Votação acirrada no Uruguai pode acabar com a trajetória da centro-esquerda na Presidência

Segundo turno de eleições alcança resultado inédito com diferença de apenas 1,2 ponto percentual entre candidatos do Partido Nacional e Frente Ampla

Daniel Martínez (esquerda) e Luis Lacalle Pou (direita). Foto: Divulgação / Redes sociais

Jornal GGN – Era para o Tribunal Eleitoral do Uruguai anunciar o novo presidente daquele país, com a apuração de 100% das urnas, na noite deste domingo (24), após o segundo turno das eleições presidenciais. Mas o anúncio foi suspenso com um resultado inédito: Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, ficou apenas 1,2 pontos percentuais à frente do candidato governista, da Frente Ampla, Daniel Martínez: 48,74% contra 47,48%.

O órgão explicou que irá aguardar os resultados dos chamados “votos observados”, de pessoas que, por algum motivo, tiveram que votar fora da sua zona eleitoral, como mesários que trabalharam, por exemplo.

Segundo analistas no país, para que Daniel Martínez, ligado ao movimento político do atual  presidente Tabaré Vázquez, vença, será necessário que obtenha 91% dos “votos observados”. O que seria praticamente impossível. Lacalle Pou conquistou 1.168.019 votos, enquanto Martinez obteve 1.139.353 (uma diferença de 28.666 votos). Os “votos observados” somam 35.229.

Na avaliação do cientista político Gilberto Maringoni, “era previsível que a direita fragmentada em várias candidaturas se uniria com largas chances de virar o jogo neste domingo”. No primeiro turno, a Frente Ampla, obteve 39,02% dos votos, enquanto o Partido Nacional 29,62%. Para vencer na primeira rodada de votações, a Frente Ampla precisava ter obtido 11% a mais de votos.

Maringoni observa ainda que o recuo nas preferências populares pela Frente Ampla é alimentado pelo “discurso oportunista” da oposição, explorando a redução na qualidade de vida, emprego e salários registrado último período.

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A Frente Ampla, formada por partidos de esquerda, assumiu pela primeira vez a Presidência no Uruguai em 2004, quando Tabaré foi eleito para seu primeiro mandato presidencial. O feito foi inédito e quebrou a alternativa na Presidência entre os partidos Nacional (conhecido como “Blanco”) e Colorado, que ocorria desde o século 19.

Depois de Tabaré, que no primeiro mandato governou até 2010, a Frente Ampla conquistou a presidência com José “Pepe” Mujica que, em 2015, passou a faixa de volta para Tabaré.

“Não existe conto de fadas”, pontua Maringoni. “A economia cresceu a taxas anuais médias de 3,9% entre 2010 e 2014. Neste último ano, o PIB ainda se manteve em 3,2% em relação ao ano anterior. Impactado pelas crises do Brasil e da Argentina, a economia local – sem indústrias de monta – avançou apenas 0,4% em 2015 e a média daí até 2018 foi de 1,9%. Neste ano que se encerra, o indicador deve fechar em apenas 1% de crescimento”, prossegue o analista político.

Maringoni reflete que a decisão do Tribunal Eleitoral de adiar o anúncio do resultado final para reexaminar os “votos observados” foi prudente. Ao mesmo tempo, considera que se houver uma alteração no resultado que aponte para a vitória do governista Martínez, haverá o risco de convulsão social no país.

“A extrema-direita, que tudo indica atuar em rede na região [latino-americana], pode montar um cenário de caos e tentar embaralhar o jogo”, avalia.

“As rebeliões populares no Chile, na Bolívia, no Equador, os protestos na Colômbia e a tensão crescente no Brasil indicam que não se deve brincar com fogo quando o mato está muito seco”, conclui.

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*Clique aqui para ler “Uruguai, empate e ebulição continental, por Gilberto Maringoni”

*Com informações da BBC News Brasil

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4 comentários

  1. Os uruguaios com a direita vão experimentar o mesmo fracasso, perda de direitos, desigualdade, repressão e fome que tantos países já passaram com essa elite tresloucada e sem escrúpulos.

  2. Os intelectuais daqui culpam o PT pelos erros de não politizar o povo, por isso apareceu o Mito. Me parece que o povo não em qualquer lugar não entende que existe diferenças ideológicas.
    Em no máximo dois anos os uruguaios estarão nas ruas devido as perdas sociais que o governo de direita impôs a classe dos pobres e média.

  3. Vcs. viram a quantidade de gente que estava na rua por causa do Flamengo ? Para isso eles aparecem . Para defender os seus direitos não há interesse. Pobre país. Vão continuar perdendo os seus direitos sem que a direita precise fazer muito esforço.

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