Sobre o atual “conservadorismo ilustrado”, por Rogério Mattos

 

Por Rogério Mattos

Quando a direita passou a aumentar seu tom de voz há poucos anos, vira e mexe se falava que não existia mais direitistas como antigamente. Fazia-se alusões a Melchior, Paulo Francis e sei lá mais quem. Eram declaradamente de direita, porém tinham o mínimo de articulação, sabiam dialogar e não apenas xingar ou difamar, como o que vemos hoje no atacado e no varejo. Contudo, talvez esse conservadorismo já exista. Quem sabe, porventura, um pouco melhorado. São meio livre-mercadistas, meio esquerdistas, e não são vistos ainda como “de direita”. Dar tempo ao tempo…

Recentemente, Mathias Alencastro escreveu um artigo intitulado “Diplomacia a quatro mãos”. Nele, o articulista propõe como algo vantajoso o trabalho em conjunto do super-ministério de Paulo Guedes com o Itamaraty. Com os super-poderes do ministro da Economia, ele poderia se sobrepor a tradicional primazia do ministério das Relações Exteriores sobre as negociações de comércio internacional. Mathias sabe que o pró-americanismo da nova chancelaria não traz muitos benefícios econômicos. Assim, o Brasil poderia refazer seus elos com os países asiáticos ,em especial com a China, através de uma sobreposição do ministério da Fazenda sobre o das Relações Exteriores. Dar ainda mais poderes a Guedes teria como resultado o seguinte: “No limite, se o presidente eleito arbitrar a favor de Guedes, poderíamos ver a emergência de uma política externa com rótulo pró-americano, levada pelo Itamaraty, e uma política comercial com viés pró-asiático, conduzida pela Economia”. Genial!

Como dado concreto, o articulista propõe parcerias de livre-comércio, numa sub-versão da proposta original dos BRICS. Mathias se refere a artigo publicado no jornal onde se relata as movimentações radiantes de Temer ao redor do BRICS pós-golpes na América Latina: “‘O processo de aproximação entre os países do Mercosul e da Aliança do Pacífico, já em si mesmo relevante, adquire significado especial na atual conjuntura’, afirmou Temer”. Seria potencializado o comércio brasileiro numa espécie de Alca transpacífica, sem a ferrovia bi-oceânica e com o Itamaraty ajoelhado. Boa proposta!

Leia também:  Menos de 7% dos territórios quilombolas reconhecidos têm títulos de propriedade

Só por motivo de comparação, Fernando Haddad colocou em seu Twitter recentemente não mais um artigo do New York Times, mas do Financial Times (ah!, a velha e boa “mídia internacional”…). Dessa vez não sobre Trump e Rússia, porém sobre a China. A China é comparada com o Japão da década de 1980 que, segundo a imaginação de alguns, seria a potência dominante do século XXI, porém não atendeu às expectativas…

Nenhuma dado “macroeconômico”, ou seja, de mercado, que procure demonstrar a decadência da economia chinesa tem valor. A proposta da Nova Rota da Seda, num entendimento muito restrito, serve para resolver alguns problemas domésticos do país. A expansão financeira e empresarial da China traria benefícios imediatos a economia nacional. No entanto, no quadro geral da política internacional, podemos apontar dois quadros do maior interesse para as nações de um modo geral. O único país com recursos suficientes para financiar a reconstrução da Síria é a China. Os sírios, num esforço admirável, como foi narrado recentemente num excelente programa do LPAC (clique aqui para acessar), tem feito muito para refazer o país depois de anos de bombardeio. Com o financiamento da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, aliado à ideia geral de interconectividade eurasiática, a Síria pode se transformar num país plenamente estável num modelo para o mundo.

O mesmo vale para o projeto Transaqua, capitaneado pela empresa italiana Bonifica em parceria com o governo chinês, para a revitalização do Lago Chad, na Nigéria, que traria benefícios para inúmeros países do continente e, em especial, para essa região onde proliferam milícias armadas para alimentar as redes terroristas, como o Boko Haram e seu “terrorismo sintético”. Esse projeto é contemporâneo à eleição de Aldo Moro, na Itália, e agora saiu novamente da gaveta. A desconsideração em relação a esse projeto é como o caso do canal nicaraguense: não se deve desconsiderar que a crise na Nicarágua é contemporânea aos ataques à construção do Canal naquele país. Ainda hoje o Panamá tem que ser uma espécie de território desde que criaram artificialmente o país para se apoderarem de suas facilidades geográficas e logísticas.

Leia também:  Esquerda não soube responder à crise da democracia na América Latina, diz senador chileno

No mesmo enquadramento, não é por acaso que a China foi a maior parceira do Brasil no projeto de partilha do pré-sal. Igualmente, antes do golpe de Estado, se discutia a pleno vapor a construção da ferrovia bi-oceânica em parceria com os chineses. Também, da mesma forma, o projeto abortado dos trens de alta velocidade poderia ser retomado via China. A Alemanha está muito atrasada em relação ao tema e essa discussão, iniciada com esse país, caiu em desgraça não por causa das anátemas, à época, de José Serra, mas por causa dos desdobramentos da crise financeira de 2007-8.

