Avise a esquerda: luta de classes existe, e está em Brumadinho e no CT do Flamengo, por Wilson Ferreira

Depois de colocar Lula na prisão perpétua e por os militares no Governo, agora o novo papel da Globo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete

Avise a esquerda: luta de classes existe, e está em Brumadinho e no CT do Flamengo

por Wilson Ferreira

Cansada de tantas derrotas nos últimos tempos, a esquerda simplesmente comemora como fosse um gol a forma como a Globo detonou a ministra Damares Alves no quadro “Detetive Virtual” no Fantástico do último domingo. Uma detonação bem seletiva: enquanto a emissora demonstra toda sua indignação e furia investigativa nas questões identitárias e de costumes (vide a caça aos abuso sexuais de João de Deus), as tragédias de Brumadinho e do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo são encaixadas na narrativa “tragédia-emoção-homenagens” – com direito a Galvão Bueno narrando os nomes dos jovens atletas mortos… Depois de colocar Lula na prisão perpétua e por os militares no Governo, agora o novo papel da Globo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete – cônscia de que, a partir de agora, acidentes como esses e a tensão social tenderão a crescer sob o modelo econômico de extrativismo selvagem: vender commodities módicas como ferro, manganês e jovens jogadores. Tudo a baixo custo, no limite da irresponsabilidade. Enquanto isso, sem se ater à tática semiótica de dissonância posta em ação pela parceria Governo/Globo, a esquerda reage de forma reflexa a cada bravata “politicamente incorreta” e esquece da luta de classes. 

Enquanto a esquerda vibra com o quadro do Fantástico chamado “Detetive Virtual”  que desmentiu as afirmações bizarras da ministra Damares Alves (“Estamos vivendo numa ditadura gay”, “Europa ensina a masturbar bebês”, entre outros delírios), a Globo continua com suas feitiçarias semióticas – depois da missão cumprida colocando Lula na prisão perpétua e entronar um governo militar, agora seu escopo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete.

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Afinal, os feiticeiros da emissora sabem: o acerto de contas neoliberal sem limites, prometido contra as garantias e direitos sociais (chamado de “reformas”), daqui em diante somente vai acirrar as tensões sociais, ao retroceder o País a um regime econômico extrativista colonial  – relegando à condição de país sub-industrial, mero exportador de commodities (produtos primários de baixo grau de transformação).

Mas a esquerda parece hipnotizada pela estratégia dissuasiva de criação sistemática de dissonâncias por parte do atual governo: colocar ministros falastrões e delirantes para desviar a atenção com seus ataques a questões culturais, identitárias e de costumes progressistas. Talvez por falta do que comemorar nos últimos tempos, quando vê uma emissora como a Globo apontar seus canhões contra essas figuras, a esquerda vê nesses eventos a oportunidade de revanche, raros momentos de prazer e comemoração como fosse um gol.

Porém, a mesma fúria investigativa demonstrada pela emissora, por exemplo, na caça a João de Deus, seus assédios e abusos sexuais da pedofilia a agressões físicas, até aqui não foi demonstrada nas duas últimas tragédias em um país com uma atmosfera cada vez mais pesada, triste e soturna: o genocídio de Brumadinho e a negligência do Flamengo por trás do incêndio do alojamento e centro de treinamento chamado “Ninho do Urubu”, matando dez jovens atletas.

A seletiva fúria investigativa da Globo contra João de Deus

Fúria Seletiva

Estrategicamente, o furor investigativo e indignação do jornalismo global é muito bem seletivo: enquanto os ataques aos temas identitários e agendas de costumes progressistas do atual governo de ultradireita merecem indignação e caras de espécie de jornalistas e apresentadores, os acidentes criminosos de Minas Gerais e Rio de Janeiro apenas merecem a velha narrativa da tragédia-emoção-homenagens.

