um novo golpe de Estado militar para poder preservar o modelo. No Chile, todas as rebeliões como essa foram esmagadas cruelmente, com muitas mortes”.

Mas ele também faz um contraponto: “se tentamos ver o copo meio cheio, e se esse movimento, que está apenas começando, conseguir superar todos esses riscos e impulsar uma mudança profunda no país, pode servir de exemplo para a América Latina e para o mundo. Isso dependerá, entre outros fatores dos partidos e movimentos de esquerda, que sejam capazes de conduzir esse processo a um caminho de transformações reais, como o de criar uma nova constituição”.

Finalmente, no caso da vitória de Claudia López em Bogotá, o analista político argentino acredita que “é uma esperança de mudança, mas não uma certeza. Gustavo Petro também foi prefeito, e depois conseguiu o melhor resultado da esquerda na Colômbia em décadas, que foi um segundo lugar. A boa notícia é que quanto mais representantes progressistas maiores as chances de mudanças no futuro. Mas é cedo para falar em uma possível vitória da esquerda colombiana a nível nacional”.

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