A transitividade do golpe na Bolívia, por Letícia Sallorenzo

Tá todo mundo incomodadíssimo com o sujeito Evo Morales acionando o verbo renunciar nas manchetes dos jornais.

A transitividade do golpe na Bolívia

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Tá todo mundo incomodadíssimo com o sujeito Evo Morales acionando o verbo renunciar nas manchetes dos jornais. “Ain, é a imprensa manipuladora!”, dizem todos. É uma ideia difícil de se sustentar quando vemos nos jornais europeus Evo Morales resigns ou Evo Morales est démissionaire. A mesma ideia de renúncia está contemplada em inglês e em francês (e, certamente, em várias outras línguas mundo afora). Tem mais borogodó nesse sopão sintático-semântico.

Antes de nos atracarmos com Evo e sua renúncia, vamos pensar na informação contida na frase

Maria morreu.

  • A oração é intransitiva. Isto significa que o enunciado só fala de Maria e o que aconteceu com ela.
  • A intransitividade do verbo morrer o envolve nesse frame de ausência de responsabilidade: estamos agora pensando que Maria morreu ao acaso, podia estar doente, ou foi vítima de alguma fatalidade. Em síntese: ninguém, além de Maria, está envolvido nessa morte. Tem só um aí nessa história.

Aí eu aviso a vocês que a frase da Maria é resultado de

José matou Maria.

e o caldo entorna todinho. Temos agora uma oração transitiva direta, que a tia Maricota te dizia lá no primário que “é composta por um verbo que precisa de complemento para fazer sentido”, e eu completo essa ideia com: “é um verbo que estabelece uma relação gramatical entre dois constituintes”. Trocando em miúdos:

  • A oração é transitiva direta. Temos um sujeito que aciona um verbo que, por sua vez, transita sua ação do sujeito rumo ao objeto direto (por isso ele se chama transitivo), alterando o estado final desse objeto direto. Temos um sujeito e um objeto unidos por um verbo. Tem mais de um aí nessa história.
  • A transitividade do verbo matar, ainda mais na voz ativa, o envolve nesse frame de causa e consequência: José Matou à Maria morreu. Temos, semanticamente, um agente e um paciente, um responsável e uma vítima. Temos, ora vejam vocês, uma relação de poder! (Marxista é a mãe! Isso aqui é sintaxe, mané! Te abanca aí e fica quietinho!)
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Uma vez entendida toda essa sintaxe e essa semântica do verbo morrer em comparação com o verbo matar, fica mais fácil explicar a diferença entre renunciar e depor:

Evo renuncia. à temos uma oração intransitiva. Apenas Evo está acionando o verbo. Apenas Evo está envolvido na história. Evo fez isso porque quis.

[Insira aqui o sujeito/agente de sua preferência] depõe Evo à Temos o verbo depor que, por precisar de complemento, ou seja, ser transitivo direto, estabelece uma relação entre dois constituintes da oração. De novo, temos um sujeito e um objeto unidos por um verbo. Tem mais de um aí nessa história.

Observem que o que aconteceu na Bolívia em 10 de novembro tá mais pra oração transitiva direta (X depõe Evo), mas uma vez que Evo Morales é um presidente de nação, costuma-se jogá-lo para a frente da frase. Neste caso, precisamos de uma voz passiva:

Evo é deposto por [aquele mesmo sujeito/agente lá de cima, que agora vira adjunto adverbial e perde importância e relevância].

E, assim como matar e morrer têm diferenças legais (Maria morreu não implica Maria em crime algum, já João matar Maria é crime de assassinato), renunciar e depor também têm uma diferença tão sutil quanto canalha: renúncia é um ato previsto por lei. Ao presidente é facultado o direito de renunciar, ato que pode ser efetuado dentro da normalidade institucional. Já depor, não tem jeito: é golpe.

Lembrando ainda que sociólogo com pós-doc em ditaduras, mais antropólogo que estuda direita radical, e cientista político especializado em Bolívia são um monte de intelectuais lindos e perfeitos que não precisam gastar currículo Lattes à toa ao pensar sobre o que aconteceu na Bolívia:

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1) Teve exército

2) Exército armado

3) Apontando as armas para Evo Morales

4) E dizendo: ou você sai ou você e sua família morrem (imagino que deva ter sido algo em torno dessa expressão, mas, certamente, algo bem distante de “senhor, por obséquio, queira estar se retirando?”)

Acho que esses quatro elementos são suficientes pra qualquer miliciano ou jagunço semianalfabeto concluir que foi golpe, sim.

A análise desses dados é simplíssima!

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5 comentários

  1. Caraca, sra. Letícia ! Considero Yuval Harari um dos grandes sábios da atualidade. Ele teria dito no “Roda Viva”, não vi o programa mas verei no You Tube, que não tem telefone celular. Estou supondo (gerúndio permitido ?) que a Sra. também não tenha.

  2. Acho que eu entendi:
    A “bagaça” ficou de molho, foi lavada e torcida para criar confusão na hora da retirada dos direitos e dos bens dos bolivianos.
    Igualzin fizeram naquele grande pais bananeiro, vizinho da Bolívia!

  3. Mas se é para ampliar a história, melhor partir do começo.

    Evo não poderia legalmente se candidatar ao quarto mandato. Inventou um plebiscito para perguntar se o povo concordava com isso e perdeu. Foi ao STF da Bolívia, controlado por ele, e passou por cima da lei e do resultado do plebiscito. Na eleição, acionou o TSE da Bolívia, controlado por ele, para fraudar a apuração. Parte do povo se revoltou com a sequência de golpes. Vendo que ele pretendia continua usando todas as armas que tinha para se manter no poder a oposição usou as suas. Pressionado, Evo renunciou.

    E isso acaba sendo correto porque – lembremos do início para fechar o ciclo – Evo não poderia nem se candidatar ao quarto mandato. Assim, embora não seja totalmente adequada, a formulação “Evo renunciou” acaba descrevendo melhor a situação do que a enrolação da madrasta da verdade.

    • Não vou palpitar sobre suas querelas com a Leticia, ela não necessita de minha inoportuna intromissão. Apenas lembro que Evo foi golpeado num mandato em vigor e não naquele para o qual teria sido “ilegalmente” reeleito. Portanto, golpe sem “duvidamente”.

  4. Que lição para a Nação Brasileira !!! Poucas vezes na História tivemos tantas oportunidades de nos antecipar aos fatos, como as consequências políticas no Chile, Argentina, Peru, Venezuela ou Bolívia. Agora a situação da Venezuela não parece tão impar, catastrófica e simplista. Aprenderemos com os erros dos outros? Aprenderemos com a História? Deixaremos o cabresto e a doutrinação impostos em 9 décadas de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista? Caudilhismos e DonSebastianimos ficarão no infeliz passado? Começaremos a Nos enxergar com a Nação-Continente que sempre Fomos, até a Quartelada QuintoMundista de baixa patente de 1930?

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