Considerações sobre a entrevista de Wanderley Guilherme dos Santos, por José Cezar Castanhar

Algumas considerações sobre a entrevista de Wanderley Guilherme dos Santos ao Valor

por José Cezar Castanhar

Gostaria de compartilhar algumas considerações sobre o comentário de Luis Nassif hoje no GGN, a respeito da longa entrevista de Wanderley Guilherme ao jornal Valor.  

Nassif destaca da entrevista, três pontos que resumem a análise de Wanderley sobre as eleições presidenciais de 2018 e sobre o que ele espera de Lula para o êxito desse processo. A saber:

1)  Tendo em vista que o desastre do “governo” Temer é muito maior do que os golpistas mais pessimistas poderiam imaginar, a direita não terá como ganhar as eleições presidenciais em 2018;

2) Um  candidato que consiga unir as esquerdas ganhará as eleições, tão fácil como bater um pênalti sem goleiro (metáfora usada pelo Nassif, não pelo Wanderley);

3) A única coisa que pode atrapalhar esse cenário de vitória do campo progressista é a insistência de Lula em manter sua candidatura;

Ou seja, é só Lula aceitar sua condenação, retirar sua candidatura, deixar de fazer campanha e parar com essa história de que “Eleição sem Lula é fraude” que tudo se resolveria magicamente em Outubro de 2018.

Claro que o resumo de Nassif, embora destaque o essencial da argumentação de Wanderley sobre as eleições e o papel de vítima estoica que caberia à Lula, não aborda outros pontos cruciais da entrevista que, curiosamente, são contraditórios, a meu ver,  com essas conclusões.

Um aspecto importante a observar e reconhecer é a análise de Wanderley que, mediante o caos que o “governo” Temer impôs ao país, a única solução para desfazer o imbróglio em que estamos metidos (ou, pelo menos a de menor custo, como define Wanderley) seriam as eleições de 2018, o que significa que  assegurar que o calendário eleitoral seja mantido passaria a ser a prioridade fundamental para as forças políticas responsáveis (resultando daí a crítica a Lula, que com sua “teimosia” poderia, ou dividir as esquerdas, ou, o que seria ainda pior, acionar uma fase II do golpe que seria a interrupção do processo eleitoral).

Literalmente, diz Wanderley a horas tantas: “É injusto o Lula não ter direito de concorrer. Todos estão de acordo. Mas o tempo está passando. E só Lula pode acabar com isso”.

E é em relação a esse ponto que a entrevista revela algumas observações e conclusões de Wanderley que soam incoerentes em relação ao otimismo em relação à possibilidade de que as eleições de 2018 sejam o bálsamo com poder de tirar o país do abismo atual e, consequentemente, da utilidade e eficácia do sacrifício que se pede e se espera de Lula.

Assim,  por exemplo, Wanderley argumenta que, tendo em vista o desmonte social, deterioração do quadro político e a destruição da economia que se seguiu ao “governo” golpista, a coalizão golpista hoje só se mantem unida para impedir o retorno da esquerda ao Poder. 

E, naturalmente, lembra Wanderley, as estratégias para impedir o retorno da esquerda não serão limitadas por nenhum pudor ético ou respeito à qualquer instituição. 

Tanto é assim que Wanderley, vê no esforço desesperado de  FHC para “produzir” um candidato viável para a direita (à la Collor em 1989), uma última trincheira a impedir que o bloco golpista, diante de uma vitória da esquerda, rasgue a fantasia, vista a roupa da UDN e “vá para a rua querendo militar (golpe)”.

Além disso, o próprio Wanderley, em seu livro A Democracia Impedida, lançado no ano passado, faz uma crítica devastadora e implacável ao papel do judiciário na viabilização do golpe, iniciado no julgamento da ação penal 470. 

Essa crítica é detalhada, embora não se restrinja, no capítulo final do livro, não por acaso denominado “A expropriação constitucional do voto”. 

Nesse julgamento, o STF estabelece um novo “paradigma heurístico” para o processo penal no Brasil que, de embalo, elimina da Constituição garantias civis fundamentais, que vão resultar na aprovação no Supremo da prisão em segunda instância, novamente negando garantias fundamentais da Constituição brasileira. 