No artigo mencionado por Haddad, junto ao posicionamento de Mathias Alencastro, pode ser visto o inconveniente de ver a China como uma ameaça (e talvez não os EUA, mas Trump), que seria “regulamentada” com acordos de livre-comércio. Isso, vocês me desculpem, mas é neoliberalismo na veia – não sei o quão distante do “radicalismo” de Paulo Guedes. No quadro geral, contudo, o que os BRICS propõem, e a China agora assume maior protagonismo por causa do golpe no Brasil, é a criação de um novo modelo econômico não baseado no modelo pós-Bretton Woods, ou seja, o modelo contemporâneo ao regime de trocas fixas internacionais inaugurado por Nixon, à desvirtuação da orientação original do FMI e do Banco Mundial, aliado à desregulação financeira com o fim da lei Glass-Steagall no governo Bill Clinton (um desmonte que foi sendo feito ao longo de décadas). Um novo modelo de financiamento internacional de projetos de infraestrutura é o que está no fundo da criação do Banco dos BRICS e o que a China faz através da Organização para Cooperação de Xangai.

Em outro texto recente, Mathias Alencastro afirma: “Quanto mais a situação da Venezuela piorar, maior a chance de regime durar”. É uma cantilena diante da impossibilidade flagrante, pelo menos no curto prazo, do Brasil tomar medidas “mais drásticas” contra nosso vizinho. O governo brasileiro terá que se contentar em multiplicar as bravatas pela internet e anunciar medidas meramente simbólicas.

Leia também:  Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Logicamente, Maduro é um presidente ilegítimo, já que criou uma nova Assembléia Constituinte em 2013 e se reelegeu… Não considera nem que Chávez fez convocou anteriormente uma Assembléia Constituinte. Por questão de relação de forças da época, talvez não se tenha criticado tanto. Também é curioso que, em meio às conspirações antes do golpe de Estado de 2016, o que se debateu no Brasil era a criação dessa Assembléia como meio de se formar um mínimo de consenso popular para manutenção do governo e para sanar algumas das críticas difusas que o mesmo recebia. Caso houvesse possibilidade de isso ter sido criado na ocasião, Dilma poderia ter terminado seu mandato e, quem sabe, entregue o bastão presidencial a Lula. Alencastro iria dizer que o governo brasileiro, pela criação dessa medida e por suas consequências, seria ilegítimo?

O caso da Venezuela, ao contrário do que muitos pensam, é um excelente caso para pesquisa. A sabotagem econômica, a campanha ferrenha dos meios de comunicação internacionais junto ao apoio popular permanente, não tem como chamar a atenção do observador minimamente interessado nos desdobramentos da política latino americana. Contudo, ao que parece, preferem fechar-se em preconceitos. A Venezuela é um excelente caso de estudo ainda mais frente à derrota para as forças elitistas em nosso país e aos golpes de Estado em toda a América Latina, assim como a Rússia e seu sistema de inteligência e militar seria excelente para o governo brasileiro em 2013. Oportunidades passadas…

Que não se ignore a Venezuela.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

4 comentários

  1. O BRASIL E TODAS AS POSSIBILIDADES…

    Os EUA mantiveram um Ditador, por anos no comando do Panamá. Quando a política mundial se alterou e juntamente o fim da concessão do Canal InterOceânico, então o prenderam e acusaram de tráfico de drogas. Sem justificar os atuais governos, mas Nicaragua entrou em parafuso depois do anuncio de um novo canal interoceânico por seu território, em parceria com a China.  E a Venezuela, depois que ficou soberana sobre seu petróleo. A miséria venezuelana foi construída por um século de exploração desta riqueza por Petroleiras NorteAmericanas. E o Brasil? O Brasil se enfia num Caudilhismo Ditatorial a partir dos anos de 1930 e não sai mais de lá. Abandona as fantásticas possibilidades e recursos dentro do seu território e juntamente com seus Vizinhos. O Petróleo da Venezuela e Colômbia. A passagem próxima para o Pacifico e Caribe, através deste países, como já havia sido projetado pela Ferrovia Madeira Mamoré, ainda no século retrasado. Falamos da interferência de países longinquos e a influência da política local como se não fossemos uma Potência Continental. Nossas Elites Intelectuais e Políticas, provenientes deste período caudilhista, fascista, atrasado, ditatorial, ainda nos projeta como se pertencessemos a mesma classe de países com território e população diminutos, com possibilidades restritas. O que estamos fazendo no último século, que permitimos que EUA, e agora Russia e China, venham brigar por seus interesses nas nossas fronteiras? Pobre país rico. Acorda Neurônio em coma. Gigante Adormecido. Se olhe no espelho. País de muito fácil explicação.      

  2. Contágio Não Factual

    A era bolsonárica, no desprezo a realidade factual é pra lá de contagiante, né, não?

    MERQUIOR, José Guilherme, é o nome de personagem em questão e o “sei lá mais quem”, batizado Roberto de Oliveira Campos é o ‘Bob Fieds’, que fazendo par com Merquior, representaram os últimos moicanos pensantes da direita tupiniquim, cujas atividades cerebrais eram passíveis de registro.

    Está certo que tudo anda cada dia mais relaxado e bagunçado nessa marcha acelerada à colônia, mas não precisamos avacalhar e ajuda-los a piorar o pior.  

    • Obrigado, Francisco. Da

      Obrigado pelo trabalho de editoria, Francisco. Da próxima vez coloco o “r” no lugar do “l”.

      Não sei o motivo desse erro e “sei lá mais o que” ser algum tipo de avacalhação. Na “era bolsonárica” seria importante um comentário minimamente melhor embasado.

      Mas você aponta para algo interessante: não sei em que medida o articulista mencionado tem alguma “atividade cerebral passível de registro”. Cá com meus botões, talvez essa atividade tenha alertado de alguma maneira meu radar ou por causa do pai ou de seu O trato dos viventes… No mais, o bom e velho historiador, no dia a dia, não parece divergir muito das posições do filho. Na época do Lula, o Luiz Felipe parecia um simulacro do Jean Jaurès…

      Você tem razão, os tempos mudaram e muita coisa se degradou. Infelizmente.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome