As histórias culturais dos dois lados do Atlântico

Novo número da Revista USP traz dossiê sobre projeto de cooperação internacional entre Brasil e França

Arte sobre foto de capa/Revista USP 123

do Jornal da USP

As histórias culturais dos dois lados do Atlântico

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Revista USP acaba de lançar seu número 123, que traz em destaque o dossiê Histórias Culturais Transatlânticas. Organizado pelos pesquisadores franceses Anaïs Fléchet (Departamento de História da Université Versailles Saint-Quentin-em-Yvelines) e Olivier Compagñon (Institut des Hautes Etudes d’Amérique Latine da Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3) e pela brasileira Gabriela Pellegrino Soares (Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH da Universidade de São Paulo), o dossiê apresenta resultados do projeto de cooperação internacional Transatlantic Cultures – Cultural Histories of the Atlantic World 18th-21dt Centuries.

Financiado pelas agências de pesquisa Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e ANR (Agence Nationale de la Recherche), o projeto, como informam os organizadores na apresentação da revista, é voltado à construção de uma plataforma digital de livre acesso, reunindo narrativas sobre as dinâmicas de circulação cultural que, na época contemporânea, entrelaçam regiões do espaço atlântico (compreendendo a Europa, a África e as Américas). “A plataforma, em fase de experimentação, está baseada na Digital Humanities open plataforma – TGIR Huma-Num, vinculada ao CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), na França”, completam.

Selo comemorativo do centenário de nascimento de Fernando Ortiz, intelectual cubano conhecido pela criação do conceito transculturação. | Imagem: 123RF/Sergey Galyamin

Ao lado das equipes, brasileira e francesa, o projeto ainda conta com uma extensa rede de colaboradores de diferentes países e instituições, e “as abordagens desenvolvidas dialogam com correntes hoje em voga no campo da história – as chamadas histórias conectadas, a história transacional, a história global”. Esse “laboratório” vai capturar os processos de mundialização e globalização cultural desde o final do século 18. “Nosso objetivo não é traçar um panorama exaustivo desses intercâmbios – o que naturalmente seria impossível –, mas propor uma reflexão crítica sobre as circulações e a mundialização cultural, assim como sobre os processos identitários e as fronteiras (políticas, linguísticas, culturais e simbólicas) que contribuíram para o estabelecimento e para a renovação dos grandes ares culturais no transcorrer dos últimos séculos”, concluem.

O dossiê reúne seis artigos de pesquisadores brasileiros, membros da equipe de colaboradores do projeto. Entre eles, Fernando Ortiz e a rede transatlântica de intercâmbios, de José Luis Bendicho Beired, que trata da trajetória do intelectual cubano Fernando Ortiz (1881-1969), conhecido pela criação do conceito transculturação, iluminando suas contribuições pioneiras para o estudo da população negra em Cuba, no campo da história e da cultura. Outros dois ensaios tratam da música: Cartografias transatlânticas da música popular nas Américas, produzido por Marcos Napolitano, percorre territórios da história da música popular em que se captura a circulação e reinvenção de instrumentos, ritmos e sonoridades, colocando em evidência apropriações musicais africanas e europeias nas Américas; e Música de concerto no Brasil: O modernismo musical e suas circulações transatlânticas, de André Egg, aborda o movimento a partir de duas personalidades da Semana de Arte Moderna: Mário de Andrade e Heitor Villa-Lobos.

Leia também:  O “Conselho” das grandes corporações empresariais, por Ricardo Fagundes da Silveira
Capa de um disco gravado para a Coleção Archive of Folk Song, projeto de Alan Lomax, assunto abordado no artigo sobre Música de Concerto no Brasil

Há também um artigo de Alexsandro de Sousa e Silva sobre a produção da cineasta Sarah Maldoror (Guadalupe, Antilhas), que, segundo os organizadores, mesmo tendo estudado na Rússia e com carreira na França, fez da África e da denúncia à violência colonial em meio às guerras da independência objeto principal de sua produção. Completam o dossiê os artigos As três eras do Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro; e O cinema em perspectiva transatlântica: práticas históricas e culturais nas exposições universais, de Eduardo Moretin.

A cineasta Sarah Maldoror, em fotografia de Suzanne Lipinska, durante filmagem de Fuzis para Banta, em 1970. | Foto: Reprodução

Além do dossiê, a Revista USP ainda traz, na seção Arte, uma reflexão de Alecsandra Matias de Oliveira (Associação Brasileira de Críticos de Arte) sobre o painel Etnias: do primeiro e sempre Brasil, da artista plástica Maria Bonomi, exposto desde 2006 no Memorial da América Latina, em São Paulo. Segundo a autora, “a instalação conta a história do Brasil, do período colonial à atualidade, com uma série de fotogramas gigantes e penetráveis”. E, na seção Textos, Charles Darwin (1809-1882), que em 2019 comemorou os 210 anos de seu nascimento e os 160 anos da publicação de sua obra fundamental A origem das espécies, é revisitado em artigo escrito por Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP).

A artista plástica Maria Bonomi durante a confecção de um dos painéis de Etnias, analisado na Seção Arte. | Foto: Angela Balbour

A “Revista USP” número 123 tem 164 páginas e é uma publicação da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP. Mais informações pelo telefone (11) 3091-4403. A edição completa da revista está disponível gratuitamente neste link.

 

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