Enquanto a cobertura da catástrofe de Brumadinho vai ampliando espaço para as “boas notícias” e “homenagens” (doações em dinheiro da Vale para as famílias, as aulas que voltam depois da tragédia, tudo no tom lacrimoso de praxe), vemos no Fantástico familiares dos jovens atletas mortos no gramado do Maracanã de mãos dadas em volta das quatro linhas, enquanto no telão aparecem, um a um, as fotos da vítimas e a indefectível voz de Galvão Bueno dizendo o nome dos atletas – afinal, o onipresente locutor já havia narrado o velório do time da Chapecoense…

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O “sanduíche” semiótico

A narrativa tragédia-emoção-homenagem

A “pegadinha” semiótica foi a narrativa, por assim dizer, “sanduíche”: para começar, as emotivas imagens do Maracanã narrado por Galvão Bueno. Em seguida uma reportagem comprometedora sobre a negligência do Flamengo (um grande container, com apenas uma porta, sem rota de fuga, janelas gradeadas e parede recheada com isolante térmico/acústico do mesmo material tóxico da trágica Boate Kiss). E para finalizar, mais matérias de cunho passional: homenagens, aplausos e relatos emocionados dos familiares sobre sonhos interrompidos. Espremida entre matérias de cunho passional, a matéria sobre a apuração das responsabilidades perde a força.

Somente ontem o JN carregou nas denúncias de irregularidades (certamente pressionado por emissoras concorrentes como a ESPN, que apresentou em destaque os laudos recentes da prefeitura do RJ mostrando as gambiarras elétricas, deterioração e mofo nas instalações), mas sempre no “sanduíche” do “voice roll” lacrimejante – discurso vocal com ritmo para criar audição imersiva de sensações – clique aqui sobre o kit semiótico de manipulação das multidões.

É evidente que a Globo participa deliberadamente nessa treinada tabelinha com os delirantes e falastrões ministros e generais do governo atual – enquanto o jornalismo é “contra” a regressão das pautas identitárias e de costumes, por outro lado fecha incondicionalmente com a agenda neoliberal que vai rifar todas as conquistas políticas, constitucionais e econômicas de décadas.

É a luta de classes, estúpido!

Por que? É a luta de classes, estúpido! Daqui em diante as tensões sociais serão crescentes. E Brumadinho, combinado com o incêndio no Ninho do Urubu, é apenas a ante-sala daquilo que nos aguarda.

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Foram dois acontecimentos com a mesma matriz causal: a radical conversão do Brasil em uma economia extrativista, transformando as riquezas nacionais em commodities módicas, mas com alto custo social.

Se não, vejamos. Em Minas, enquanto os trabalhadores da Vale morrem sob o tsunami de lama descendo a 80 km/h da barragem de rejeitos tóxicos, os únicos personagens responsabilizados e presos (com toda a pompa da meganhagem policial nas telas da TV) foram dois engenheiros de empresa terceirizada que concedeu laudo de segurança e três funcionários da Vale. Enquanto CEO e executivos da empresa seguem sem serem molestados, recebendo seus polpudos salários e bonificações, sob o beneplácito da grande mídia.

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1 comentário

  1. É muita ingenuidade achar que os “ministros bufões” estão lá para “desviar a atenção” do que “realmente interessa”. Ao contrário, a agenda deles é absolutamente central para o governo Bolsonaro. E, por falar nisso, faz parte integral da luta de classes.

    O que a Globo faz é outra coisa: colocar os problemas “identitários” sob a ótica do linchamento. Com isso, pretende abduzir a justa indignação com estupradores, pedófilos, etc., em apoio a medidas legais draconianas, e em erosão do devido processo legal.

    Tentar fazer a mesma coisa nos casos que o Wilson ingenuamente acha que são “a verdadeira” luta de classes, isto é, incentivar o linchamento, real ou simbólico, dos responsáveis pelas chacinas de Brumadinho e do Flamengo, como se todos os problemas, inclusive a luta de classes, pudesse ser resolvido através de mais leis, leis mais rígidas, ou permissão aos cidadãos privados para resolverem os problemas através da violência, também é fazer o jogo da direita.

    Aliás é curioso que o Wilson, sempre tão ciente da importância do simbólico, descambe para essa posição semi-estalinista, segundo a qual as questões “simbólicas” – misoginia, homofobia, etc. – são secundárias ou mesmo simples “teatro” para enganar as massas, enquanto a “verdadeira luta de classes” é uma coisa bem material, “coisal” e portanto “realmente real”… em outras palavras, como se a pressão violentíssima contra as mulheres brasileiras, com ameaças até mesmo ao livre acesso aos anticoncepcionais, fosse uma bobagem, uma simples fantasia, e não um instrumento central de reprivatização do cuidado, única forma de tornar minimamente viável uma “reforma” da Previdência que condena os trabalhadores a nunca se aposentarem!

    Parece até que o importante é sempre dizer que “a esquerda está errada”, ou “sendo ingênua”.

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