Por trás do conflito político, Bolívia vive uma das piores pandemias do mundo

Entenda como o país andino ultrapassou 140 mil contagiados e 8.694 mortos, sendo hoje o quarto do mundo com mais óbitos de Covid-19 por habitantes

Um homem enterrando um familiar em cemitério de La Paz, Bolívia - Foto: David Mercado/Reuters

Jornal GGN – Economias familiares que dependem do comércio e agricultura, 50% de trabalhadores informais, altas taxas de subnotificação e a crise política sob o comando da oposição são alguns dos cenários que explicam a falta de controle da Bolívia com o coronavírus, fazendo o país andino ultrapassar 140 mil contagiados e 8.694 mortos, sendo hoje o quarto país com mais óbitos por habitantes no mundo.

Os dados revelam que a Bolívia está hoje à frente até do Brasil no número de mortes, comparado à população nacional: são 75,5 falecidos por Covid-19 por cada 100 mil bolivianos.

Há um mês e meio, os jornais locais já davam conta de que o país latino-americano, sob a gestão da interina opositora à Nicolás Maduro, Jeanine Áñez, só perdia para o Brasil entre os países mais afetados da América Latina.

No segundo dia do mês de setembro, o país atingia um recorde diário de falecidos por Covid-19, 102 mortes em 24 horas, segundo os registros do Ministério da Saúde boliviano. As cifras mais altas anteriores haviam sido registradas nos dias 5 e 29 de agosto, com 92 mortos. Os números recordes também ditava o ranking mundial: em setembro, estudos da Universidade Johns Hopkins dos Estados Unidos já indicavam que a Bolívia era o 4º país com mais mortes por coronavírus em comparação aos contágios e o 6º em comparação à população.

Ainda em agosto e, um mês antes, em julho, a Bolívia já estampava manchetes em jornais da América Latina por registrar mais de 2 mil casos diários de contágios. E foi naquele mês que, em meio a uma crise política e altas taxas de subnotificação, com os números supostamente reduzindo, em contradição à saturação de hospitais no país, a interina Jeanine Áñez decidiu reabrir os isolamentos em uma fase denominada “pós-confinamento”, retirando diversas restrições.

A flexibilização liberada pela opositora do ex-presidente Nicolás Maduro, permitindo os bolivianos sair normalmente de suas casas, confirmou o que os analistas previam: o aumento dos contágios nos meses seguintes, em setembro e outubro. Uma das poucas restrições que se mantinham, a de evitar aglomerações, também não foram seguidas pelo pleito eleitoral no qual Áñez apostava sua confiança no centrista Carlos Mesa, que acabou perdendo para Luis Arce, o candidato de Evo Morales no MAS, que obteve um triunfo de 55% dos eleitores.

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Antes das votações, que tiveram mais de 7 milhões de bolivianos inscritos e a maior participação histórica do país, de 87% dos eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da Bolívia, comícios eleitorais e festejos também aglomeraram os bolivianos nas semanas anteriores ao 18 de outubro.

A epidemia atingiu rapidamente as regiões mais populosas do país: Santa Cruz, La Paz e Cochabamba. Um país que as economias familiares dependem, principalmente, do comércio e da agricultura, além de um 50% que são trabalhadores informais, também justificou a retirada das restrições nestes locais que, desde junho, começaram a liberar os trabalhadores por questão de sobrevivência.

A subnotificação também foi um dos grandes problemas que permeou o monitoramento do avanço ou diminuição dos casos no país latino-americano. Porque em um dos ápices da pandemia, em julho, o país não dava conta das cifras, somente sabia-se que em um prazo de 5 dias, de 15 a 20 de julho, 85% até 90% dos 420 mortos fora dos hospitais eram suspeitos da doença.

As mortes “extra-hospitalares” chamaram a atenção quando a polícia boliviana passou a ter a tarefa de recolher estes cadáveres em casas e ruas do país. E o relato de um coveiro que disse estar “exausto” do trabalho: “Passei a cavar de 3 sepulturas para 15 por dia”.

“Morria tanta gente que os números do governo não podiam ser corretos”, manchetou o The New York Times. “Os telefonemas para retirar os corpos inundavam a oficina forense da Bolívia. Em julho, os agentes recolheram até 150 corpos por dia, 15 vezes mais do que o normal”, continuou o jornal norte-americano que estimou que as cifras reais de óbitos durante o brote foi quase 5 vezes superior aos dados oficiais.

Até então escondido nos números absolutos sob a sua pequena população de 11,35 milhões, as notícias do conflito político que desde o ano passado deixou o país em um limbo eleitoral, governado pela oposição, teriam sido mais importantes do que o não controlado e não visto avanço da doença no país andino, enquanto em seu interior, nas palavras do levantamento do NYT, “sofria uma das piores epidemias do mundo”.

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