A Desindustrialização americana: make America great again!, por Paulo Gala e Andre Roncaglia

O filme 'American factory' que concorre ao Oscar de melhor documentário desse ano foi feito pela produtora de Obama e sua mulher Michele.

A Desindustrialização americana: make America great again!

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O filme ‘American factory’ que concorre ao Oscar de melhor documentário desse ano foi feito pela produtora de Obama e sua mulher Michele. Conta a história de uma fábrica em Dayton, Ohio que foi comprada por chineses para instalar uma planta de produção de vidros para indústria automotiva. No filme os chineses são “capitalistas vorazes” e os americanos “quase comunistas”. Com investimentos deU$500milhoes os chineses da fuyao compram as antigas instalações da GM que empregava 10.000 no local para fazer carros e SUV e quebrou em 2008. O filme gira em torno do choque de cultura entre 200 funcionários chineses e 1.300 americanos. O drama maior do filme está na te na tentativa de sindicalização dos trabalhadores americanos para se proteger da “exploração” chinesa. O alto comando chinês começa contratando gerentes e diretores americanos, mas a estratégia não funciona. Num segundo momento o presidente mundial da companhia coloca um chinês para gerir a fuyan América. O filme tem inúmeras nuances, vale muito assistir. No final da história os próprios americanos votam contaram a possiblidade de Sindicalização por medo de perder O emprego. Na China o sindicato é praticamente sócio da empresa, que tem membros do partido comunista em seu comando. O cunhado do presidente e dono da Fuyao diz que sem ajuda do governo central nada daquilo teria acontecido. “Capitalismo de compadres” por ali também!

Várias questões perpassam o enredo documentário. Como bem observa Obama comentando o filme não há linha editorial. Emerge uma realidade incrível, honesta e contraditória. O desemprego causado pela automação, a invasão dos chineses e asiáticos. Talvez o mais interessante do filme seja observar uma das voltas da “globalização”. Na antiga fábrica da GM o salário hora era de U$29,00 para entrantes, além de todos benefícios de plano de saúde e regras sindicais. A GM não aguentou o tranco da concorrência dos carros asiáticos (Hyundai, Toyota) e quebrou em 2008! Foi socorrida por Obama que depois produziu um filme para mostrar um pouco desse mundo. Uma empresa chinesa que produz vidros para carros se instalou no mesmo lugar e paga salários de u$14,00 a hora para americanos. A empresa high tech America que pagava ótimos salários quase quebrou. A empresa low tech chinesa avançou e entrou inclusive nos EUA para se aproveitar da mão de obra barata em próprio solo americano. A destruição da classe média americana aparece de forma clara no filme. Que tem na ascensão de uma classe média chinesa o reverso da medalha. Os salários nos EUA nunca mais subiram; na Ásia não param de subir. As empresas americanas sucumbem, as asiáticas avançam. O American Dream vira nightmare e desperta o sonho dos chineses!

Se é difícil subir a escada do desenvolvimento para alcançar o enriquecimento é igualmente desafiadora a tarefa de manter a sofisticação e complexidade das estruturas produtivas em face de grandes mudanças na estrutura global de produção. Recentemente o historiador de MIT, Peter Temin, em seu livro The Vanishing of the Middle Class (O desaparecimento da classe média), mostrou que os EUA vêm passando por um longo processo regressivo em sua estrutura produtiva com claros e nefastos efeitos concentradores da renda e da riqueza. Haveria um setor de Finanças, Tecnologia e Eletrônica (FTE) responsável por concentrar grande parte dos rendimentos totais do país, deixando uma parcela muito pequena do produto nacional para um vasto contingente de trabalhadores não qualificados alocados em setores de baixa densidade tecnológica. Para Lance Taylor, da New School for Social Research, em trabalho recente com a economista Özlem Ömer, esta dualidade resulta de um retorno da economia norte-americana a uma estrutura econômica muito desigual, em face de mudanças institucionais e tecnológicas profundas e da expansão chinesa. A China conseguiu deslocar para si grande parte dos empregos industriais de média complexidade dos EUA. A pesquisa mostra que a combinação dos efeitos das mudanças na produção e na produtividade fez que os “setores estagnados” (de baixa produtividade) absorvessem a maior parte da criação de empregos. A “aniquilação de empregos” se concentrou em setores como tecnologia da informação, atacado, varejo, agricultura e manufatura. A robotização, fruto do processo de automação que ocorre há mais de dois séculos, também teria contribuído para um crescimento mais lento do emprego, principalmente ao bloquear o acesso de jovens ingressantes na força de trabalho industrial (Taylor e Ömer 2019). Este desemprego industrial contribuiu com a compressão salarial de toda a economia e com a deterioração de numerosos centros urbanos dependentes da produção industrial, como Detroit e Flint, no estado de Michigan. A desigualdade econômica que daí resultou fez florescerem os recortes raciais e étnicos da polarização social e política que estaria por trás da eleição de Donald Trump. Daí decorre sua plataforma eleitoral de reconstrução da indústria americana que busca a volta dos bons empregos para o país. “Make America Great again”! Tudo isso podemos assistir no filme de modo bem claro!

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filme: https://www.huffpostbrasil.com/entry/industria-americana-netflix-obama_br_5d77cbc3e4b075210233dbf9

TAYLOR,L.; ÖMER, Özlem (2019) Where do profits and jobs come from? Employment and distribution in the US economy, Review of Social Economy, p. 1-20.

TEMIN, P. (2017) The Vanishing Middle Class: Prejudice and Power in a Dual Economy, Cambridge, MA, MIT Press, 256 p.

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1 comentário

  1. Há muitas questões aí:
    1. É possível que todas as nações do mundo sejam industrializadas e tenham uma crescente classe média, como a China? Me parece que não, pois com a tecnologia atual alguns poucos países e trabalhadores suprem a maior parte das necessidades industriais do mundo e a tendência do capitalismo é concentrar a produção para ganham escala e compensar as margens de luvro cada vez mais estreitas da produtividade elevada.
    2. Mesmo a classe média chinesa cresccendo, há no horizonte do país a possibilidade de algo como um estado do bem estar social, com a maioria da população de classe média e serviços universais? Outra vez, a resposta me parece ser não. O modelo da China é, em grande parte, de exploração do trabalho, para reduzir custos. Se o trabalho começar a ser mais bem remunerado, a automação substitui as pessoas, ocasionando desemprego estrutural, o que vai manter a maior perte do povo pobre. O crescimento da classe média é decorrente da China ser a fárica do mundo, como a Alemanha é da Europa, necessitando de trabalhadores intelectuais e pequenos empreendedores qualificados, mas não parece que a grande maioria da população chinesa será classe média em um futuro próximo ou distante.
    Em suma, na era da indústria 4.0, produsir não gera mais tanto lucro e nem necessita de muito trabalho humano. O capitalismo está sendo vítima de seu próprio sucesso e a maior parte da população está a caminho de se tornar supérflua para o sistema. A única solução é nos emanciparmos de capitalismo.

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