Cerco à Huawei pressiona empresas alemãs de tecnologia

Alemanha cada vez mais dividida entre a aliança estratégica com Washington e os interesses comerciais com Pequim

Foto: Reuters/Andreas Rinke

do Observatório Político dos Estados Unidos – OPEU

Cerco à Huawei pressiona empresas alemãs de tecnologia

por Solange Reis

A guerra comercial entre Estados Unidos e China começou a envolver outros países. Entre eles, a Alemanha, cada vez mais dividida entre a aliança estratégica com Washington e os interesses comerciais com Pequim. Em 20 de maio, uma grande produtora de semicondutores alemã suspendeu alguns embarques para a Huawei, a gigante chinesa de tecnologia de comunicação. Em obediência a uma determinação que partiu de Washington, a Infineon interrompeu a exportação de produtos originados nos Estados Unidos.

Marginalização da concorrência

O motivo foi a decisão do Departamento do Comércio (DoC) dos Estados Unidos, na semana passada, de incluir a Huawei na “Entity List”, ou Lista de Entidade. Segundo o Escritório de Indústria e Segurança do DoC, “pode ser incluída na Lista de Entidade uma parte estrangeira, como um indivíduo, uma empresa, uma instituição de pesquisa ou uma organização governamental, por envolvimento com atividades contrárias aos interesses da segurança nacional e/ou de política externa dos Estados Unidos”.

No país que se apresenta como símbolo do livre mercado, empresas americanas que queiram exportar para um nome da lista deverão obter licença prévia do DoC. O mesmo se aplica às estrangeiras cujas exportações para os listados contenham produtos fabricados com uma determinada quantidade de material americano. Exportadores que descumprirem a regra poderão integrar eles mesmos a lista.

A Huawei faz parte da lista, e o cerco à empresa já ganhou contornos policiais e criminais. Meng Wanzhou, diretora-financeira e filha do fundador, está presa há meses no Canadá sob acusação de espionagem e de negociar com o Irã. A executiva aguarda a análise canadense sobre o pedido de sua extradição para os Estados Unidos.

Entre dois mercados

A Infineon diz que a suspensão é temporária, até que empresa avalie as implicações legais de seguir vendendo produtos com componentes americanos para a Huawei, ou seja, a maioria deles. Diante de dilemas comerciais e de nuances políticas, a Infineon protagoniza um drama comum a muitas empresas e países.

A companhia chinesa corresponde a apenas 2% da receita da empresa alemã, mas o mercado chinês representa um quarto das vendas da Infineon, contra 9% do que ela exporta para os Estados Unidos. Além disso, a Infineon fez uma joint venture com a SAIC, o maior fabricante de carro chinês, a fim de produzir módulos de energia para carros elétricos. Outro interesse da alemã na China é a parceria com o Alibaba, o super poderoso site de comércio online chinês, para desenvolvimento de aplicativos da internet das coisas (IoT, na sigla em inglês). A IoT, a grosso modo, é a conexão de coisas, pessoas e animais à internet através de identificadores digitais.

O quadro é diferente para a Deutsche Telekom, mas o dilema comercial é o mesmo. Através de sua subsidiária, T-Mobile USA, a empresa tira 48% de sua receita do mercado nos Estados Unidos. Para se juntar à americana Sprint, a Deutsche Telekom teria aceitado suspender o uso de tecnologia 5G da Huawei, de modo a garantir a aprovação da fusão pela Federal Communications Commission (FCC) dos Estados Unidos. Como a empresa já gastou mais de €2 bilhões com equipamentos 5G da Huawei, para implantar essa velocidade de internet na Alemanha, a decisão não é só comercial, mas também política.

Leia também:  O enfrentamento do fascismo cultural, por Ion de Andrade
Capitalismo submisso

Valerá a pena sacrificar projetos comerciais de tal vulto para jogar o xadrez do poder a favor dos Estados Unidos? Qual lógica do capitalismo explica a submissão de uma empresa aos interesses de política externa de um país que não o seu? A resposta não será facilmente encontrada em manuais de cursos de marketing e vendas, nem nas bíblias sobre liberalismo. É preciso entender a questão pela ótica da política de poder mundial.

Com sua grande estratégia de hegemonia mundial, os Estados Unidos submetem os aliados a decisões muito difíceis. É o caso da pressão para que isolem o Irã. Outra coisa bem mais dura é fazê-los boicotar a China, uma potência econômica e financeira que possui o maior mercado consumidor do mundo e ruma para a liderança tecnológica global.

