Acidentes de trânsito afetam diretamente o SUS

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o risco no trânsito é três vezes maior nos países de baixa renda. Para a pesquisadora, o dado aponta para um cenário de desigualdade.

do CEE Fiocruz

Acidentes de trânsito afetam diretamente o SUS

por Daiane Batista

Violência no trânsito – e suas consequências – é questão de saúde pública. A cada ano, em todo o Brasil, os acidentes de trânsito matam cerca de 40 mil pessoas e, para cada morte a eles relacionada, sete vítimas permanecem em UTI. “O Sistema Único de Saúde (SUS) fica com o ônus de atender essas pessoas. Isso é um problema sério, tanto do ponto de vista social, quanto da política de saúde”, destaca a pesquisadora Ednilsa Ramos, do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Ensp/Fiocruz), em entrevista ao blog do CEE-Fiocruz.

Ednilsa chama atenção para banalização das mortes no trânsito e fala da responsabilidade do Estado na adoção de medidas que previnam o problema.

“Flexibilizar as leis de trânsito é um retrocesso enorme no que se refere às medidas de prevenção”, observa a pesquisadora, em referência à proposta governamental de estender a validade da carteira de motorista, diminuir o peso de infrações para infrações como uso de capacete sem viseira nas motos e acabar com a multa para condutores que transportarem crianças fora de cadeirinhas de retenção.

“Sabemos que mudar o comportamento das pessoas no trânsito é difícil. No Brasil, as pessoas culturalmente cometem muitas infrações no trânsito. Mudar por meio de um decreto medidas que foram conquistadas com tanta luta e discussão vai no sentido oposto de um esforço para proteger a vida”, analisa.

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Ednilsa aponta que, em 2017, foram registradas mais de 36 mil mortes por acidentes de transporte, cujas principais vítimas foram motociclistas. “Não há interesse em investigar as mortes nas rodovias, as pessoas entendem isso como um mero acidente”.

Mudar por meio de um decreto medidas que foram conquistadas com tanta luta e discussão vai no sentido oposto de um esforço para proteger a vida (Ednilsa Ramos, Claves/Ensp/Fiocruz)

Segundo dados do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), organização voltada a desenvolver ações que contribuam para redução dos índices de acidentes no trânsito no país, o número de internações por essa causa gera ao sistema público de saúde custo anual de R$ 52 bilhões. “As internações hospitalares afetam sobretudo as emergências”, aponta Ednilsa. “Em 2018, tivemos 209 mil internações por acidentes de transporte dos quais 78% foram de pessoas do sexo masculino, entre 20 a 39 anos, e 7.145 internações de crianças de 0 a 9 anos por acidente de trânsito”, completa.

Edinilsa lembra que, em 2011, dezenas de países, entre eles o Brasil, se comprometeram com a Organização das Nações Unidas (ONU) a tomar novas medidas para prevenir os acidentes no trânsito, nona causa de mortes em todo o mundo, superando o número de suicídios ou assassinatos por arma de fogo. Em 2018, foram 1,35 milhão de mortes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o risco no trânsito é três vezes maior nos países de baixa renda. Para a pesquisadora, o dado aponta para um cenário de desigualdade. “No Brasil, acidente de trânsito e homicídio constituem mais de 50% das mortes por causas externas”, destaca. “São quase 40 mil pessoas mortas devido ao trânsito. É preciso estarmos conscientizados em relação a isso. A prevenção por meio das leis é muito importante e entender e valorizar essas medidas é essencial para proteção da vida”, conclui.