De 2013 a 2018: interpretações sobre as jornadas de junho cinco anos depois

Jornadas de Junho não podem ser categorizadas como um evento da direita ou da esquerda / Pablo Vergara

Por Rafael Rezende, Simone Gomes e Marcelo Borel*

No Brasil de Fato

Aquele parecia ser mais um junho qualquer. Um mês comum para os brasileiros comuns. Tudo pronto para os tradicionais festejos de São João e o país, mesmo sem muito entusiasmo popular, aguardava o início da Copa das Confederações. O que ninguém previu foi que, naquele mês de 2013, as ruas seriam tomadas por multidões e se tornariam palco do maior ciclo de protestos da história do Brasil pós-redemocratização. Exatos cinco anos se passaram desde então e o Brasil ainda busca compreender o ocorrido. Sejamos claros: o objetivo deste não é explicar, mas pensar Junho de 2013.

Poucas vezes na história recente brasileira vimos um evento histórico suscitar análises e avaliações tão polarizadas. As chamadas Jornadas de Junho tornaram-se uma espécie de boneco de Judas, sobre o qual todos podem lançar suas paixões e frustrações. Os diagnósticos mais correntes se polarizam em duas leituras não contraditórias: as que buscam um sentido político imediato, qualificando as Jornadas de Junho como revolucionárias ou fascistas; e as que situam o governo PT ao cerne da análise, colocando-o em posição em embate com as manifestações. Ambos acabam por se mostrar análises vazias, que partem do nada rumo a lugar nenhum.

Para melhor pensarmos as Jornadas de Junho é necessário complexificar o debate. Em primeiro lugar, buscar compreender o ciclo de protestos não como uma convulsão social espontânea ou um evento premeditado, mas como um processo que não começou e nem se encerrou naquele mês. As entendemos como fruto de uma série de variáveis que envolvem um sentimento de indignação difusa, a proliferação de identidades, o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, e o surgimento de renovadas formas de organização que, até então, se constituíam de forma latente no tecido social.

Em segundo lugar, destacamos é que as Jornadas de Junho não podem ser categorizadas como um evento da direita ou da esquerda. A ausência de uma articulação central e de uma reivindicação unitária, entre outros motivos, fizeram com que grupos e indivíduos dos mais diferentes posicionamentos políticos fossem às ruas, muitas vezes compartilhando o mesmo espaço. As demandas apresentadas eram inúmeras e heterogêneas, assim como a composição social dos protestos, que foi muito mais diversa do que algumas análises apresentam. Por esses e outros motivos, será malsucedida qualquer tentativa de reduzir esse processo a uma categorização unitária e totalizante do seu sentido político.

Tentar compreender o processo de Junho de 2013 e seus desdobramentos é tarefa que envolve uma série de dificuldades: distintas motivações, atores antagônicos no espectro político-ideológico e pautas contraditórias. Dos vinte centavos ao descontentamento com o governo petista; da esquerda revolucionária à direita fascistoide; do clamor por um Estado mais forte e poroso à participação popular, ao “fora todos” e às reivindicações por reforma política. Passados cinco anos, já com certo distanciamento temporal e metodológico, podemos apontar a inclusão de novos repertórios de protesto, a reorganização ativista da direita, o aumento das manifestações em vias públicas – tanto por setores progressistas quanto conservadores –, e uma socialização política da juventude, além de crises institucionais notadamente atribuídas ao turbulento Junho. Todavia, há ainda uma densa neblina que não nos permite enxergar com total clareza os acontecimentos de Junho de 2013 em sua completude, observando-os para além das dicotomias políticas que lhes são inerentes.

*Rafael Rezende é doutorando em Sociologia no IESP/UERJ, Simone Gomes é professora de Sociologia da UFPel e Marcelo Borel é doutorando em Ciência Política no IESP/UERJ.

16 comentários

  1. Jornada de asnos

     

    Jornadas de asnos
    Conduzem o fio
    Desencapado do choque
    Que sequestra almas
    Que liberta monstros
    Que aprisiona sonhos.

  2. Agora está mais claro o que houve
    As jornadas de junho de 2013 foram a manifestação de um descontentamento difuso que vinha se acumulando desde 2011. O povo estava acostumado com as rápidas conquistas do tempo de Lula, o crescimento das bolsas e dos empregos, o aumento dos salários, e se cansou do reme-reme do governo Dilma. Tanto foi assim, que não houve de cara nenhum ataque direto contra o PT, coisa que só começaria a acontecer 3 anos depois, e foi isso que causou toda a confusão: afinal, esses caras estão contra quem? Em um momento inicial, muito hilário, Dilma chegou a acreditar que o movimento era de esquerda e a favor do governo, e lançou a proposta da tal constituinte para instituir a democracia participativa, “esquecendo-se” de que para convocar constituinte precisa de 2/3 do congresso. Não colou. Mas o ocorrido mostra bem claramente que a intenção do governo petista sempre foi dar um autogolpe para instituir uma constituinte a la Maduro, escolhida por movimentos sociais controlados pelo PT ao invés de sufrágio universal, o que foi efetivamente feito na Venezuela.  Na ocasião as reivindicações foram subjetivas, “contra tudo isso que está aí”, e não mencionavam pessoas ou partidos. Só depois, com o agravamento da crise, as manifestações se tornaram explicitamente anti-governo. 

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