No caso da Alemanha, as relações financeiras e tecnológicas com a China não param de crescer. A DAX, bolsa de valores alemã, tem 22% do retorno gerado nos Estados Unidos, contra 21% na própria Alemanha e 16% na China. A tendência é de aumento do último índice.

Sem a Huawei, a instalação do 5G na Alemanha poderá demorar mais dois anos, causando impacto na competitividade industrial do país no momento em que a tecnologia aporta desenvolvimentos decisivos. É por essa razão que o governo alemão adota um posicionamento bastante cauteloso. A despeito das ameaças que partem da Casa Branca, ainda não cedeu à pressão política. Em março, o embaixador americano em Berlim, Richard Grenell, enviou uma carta ao governo em Berlim, dizendo que se a Alemanha não desistir de construir uma infraestrutura 5G com produtos da Huawei, o país não mais receberá informações de inteligência. Os americanos alegam que os produtos da Huawei possuem backdoor, mecanismo que permite captura de dados e espionagem, colocando em risco a segurança nacional de países que utilizem seus equipamentos.

Leia também:  Teoria moderna da moeda é da hora, por Fernando Nogueira da Costa
Para fora da pista

A decisão da Infineon e de outras estrangeiras apenas dificulta o que vem se tornando uma dura realidade para a Huawei. Desde que se viu como novo pivô da guerra comercial entre Estados Unidos e China, a empresa enfrenta boicote de produtos necessários para fabricar seus equipamentos. Qualcomm, Qorvo, Intel, Micron Technology e Western Digital – todas americanas – já suspenderam a venda. Prevendo o bloqueio, a Huawei providenciou estoques estimados em até um ano de produção.

COS, o Android chinês

O embate é profundo e tem potencial para grandes transformações na distribuição de poder na cadeia tecnológica global. O Google, que fornece o sistema Android para os smartphones da Huawei, anunciou a suspensão do serviço. Isso implica que os aparelhos não receberão atualização de aplicativos como Gmail e Google Maps. Como o Google domina o sistema Android, e a Apple entrega o IOS, a única alternativa para a Huawei é a China desenvolver um sistema operacional próprio.

No dia 24, a Huawei anunciou que é exatamente isso o que pretende fazer. Seu sistema operacional, o COS (China Operating System), será lançado ainda neste ano, com uma versão para o mercado internacional prevista para 2020. Mas somente caso a empresa não possa continuar usando o sistema Android, do Google, e o Windows, da Microsoft, garantem seus executivos. O COS utiliza a código de linguagem Linux. Ter o fluxo de fornecimento de semicondutores, como os da Infineon, é fundamental para esse objetivo.

Pelos próximos 90 dias, o Google continuará fornecendo as atualizações para a Huawei, período de isenção autorizado pelo Departamento de Comércio. Após esse prazo, a empresa chinesa terá de recorrer a seus próprios recursos, ou deixar na mão os usuários de seus smartphones no mundo todo.

Leia também:  Filme "Coringa": cultura cosplay e copycat gerou o Palhaço do Crime, por Wilson Ferreira

Consumidores na Europa, onde os smartphones da Huawei dominam, serão muito prejudicados. A Europa foi estratégica para a Huawei se lançar no mundo, com a empresa investindo por mais de duas décadas no continente, trabalhando junto a governos e operadoras de rede.

Caso a Huawei desenvolva um sistema compatível, após superar muitos outros obstáculos para torná-lo confiável quanto à segurança de dados dos usuários, as empresas americanas irão sofrer um efeito bumerangue. Afinal, quase metade dos aparelhos que usa o sistema Android no mundo é fabricada na China. Assim, haveria o risco de o Google perder uma enorme fatia de mercado.

Importância do 5G

A geração 5G tem uma velocidade elevada, e possibilitará a ligação de aparelhos domésticos e máquinas industriais à internet das coisas. Por não depender de fibra ótica, o 5G terá uma distribuição de grande alcance. Dominar o 5G é garantir a pole position em uma nova fase do capitalismo. A China tem feito os melhores tempos nos treinos, mas está longe de controlar os bastidores das regras, que mudam a critério de eventuais retardatários poderosos.

No Brasil, onde mais de 1.200 municípios não têm acesso à geração 4G, o 5G só deverá chegar a partir de 2021. Antes disso, uma série de entraves regulatórios e de investimentos precisará ser superada. Uma grande barreira é política. Os equipamentos da Huawei são os melhores e mais baratos no mundo, mas o alinhamento do atual governo brasileiro aos interesses dos Estados Unidos não ajudará a colocar o Brasil na vanguarda tecnológica.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

2 comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome