Como a construção de narrativas é usada para promover o genocídio brasileiro, por Letícia Sallorenzo

Agora eu vou falar uma coisa que você deve ter pensado lá em cima: por que diabos falar em discurso, em narrativa, numa hora dessas?

Discurso numa hora dessas?

Ou como a construção de narrativas é usada para promover o genocídio brasileiro

por Letícia Sallorenzo

Eu estou digitando este texto no meu computador na força do ódio, da raiva. Com sangue nozóio. Peço desculpas, mas ao final do texto, vocês vão entender por que.

Bora lá botar seus neurônios pra funcionar. Vamos pensar aqui:

Antes da epidemia de Covid, quando o adjetivo PRECOCE era usado em textos sobre medicina?

Acertou quem falou em câncer.

Quanto mais PRECOCE for o diagnóstico, mais bem sucedido será o tratamento contra o câncer, não?

Então, temos um adjetivo (precoce) acionando ideias de positividade e esperança que anulam as ideias de desespero, medo, insegurança e pavor de um diagnóstico (câncer) que, para muitos, ainda é sinônimo de morte. Releia o parágrafo anterior, e perceba a associação de ideias entre as palavras precoce, esperança e positividade, em contraponto a medo, insegurança e morte.

E não é só no tratamento do câncer que a palavra precoce é muito usada. Qualquer outro tratamento medicinal que contenha a palavra precoce é quase sinônimo de eficácia. (neste momento, me lembro de geriatra dizendo que as consultas a esses especialistas devem começar aos 25/30 anos).

O que os arrombados da cloroquina (eu disse que estava movida pelo ódio, não disse?) estão fazendo para forçar o consumo de remédios ERRADOS para o combate à covid?

1- Saem de campo os nomes dos remédios. Não se fala mais em ivermectina (que é extremamente eficaz. CONTRA PIOLHO E CARRAPATO. Contra covid, não), não se fala mais em cloroquina (que, além de não adiantar nada, te dá um monte de efeito colateral, coisa que, num corpo já debilitado com o vírus da covid, só faz atrapalhar. E depois de te atrapalhar, pode te causar cegueira, insuficiência cardíaca e arritmias que podem ser fatais), não se fala mais em azitromicina (que é -ou deveria ser- usada contra infecções de bactérias. Usada indiscriminadamente, feito água, só faz fortalecer um monte de bactérias sinistras, que estão cada vez mais e mais resistentes a antibióticos potentes como a azitromicina. Você lembra por que, de uns tempos pra cá, a compra de antibiótico nas farmácias ficou mais burocrática? É para dificultar a compra desses medicamentos e, assim, evitar a resistência das bactérias a substâncias antibióticas, que são resultado do uso desenfreado e sem critérios desses medicamentos. Lembrou?)

2- Entra em campo a palavra TRATAMENTO. Vem de tratar, cuidar, resolver e acabar com um problema.

3- Ao substantivo tratamento, associa-se o adjetivo PRECOCE. Com toda a associação de ideias que eu já apontei lá em cima.

4- Pronto! Temos um sintagma perfeito! TRATAMENTO PRECOCE. É você se antecipar à doença, iniciar o tratamento o quanto antes para, se você adoecer, não ser muito grave.

Vacina? Não, é coisa do demônio! Coisa de chinês, eu que não vou tomar, não confio nisso não. Mas em cloroquina os *%#$% confiam, né?

Quais as consequências desta *%#$%*%#$%?

Em primeiro lugar: as pessoas relaxam nos cuidados. Por que usar máscara sempre nas ruas, feito focinheira de cachorro, se basta fazer o tratamento precoce?

Em segundo lugar: as pessoas se acham iluminadas e especiais: EU sigo esse protocolo [olha mais um termo técnico aí dando segurança pra quem compra esse discurso!], EU acredito no médico, EU faço o tratamento precoce, então nada vai acontecer comigo.

Some a isso vídeos feitos por canais evangélicos que enaltecem “a nação soberana que não se curva à máscara” e, “sob a proteção de Deus”, busca o tratamento precoce. Ou, então, blogueirinhas de Jesus (ou de Satã, pouco importa) fazendo publieditorial incentivando as pessoas a buscarem “atendimento precoce” (atendimento, nesse caso = tratamento) diante dos primeiros sintomas de Covid.

A essa soma, adicione uma série de autoridades (alô, Rodrigo Maia! Alô, STF! Alô, Conselho Federal de Medicina! É de vocês que eu tô falando!) que deveriam coibir esse comportamento genocida, homicida, e nada fazem. É mais uma vez aquela sensação de impunidade pra quem deveria ser punido com toda a severidade que, percebendo isso, pinta e borda diante de uma população vítima disso tudo.

O que esse pessoal chama de “tratamento precoce” eu chamo de genocídio assistido. Eu chamo de homicídio qualificado.

Agora eu vou falar uma coisa que você deve ter pensado lá em cima: por que diabos falar em discurso, em narrativa, numa hora dessas? Estamos com mais de 200 mil mortos, e os doentes de Manaus asfixiam por falta de oxigênio. Não precisamos de discurso, precisamos de ações precisas e eficazes!

Eu concordo com cada letra, cada vírgula do que está escrito aí. Mas perceber a sordidez dos usos de táticas de manipulação é um caminho sem volta. Então, perceber o que a direita – e, principalmente, os mais sórdidos expoentes evangélicos deste país – estão fazendo com a religiosidade, a informação e a saúde da população me tira ainda mais do sério.

Como eu disse, eu tô trabalhada no puro suco do ódio – azedado ainda mais no vinagre do discurso.

(E agradeço ao queridão do João Sérgio, colega dos bons tempos do Muda Mais, por me chamar a atenção à correlação entre precoce e tratamento de câncer).

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