Comediante ganha eleições presidenciais na Ucrânia: quando guerra híbrida vira “gamecracia”, por Wilson Ferreira

Nada prometeu, não fez comícios, fugiu de debates e não deu entrevistas. Usou principalmente redes sociais para atrair os votos dos mais jovens com vídeos divertidos.

por Wilson Ferreira

“Prometo que nunca vou desapontar vocês!”… Mas também ele garantiu na campanha eleitoral: “Se não tem promessas, não tem decepção!”. Ele nada prometeu. Nem debateu ou deu entrevistas. Ele venceu as eleições presidenciais na Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, comediante e ator da série televisiva “Servo do Povo”: na ficção ele é presidente da Ucrânia desde 2015. Na vida real ganhou as eleições nesse domingo, 21. Mais uma confirmação do célebre clichê de que “a vida imita a arte”? Quando sabemos que o cenário político ucraniano é estratégico para a guerra híbrida engendrada pela geopolítica dos EUA, começamos a perceber que a realidade vai muito além desse clichê. Principalmente quando também sabemos que a quatro dias antes das eleições, o Canal 1 + 1 lançou a última temporada da série de Zelenskiy. Trump, Bolsonaro, e agora Zelenskiy, são espécimes de um novo paradigma da política: a gamecracia – realidade e ficção se confundiram a tal ponto que se transformaram em jogo.

Ele já presidia o país desde 2015. Pelo menos no campo da ficção, o que nesses tempos de midiatização da política (primeiro pelas mídias de massas, depois através das redes sociais), que se transformou num importante instrumento de guerra híbrida, a diferença realidade/ficção parece pouco importar.

Ao lançar-se como candidato à presidência, transformou sua inexperiência como ponto forte de campanha. Criou a imagem de si mesmo como um outsider que desafiava a “velha política”. Aos 41 anos, fez questão de demonstrar que não tinha conhecimento aprofundado sobre qualquer tema. Limitou-se à narrativa de ser o “novo”, o “diferente” e insistir na necessidade do combate à corrupção.

Não, isso não foi no Brasil. Estamos falando sobre a vitória de Volodymyr Zelenskiy nas eleições presidenciais da Ucrânia nesse domingo (21). Ator e comediante, bateu no segundo turno o atual presidente Petro Poroshenko, depois de também vencê-lo no primeiro turno.

Zelenskiy se tornou famoso no país pela série televisiva Servo do Povo (Sluga Naroda, 2015-) sobre a história de um professor de ensino médio que acidentalmente se torna presidente depois que seu personagem faz um ardoroso discurso contra a política ucraniana e viraliza nas redes sociais.

Comediante que vira presidente por acaso numa série de TV, continuou como ator durante a campanha

Detalhe: o canal de TV 1 + 1 (emissora do bilionário empresário Igor Kolomoyskyi e que francamente apoiou o comediante) começou a exibir a última temporada do Servo do Povo quatro dias antes das eleições ucranianas.

Sem promessas, sem decepção!

“Se não tem promessas, não tem decepção!”. Essa foi uma das frases memoráveis da campanha de Zelensky, claramente bebendo na fonte do niilismo político que atravessa um dos países mais pobres da Europa, com 45 milhões de habitantes.

Tudo poderia ser apenas um bizarro fato curioso, não fosse a Ucrânia, ao lado da Síria, um dos palcos da guerra híbrida da geopolítica dos EUA para dificultar o projeto conjunto da Rússia e China para criar uma nova Rota da Seda.

Para começar, a insólita estratégia discursiva da “autoproclamação”. Juan Guaidó, líder da oposição parlamentar na Venezuela, repentinamente se autoproclamou presidente do país: se no mundo real a derrubada do presidente Nicolas Maduro não deu certo, a mídia empossou Guaidó criando um inusitado golpe virtual – sem falar no detalhe da semelhança fisionômica e física com o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, numa óbvia tática de criação imaginária de identificação e empatia.

Numa variante desse “golpe virtual”, o canal 1 + 1 promove o ator Zelenskiy a presidente no campo da teledramaturgia: estratégia psy opde pré-condicionamento político. Campanha de guerra psicológica que sempre está nas bases das “revoluções coloridas” com o mesmo discurso ambíguo da depreciação da política ao lado do discurso do “novo” na política, de forma recorrente por meio de candidatos que desprezam os canais democráticos de mediação e representação – debates, comícios, partidos etc.

Inversão Ficção/Realidade

A guerra híbrida apenas potencializou um fenômeno que Walter Benjamin já havia detectado no nazi-fascismo: a estetização da política. O que esse humilde blogueiro conceitua como “canastrice política” – Hitler e Mussolini emularam personagens dos filmes mudos com seus gestos que quase se assemelhavam às pantomimas das comédias pastelões.

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1 comentário

  1. O autor do artigo coloca mais adiante no texto que não está aqui, a seguinte frase:
    “A origem pode até ser a mesma: o niilismo político. Mas figuras como Trump, Bolsonaro e, agora, Zelenskiy, são resultantes de uma elaborada operação psicológica que transforma a política em um game, a gameficação da Política, a “Gamecracia” na definição de Alex Gekker….”
    Porém, a situação retrata simplesmente uma aventura que o grande capital se lança para cobrir algo bem mais grave da eleição de palhaços para o governo, é o fim da democracia burguesa puxada pelo impasse atual do capitalismo.

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