Guatemala pede renúncia do presidente em greve nacional

Milhares de guatemaltecos tomaram as ruas do país nesta quinta, em convocação de greve geral por novo pedido pela renúncia do presidente ultraconservador Alejandro Giammattei

Foto: Arnulfo Vázquez/Prensa Comunitaria via Twitter

Guatemala pede renúncia do presidente em greve nacional

do Giro Latino

Milhares de guatemaltecos tomaram as ruas do país na quinta-feira (29), em meio à convocação de uma greve geral que colocou em pauta um novo pedido pela renúncia do presidente, o ultraconservador Alejandro Giammattei, além da procuradora-geral Consuelo Porras. Os dois são acusados de afastar o governo cada vez mais das velhas promessas de ‘limpar’ a política nacional – o mais novo estopim da indignação foi a destituição, no último dia 23, do procurador anticorrupção do país, Juan Francisco Sandoval.

Giammattei nega ter participado da remoção de Sandoval e colocou Porras na fogueira pelo ato, mas não é a primeira vez que se coloca em posição impopular por cercear os órgãos de combate à impunidade na política: em setembro de 2019, apenas um mês após a eleição de Giammattei e antes mesmo de sua posse, o Congresso pôs fim ao mandato da Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), órgão multilateral que operava desde 2006 como um braço independente da procuradoria. O próprio mandatário chegou a ser alvo da CICIG antes de se tornar presidente; no entanto, disse que era preciso “virar a página” em relação à atividade do organismo, levando os ex-membros da Comissão amparada pela ONU (incluindo o mesmo Sandoval demitido na semana passada) a apontarem supostas retaliações do então novo governo. 

“Mais do que a ilegalidade com que fui destituído, creio que é uma mensagem direta para quem se atreva a desafiar o regime. A mensagem está dada, a advertência está feita”, disse Sandoval, em entrevista à BBC no rescaldo da destituição. Para ele, seu afastamento se deu após as investigações se aproximarem dos círculos mais próximos de Giammattei. O ato também inclui um ingrediente geopolítico: a vice-presidenta dos EUA, Kamala Harris, visitou a Guatemala no início de junho e foi recebida com promessas de que os esforços do país contra a impunidade não seriam interrompidos; segundo Harris, a corrupção seria a raiz dos problemas que levam milhares a fugir da América Central rumo, principalmente, aos EUA. Agora, com mais uma pedra no caminho das pretensões estadunidenses na região (vale lembrar que, em 2020, Honduras também pôs fim a uma força-tarefa anticorrupção com amparo internacional; veja no GIRO #14), Washington anunciou que vai interromper parte dos esforços de cooperação com o Ministério Público liderado por Consuelo Porras.

Enquanto os manifestantes bloqueavam as principais estradas do país na quinta, Porras voltava a se defender alegando que só afastou Sandoval porque suas investigações teriam motivações ideológicas. Como ocorreu com várias outras forças-tarefa que ganharam poder anunciando o combate à corrupção pela América Latina nos anos 2010 – incluindo a Lava-Jato brasileira –, a equipe comandada por Sandoval vinha sendo constantemente acusada de cometer abusos de autoridade em nome de conseguir prisões a qualquer custo, críticas que já vinham da época da CICIG. Apesar da indignação nas ruas, entre os políticos a reação à queda de Sandoval segue tímida: apenas 11 deputados (de um total de 160) assinaram uma carta cobrando a renúncia de Consuelo Porras por sua decisão de afastar o procurador.

paro nacional desta semana não é a primeira vez que Giammattei encontra voz ativa das ruas contra seu governo: em novembro, manifestantes chegaram a atear fogo ao Congresso do país após uma negociação na surdina com o Executivo pela aprovação da lei orçamentária deste ano. Mais cedo neste mês, o governo chegou a tentar uma proibição dos protestos no país, alegando a necessidade de conter aglomerações diante do agravamento da pandemia, em um movimento questionado pelo procurador de Direitos Humanos, Jordán Rodas, e pelo próprio vice-presidente – e desafeto declarado de Giammattei – Guillermo Castillo. “Mais uma vez fica claro que não há capacidade de [Giammattei] governar sem restringir”, disse Rodas, na ocasião. Poucos dias depois, o governo outra vez vê as ruas tomadas.

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