Numa crítica implacável e com estilo corrosivo, Wanderley enumera os pontos essenciais  desse novo “paradigma”, formulada, dentre outros ministros, por Joaquim Barbosa, Rosa Weber e Ayres Brito:

1) Sequestro do poder constituinte do povo (a Constituição é aquilo que o Supremo diz que é);

2) Disjunção epistemológica entre ser inocente e não ser culpado (o réu só não será considerado culpado, se provar que é inocente);

3) Imputação de possibilidade objetiva e causalidade adequada (tropicalização da Teoria do Domínio do Fato): se não forem encontradas provas contra o réu, é porque ele, com o seu poder político, foi capaz de ocultá-las ou destruí-las, logo, ele é culpado.

Como fica claro, esse novo “paradigma” é a própria definição da Lava Jato, particularmente no processo de Lula. Ou seja, a questão não é, como diz Wanderley, de que é injusto Lula não ter direito de concorrer. 

A questão é que todo o processo contra Lula é uma farsa gigantesca e cruel, como um único objetivo: interferir no processo eleitoral e assegurar que a direita, se produzir o seu Collor, leve a eleição de 2018. 

Nesse sentido, cobrar de Lula um altruísmo e resignação política e pessoal, para assegurar as eleições é ingenuidade, além de ser incoerente, não só com o que Wanderley escreveu no ano passado, como com o que disse na entrevista: Achávamos que Lula não ia ser chamado para depor; depois achávamos que ele não iria ser processado; que não seria condenado. 

Wanderley lembra que em todas essas oportunidades,  o povo foi às ruas para defender Lula e nada aconteceu. E a solução proposta é que Lula se conforme em cumprir 12 anos de prisão (apenas pelo processo do tríplex)?!?!?! E pedir a ele respeito às decisões dessa “justissa”, para assegurar a “lei e a ordem”?!?!?!

Isso me soa como se lideranças moderadas dos direitos civis dos Estados Unidos em 1963, pedissem a Martin Luther King que não saia de Selma em direção à Washington porque essa marcha seria ilegal, pelas leis vigentes, e poderia resultar em violência (por parte das forças da lei e da ordem) contra os manifestantes. 

Ora, era exatamente disso que se tratava: desrespeitar uma lei injusta, correr riscos (inclusive da vida) para mudar essa lei injusta.

Penso que a mobilização de Lula tem esse sentido. 

Despertar as pessoas da “anestesia” (como ele definiu a letargia e confusão em que vivemos hoje), radicalizando a discussão sobre a farsa que é o seu processo. 

E evidentemente, para isso, ele tem que se considerar um ator legítimo do processo político, quando mais não seja porque tem 40% das preferencias do eleitorado.

Apostar numa estratégia conciliadora e submissa nessa altura, pode até não ser, mas parece muito ingenuidade. Para tanto, é só lembrar que o próprio Wanderley diz na entrevista que os candidatos que se apresentam como alternativas do PT à Lula(Jacques Wagner e Haddad, até agora, são imediatamente vetados pela Lava Jato, mediante investigações, processos e exposição negativa na mídia. 

O que faria alguém crer que essa estratégia não será adotada contra qualquer representante da esquerda (Boulos, Manuela, até Ciro, com seu périplo do PDS ao PDT, passando por PMDB, PSDB e PPS), especialmente se esse nome resultar de uma coalizão?

Concluo lembrando o apelo de Aldo Fornazieri (por uma Política de Combate), ontem no GGN e lembrando as condições que Wanderley define para que exista algo que se possa denominar de democracia representativa:

1) a competição eleitoral pelos lugares de poder, a intervalos regulares, com regras explícitas, e cujos resultados sejam reconhecidos pelos competidores;

2) a participação da coletividade na competição se dê sob a regra do sufrágio universal, tendo por única barreira o requisito de idade limítrofe.

O golpe representou a quebra da primeira condição acima. 

Lula fora da eleição, seria ludibriar a segunda condição. 

Em resumo: Eleição sem Lula é Fraude.

 

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